visao.sapo.ptapfigueiredo - 22 jun. 09:29

Visão | Não é tudo a mesma coisa

Visão | Não é tudo a mesma coisa

Cada vez que se fazem ou se admite a possibilidade de acordos com a extrema-direita, como o que aconteceu nos Açores, a normalização do ódio acontece. Mas também acontece quando se introduzem termos como “ditadura socialista” ou “extrema-esquerda”, que são não só profundamente desonestos como uma grave injúria para quem ainda hoje carrega na memória o peso de ter vivido numa verdadeira ditadura fascista

No último domingo realizaram-se importantes eleições legislativas na França. O Ensemble!, coligação do presidente Emmanuel Macron perdeu a larga maioria que tinha conquistado nas últimas eleições. Em 2017, esta proposta política “centrista” e liberal foi capaz irromper, assumindo-se como não sendo de esquerda nem de direita e colocando-se num patamar superior ao dos partidos tradicionais, imiscuídos nos seus bafientos jogos de poder e de corrupção. No entanto, ao longo da legislatura a máscara do centrismo iluminado foi caindo, ficando a descoberto a realidade neoliberal de um movimento de direita que não tem dúvidas de com que lado do espectro político negociar quando assim é necessário.

Para além do desgaste do governo, acelerado por um movimento social dinâmico e contestatário, a forma como a esquerda se apresentou nestas eleições foi um fator decisivo. Nas presidenciais, Jean-Luc Mélenchon, candidato do partido de esquerda França Insubmissa, alcançou 22% dos votos, mesmo disputando com uma série de outras candidaturas à esquerda, e por uma margem mínima não arredou a candidata de extrema-direita de disputar a segunda volta. Aprendendo com esta experiência, a esquerda uniu-se, com comunistas, socialistas e ecologistas de várias sensibilidades e coletivos numa candidatura única. O NUPES – Nova União Popular Ecológica e Social – provou ser uma fonte de esperança, mobilizando de forma inédita as forças de esquerda em França, em particular os mais jovens, em torno de um projeto solidário e fraterno, e de resistência face à ofensiva desreguladora e precarizante do presidente francês.

Apesar dos excelentes resultados da aliança de esquerda, que se estabeleceu como a principal força da oposição e aumentou fortemente a sua representação no parlamento, a extrema-direita de Le Pen obteve também o melhor resultado de sempre, passando de 8 deputados conquistados em 2017 para 89 nestas eleições. O crescimento da extrema-direita resulta, em grande parte, de uma estratégia de normalização do seu discurso. Quando um cordão sanitário se impunha, tal como se impôs quando a “frente republicana”, potenciada pelo ânimo antifascista do eleitorado de esquerda, elegeu Macron na segunda volta, os aliados do presidente recusaram-se a pô-lo em prática. Mais, houve até ministros que pediram uma “frente republicana” sim, mas contra a esquerda. Foi frequente a equiparação da “extrema-”esquerda à extrema-direita, como se fosse igual querer baixar a idade da reforma e aumentar salários, ou perseguir muçulmanos e fechar fronteiras. Esta estratégia teve só um resultado: de acordo com as sondagens, 72% dos eleitores do movimento de Macron na primeira volta decidiram abster-se na segunda volta, nos círculos eleitorais em que candidatos do NUPES defrontavam candidatos de extrema-direita.

Nada disto é novo. São conhecidas as consequências da normalização do discurso de ódio, do fascismo e da extrema-direita. Olhemos para o exemplo de Espanha, em concreto para as eleições autonómicas da Andaluzia que aconteceram no mesmo dia que as eleições francesas. O Ciudadanos, partido irmão do movimento de Macron e que também se começou por identificar como “nem de esquerda nem de direita”, perdeu toda a sua representação de 21 deputados, numa região que governava juntamente com o Partido Popular (PP) graças a um acordo com a extrema-direita. Deu mais um passo no seu já longo caminho da irrelevância política, estando a ser sistematicamente engolido a nível nacional por um PP ainda mais radicalizado – que utilizou nas eleições para a capital o slogan de campanha “Comunismo ou liberdade” – e por um Vox fascista que encontrou nos acordos de governo em comunidades como Madrid, Castela e Leão e Murcia, uma forma eficaz de se normalizar junto dos eleitores e de influenciar diretamente a governação. Relativizar o seu discurso por oportunismo e sede do poder é criar o ambiente perfeito para o desenvolvimento de movimentos de extrema-direita mais fortes e é escancarar a porta para a colonização de todo o sistema político e espaço mediático, arrastando toda a sociedade no caminho da intolerância e da desigualdade. É um processo através do qual mais ninguém ganha, nem mesmo quem começou por abrir a porta.

Também em Portugal, vivemos tempos de normalização. . Não é tudo a mesma coisa.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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