visao.sapo.ptapfigueiredo - 23 jun. 08:00

Visão | Líderes sob ameaça

Visão | Líderes sob ameaça

Apesar da imagem de força e de união que Macron, Scholz e Draghi deram na deslocação à Ucrânia, todos eles têm agora as suas lideranças ameaçadas ou, no mínimo, sob grande pressão e desgaste interno

Há uma grande dúvida na China, ao que parece, que pode estar a condicionar muitas das decisões da segunda maior economia mundial: é preciso perceber, no congresso do PC Chinês, marcado para o outono, por quanto mais tempo Xi Jinping pretende ficar no cargo máximo do país. Ou seja: embora seja certo que vai cumprir o terceiro mandato (depois de ter revogado a limitação que o impedia), a dúvida está em saber se ele se prepara para se eternizar na liderança ou se deixará sinais sobre a sua substituição – e um sucessor designado – para daqui a cinco anos. E isso tem toda a importância dentro da orgânica de poder na China: saber se, apesar do seu imenso poder, Xi Jinping é ou não um líder a prazo – mesmo que esse prazo seja o período de tempo normal numa democracia europeia… Ora, se for considerado “a prazo”, Jinping já sabe que, à sua volta, começarão muitos jogos de bastidores para garantirem um quinhão de poder na próxima sucessão. Dentro da lógica chinesa, é até bem possível que muitos dirigentes passem a fingir obedecer às ordens do líder, ainda que resistam secretamente à sua aplicação.

Embora num plano diferente, existe um paralelo com o que ocorre, neste momento, em muitos países ocidentais: a ideia de que os seus líderes estão a prazo ou com o seu poder fragilizado, por não conseguirem controlar todas as estruturas de decisão. As eleições legislativas em França são a ilustração perfeita disso. Após ter sido reeleito Presidente, Emmanuel Macron acabou, poucas semanas depois, por perder a maioria que detinha no Parlamento e, com isso, perde igualmente muito do poder e força, essenciais para o seu objetivo de se projetar como o grande líder da Europa.

Essa fragilidade é também comum aos líderes da Alemanha e da Itália. Olaf Scholz, preso a uma coligação inédita e nem sempre muito dinâmica, tem perdido muito capital político nos últimos meses, nomeadamente com as suas indefinições face à Rússia, bem como no combate à inflação. O mesmo se sucede com Mario Draghi, numa Itália onde a instabilidade política é permanente e em que a ameaça de uma crise financeira reúne todos os cenários para desencadear uma catástrofe europeia.

Portanto, apesar da imagem de força e de união que Macron, Scholz e Draghi deram na deslocação à Ucrânia, todos eles têm agora as suas lideranças ameaçadas ou, no mínimo, sob grande pressão e desgaste interno. E essa não é a melhor notícia no momento em que se pede uma União Europeia mais coesa e atuante no plano internacional – não só para fazer frente à Rússia, de Putin, mas também para liderar a transição energética e o combate às alterações climáticas.

Nos EUA, a situação é ainda mais instável. Joe Biden arrisca-se a perder o controlo do Congresso já nas eleições intercalares de novembro e não é completamente certo que se recandidate a um segundo mandato na Casa Branca, em 2024, ou sequer que vença essa eleição, em vésperas de completar 82 anos. E, claro, no Reino Unido, a permanência de Boris Johnson na chefia do governo é vista como cada vez mais a prazo, ainda para mais quando enfrenta a maior onda de contestação laboral dos últimos anos.

O poder está, assim, por estes dias, como a inflação: numa espiral descontrolada, a espalhar incertezas por todo o mundo.

NewsItem [
pubDate=2022-06-23 07:00:00.0
, url=https://visao.sapo.pt/opiniao/ponto-de-vista/2022-06-23-lideres-sob-ameaca/
, host=visao.sapo.pt
, wordCount=555
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2022_06_23_1059191511_visao-lideres-sob-ameaca
, topics=[opinião, rui tavares guedes]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]