www.jn.ptjn.pt - 15 mai. 01:00

I love New York

I love New York

Estão a ver aqueles amigos chatos que vos bombardeiam com fotos daquelas férias que fizeram num all-included em Varadero? Milhares de fotos de mar, cocktails às cores e selfies com sombreros? Pronto. É mais ou menos o que isto vai ser. Às vezes também precisamos destas conversas mais íntimas para fortalecer laços.

Quando chegou a pandemia a Portugal e fecharam as fronteiras, um dos meus primeiros pensamentos foi "Caraças! E não acredito que não fui a Nova Iorque", logo a seguir ao "nunca mais na vida vou ao supermercado sem estar vestida com um fato de pintor do AKI".

Sim, porque, na altura do confinamento obrigatório, a incerteza do futuro era tal que dei por mim a fazer uma bucketlist que incluía coisas como: aproveitar para abraçar mais os meus, conhecer Nova Iorque e ir buscar uma caneca de barro que fiz num workshop de cerâmica há dois anos e que ficou lá para cozer.

E fui agora. A Nova Iorque. Não à escola de cerâmica. Passaram dois anos! Tenho alguma vergonha na cara. E também porque entretanto fui arranjando outras coisas para oferecer no Dia do Pai. Admito que estava nervosa. Será que vai corresponder à expectativa? Nova Iorque sempre teve um estatuto de ídolo para mim. E costuma dizer-se "não conheças os teus ídolos", porque é possível que seja sujo, inseguro e de trato difícil. E Nova Iorque também foi tudo isso e muito mais.

Ir a Nova Iorque foi o mais próximo que estive de um encontro de Tinder bem sucedido. Andei tempos infinitos a namorar à distância, fartei-me de vídeos dela no telemóvel e quando finalmente marcámos encontro, o nervoso miudinho era muito porque há sempre o risco de não corresponder ao que vimos nas fotos. Mas foi amor à primeira vista. E que vista.

Uma mochila e lá fui eu. "Foste sozinha? Que coragem!". Não, não. Coragem é fazer turismo de praia fluvial no rio Cabul no Afeganistão. Ir para uma cidade enorme cheia de diversidade em que as ruas são organizadas por números e pontos cardeais e em que o maior desafio é fazer quilómetros a pé sem levar com uma bicicleta no tornozelo, não é nada. Ir sozinha é meter os maiores hits de musicais nos headphones e fazer de conta que estamos num filme de domingo à tarde. É ver os locais de séries como "Seinfeld", "Friends" ou "Sexo e a cidade", ou de filmes como o "Caça-fantasmas", o "Sozinho em casa" e quase todos os do Woody Allen e ficar com o coração a bater demasiado rápido. É perder-me em Central Park. Literal e figurativamente. É ficar assoberbada pela biblioteca pública e passar a tarde em livrarias para experimentar replicá-la na nossa casa. É comer cachorros no caminho de um famoso museu ou ao balcão acompanhada das pessoas do bar e de qualquer pessoa que se sentasse ao meu lado. É ouvir conversas laterais como por exemplo aquele dia em que fui jantar em Chinatown e presenciei a conversa de dois americanos sobre uma série qualquer, em que um afirmava convictamente que a Nova Zelândia fica no Norte da Europa, mais especificamente ao pé da Áustria. É ter de fazer regras de três simples para dar gorjetas e nunca saber o preço final que vamos pagar porque é como se fosse uma Makro gigante em que os impostos não estão contemplados no preçário. É acabar a noite em clubes de comédia em que o pior do alinhamento é bom ou a ver um musical que está em cartaz há décadas. As pessoas que dizem que não há coisas perfeitas, é porque nunca viram um espetáculo da Broadway.

Não vi ratos. Eu sei. Infelizmente perdi essa experiência turística. É que os edifícios são tão altos que nos obrigam a estar sempre com a cabeça nas nuvens. Os carros são grandes e faz sentido, porque se fossem do tamanho normal pareceriam carrinhos numa pista de brincar.

Saí de lá com a sensação de que uma vida inteira não chega para a conhecer e percebi porque é que Nova Iorque é a musa inspiradora de tantos artistas. Não é só pela paisagem ou pela diversidade que se cruza nas ruas. Talvez também seja porque a cidade é tão grande que se nos voltarmos a encontrar, é porque foi certamente obra do destino. Gostava de nunca lá ter ido, para ter a sensação de vê-la pela primeira vez. Esbarrar com ela, caírem-me os mapas e a mão dela tocar na minha enquanto nos levantamos em slow motion.

*Humorista

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