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Hoje, não tive tempo para estar triste

Hoje, não tive tempo para estar triste

Uma homenagem à Ana Gomes Ferreira, jornalista do PÚBLICO desde a sua fundação e que morreu nesta quarta-feira aos 56 anos.

Hoje, gostava de ter tido tempo para estar triste. Mas não tive. De repente, comecei a pensar nas coisas que me obrigaste a fazer nos anos em que fomos colegas de carteira, em que tu e eu e a Mitó lançávamos para o mundo uma revista de quase 100 páginas todas as semanas.

“Waze, e que tal se começasses a escrever uns textos de tratamentos de beleza na primeira pessoa?” “Waze, vamos fazer uma capa sobre a lampreia. Queres fazer tu?” “Waze, e que tal se fosses a Nova Iorque entrevistar um dos mais famosos criadores de moda do mundo?” E o Waze, que nunca tinha ido além de duas visitas anuais ao barbeiro, que não gostava de lampreia e que não percebia nada de moda, não sabia dizer não.

Era assim a Ana Gomes Ferreira, uma rapariga do Barreiro que foi tudo no PÚBLICO. Foi uma das estagiárias fundadoras que passaram em todas as provas depois de terem respondido a um anúncio de jornal de uma “Nova Empresa de Informação” para “um concurso para a selecção de Candidatos a Jornalistas”. Era uma das coisas que me causavam inveja, a de estar num sítio desde o início. Era eu ainda leitor de liceu e tu e os outros (estagiários e não só) andavam a fazer números zero, para que tudo saísse bem no número um tantas histórias que ouvi desses tempos, muitas contadas por ti.

A Ana passou pela Cultura, pelo Internacional, pela Sociedade, andou pelo mundo e escreveu sobre o mundo, parou em Nova Iorque – ela estava lá a 11 de Setembro de 2001 – e continuou em Lisboa para ser editora da revista de domingo (onde fomos colegas de carteira durante vários anos e muitas noites longas de fecho) e, depois, como ela própria escreveu, “da secção que se chama Mundo”. Editar o mundo, que responsabilidade do caraças.

A Ana nunca deixou de ser ou de pensar como uma grande repórter, mesmo depois de trocar a itinerância pelo conforto da rotina numa redacção – que, na verdade, nunca é rotineira, e todos os jornalistas irão confirmar isto. Porque havia sempre um mundo lá fora a que é preciso estar atento. Por mundo, leia-se tudo. O mundo não é só guerra. Até a própria guerra não é só guerra.

Esta é a marca de uma pessoa cosmopolita, com bagagem para escrever textos carregados de relevância sobre Osama bin Laden e Corin Tellado, sempre com os olhos bem abertos ao grande evento internacional e ao pequeno fait-divers, sempre com espírito crítico e incisivo, sem deslumbramentos – mas há momentos e registos em que o jornalista está autorizado a sentir-se deslumbrado e pode passar isso para quem o lê.

“Já escrevi muito, muito”, escreveste na autobiografia da tua página no site do PÚBLICO que reúne todos os teus textos. As duas últimas entradas são de textos replicados em Setembro do ano passado e que mandaste de Nova Iorque há 21 anos, um deles mais informativo, outro de quem estava com os pés naquele chão coberto de pó. Aqui fica um excerto para que as pessoas se lembrem de que escreves maravilhosamente. “O céu mudou de cor. Estava negro, do fumo dos incêndios que consumiram os edifícios. Ficou branco, de pó de tijolo e tinta e de todas as coisas de que são feitas os prédios. As torres ruíram ordeiramente, andar por andar. E, durante instantes, quando a estrutura não passava de um destroço no chão, a forma, o relevo, permaneceu, como um fantasma branco, feito de pó.” (Reportagem de Ana Gomes Ferreira, em Nova Iorque, publicado a 12 de Setembro de 2001.)

“O meu sonho é escrever romances de amor”, também escreveste naquela miniautobiografia que todos nós temos no site do jornal e que não fala das tuas duas filhas, nem do teu sentido de humor, refinado e mordaz, nem da doença que te tirou de nós. “Mas esses são os mais difíceis”, acrescentaste logo a seguir. Não tão difícil como este texto que também pretende ser um texto de amor e de admiração, de partilha e de desconsolo, de elogio e de saudade.

Até já, Ana.

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