rr.sapo.ptrr.sapo.pt - 15 mai. 11:30

José Milhazes questiona: “Até quando a solidariedade vai continuar?”

José Milhazes questiona: “Até quando a solidariedade vai continuar?”

Numa sessão no Festival "Literatura em Viagem", em Matosinhos, o jornalista José Milhazes considerou que os ucranianos estão a ser a defesa da Europa e a sua “primeira trincheira” e qestionou o que vai acontecer à Rússia depois do conflito.

A sessão tinha como tema “A Geografia do Medo” e juntou um médico, uma enfermeira e um jornalista. A conversa viajou entre os temas da pandemia e da guerra. Numa sessão do Festival Literatura em Viagem, que decorre em Matosinhos, o público encheu a sala, com gente sentada pelo chão, para ouvir o médico Gustavo Carona, a enfermeira Carmen Garcia e jornalista José Milhazes.

Sobre a guerra na Ucrânia, o autor do livro “A Mais Breve História da Rússia” e antigo correspondente da SIC em Moscovo, afirmou que “em relação aos ucranianos, a procissão ainda vai no adro” e interrogou a audiência “até quando a solidariedade vai continuar?”.

Lembrando que não se sabe quando a ofensiva russa naquele território possa acabar, José Milhazes considerou que “os ucranianos estão a ser a nossa defesa, são a nossa primeira trincheira”. Afirmando que “a Rússia não vai ganhar esta guerra”, o jornalista interrogou-se sobre “o que vai acontecer depois? E se a Rússia se desintegra? Como é que se vão reorganizar as coisas?”

No entender do autor de “Rússia e Europa”, desconhece-se que Ucrânia teremos no fim do conflito. José Milhazes diz que o mundo está perante uma “guerra entre ditaduras e democracias”, onde “tudo se resume ao dinheiro que fala sempre mais alto” e onde o presidente russo sabe que jogo está a jogar.

“Na Rússia quem pia leva, nas democracias de 4 em 4 anos os líderes são substituídos”, lembrou Milhazes que viveu largos anos na Rússia. Confessando-se um pouco desiludido, e muito preocupado, o repórter afirmou: “o que nós deixamos aos nossos filhos é uma herança asquerosa. O Mundo que nós recebemos acabou no dia 24 de fevereiro, vivemos num mundo de incertezas.”

Foto: Maria João Costa/RR Foto: Maria João Costa/RR

Assumindo-se como católico, Milhazes diz hoje ter maior “dificuldade em entender o mundo”. “Estamos a ver hoje num patamar muito alto porque existem coisas como as bombas nucleares com que a humanidade há anos não lidava”. Embora não queira acreditar numa guerra nuclear, o jornalista considerou que estamos perante uma situação que “era previsível”.

Recusando a ideia de mostrar aos filhos que está em curso uma guerra no mundo, a enfermeira Carmen Garcia falou de outras guerras, a que os profissionais de saúde enfrentaram nos hospitais durante a pandemia.

A enfermeira que pouco antes da pandemia tinha deixado 12 anos de trabalho em cuidados intensivos, sentiu-se obrigada a voltar no pico da pandemia, durante ano 2020. “Ouvia dizer que não faltava nada, mas no turno tinha colegas a pregar pregos nas paredes para pendurar o soro e idosos em colchões do chão”. Nos piores dias da pandemia nos “cuidados intensivos houve um enfermeiro para cada quatro doentes”, referiu a profissional que admite que trabalhava “12 horas por dia, a seis dias por semana”.

Também quem lembrou os dias “duros de viver” durante a pandemia no hospital foi o médico Gustavo Carona. Autor dos livros “O Mundo Precisa de Saber” e “1001 Cartas para Mosul”, o clínico considerou que no cerne de todos os conflitos está a “ganância” e diz que tem faltado uma “ideia de cidadania mundial”.

Embora reconheça que “a Ucrânia não está no Top 30 dos dramas humanitários”, Gustavo Carona lembrou que “em termos de sofrimento humano”, a crise é enorme. Falando de racismo e xenofobia, o médico apontou que “havia sírios nas florestas na Polónia, e, com a guerra na Ucrânia, a Polónia abriu as portas a 3 milhões de ucranianos.”

“É importante as pessoas verem o que está a acontecer. Há brutalidade que não está ao alcance de todos” disse Gustavo Carona que apesar de tudo, considera que “há indicadores que a humanidade tem dado, passos sólidos, num bom caminho”. No futuro próximo, o médico deixou o desejo e a “esperança que a ONU sirva para alguma coisa.”

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