observador.ptobservador.pt - 15 mai. 10:56

"Conversations With Friends". Regressar ao mundo de Sally Rooney e à idade em que talvez tenhamos sido felizes

"Conversations With Friends". Regressar ao mundo de Sally Rooney e à idade em que talvez tenhamos sido felizes

Depois de "Normal People", esta é a segunda adaptação à TV de um romance da escritora irlandesa. Estreia-se este domingo, dia 15, na HBO Max. Já vimos os cinco primeiros episódios.

Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Conversas Entre Amigos (Editorial Presença) e Pessoas Normais (Relógio D’Água), os dois primeiros romances de Sally Rooney, têm vários pontos em comum: os protagonistas andam na universidade, grande parte da ação decorre entre conversas e convívios, as dores de crescimento são visíveis e, a partir de agora, são também séries de televisão. “Normal People” (HBO Max) estreou-se em 2020 e agora é a vez de “Conversations With Friends” chegar à HBO Max. Não precisa de ver uma para perceber a outra. Nada disso. Mas não perde nada em ver “Normal People”.

A série de 2020 foi um caso de sucesso. Os doze episódios estrearam-se de uma assentada em plena pandemia, no final de abril. O elenco jovem – com Daisy Edgar-Jones e Paul Mescal nos papéis principais – assentava que nem uma luva naqueles papéis. Ambos com corpos ainda disponíveis para “envelhecer” dentro daquelas idades (pré-universidade até ao período imediatamente a seguir) e com a dose certa de sensualidade e sexualidade. A forma como os dois abraçam as personagens – Marianne e Connell – têm impacto no espectador. Se a idade de quem vê bate certo com a das personagens, há uma certa ressonância; se for mais velho, o modo como os dois vivem impulsiona uma certa nostalgia por um tempo que se perdeu, que se viveu ou que nem se conheceu.

Noutras palavras: é uma série que nos faz sentir velhos. Não há mal nenhum nisso, mas é raro algo na televisão ter este impacto. Que é diferente de uma pessoa não ter paciência para ver porque não é para a sua idade ou porque o género já não á maduro o suficiente. O “fazer sentir velho” de “Normal People” é uma qualidade a ter em conta. Séries que abraçam gerações, como “Freaks And Geeks”, “Girls” ou “Euphoria” podem ter códigos ou atitudes que não se percebem. Mas não nos fazem sentir velhos. “Normal People” faz.

[o trailer de “Conversations With Friends”:]

É um dom que advém da sua normalidade. Sally Rooney tem um talento para contar histórias normais, com pessoas normais. É verdade que algumas delas – como Marianne – podem vir de alguns contextos que fogem a uma ideia de “pessoa comum” mas os seus comportamentos e decisões são relacionáveis. E é nesse relacionável que a ideia de um tempo que fugiu é tão bem comunicada: as irresponsabilidades das personagens são tão reais, tão próprias de um tempo de vida, que é angustiante sentir que esse tempo já passou.

E eis que se chega a nova adaptação, “Conversations With Friends”. Desta vez Sally Rooney não tem mão no argumento, Lenny Abrahamson continua a realizar alguns episódios (tal como aconteceu em “Normal People”), ele que está por detrás de objetos estranhos como “Frank”, enigmático filme de uma banda inspirado numa história real vivida por Jon Ronson. Mantêm-se doze episódios e as personagens têm pontos de contacto com algumas de “Normal People”, seja pela dualidade entre classe média baixa vs. privilégio ou o carácter universitário de algumas figuras.

Os cinco episódios a que tivemos acesso antes da estreia confirmam  a vontade de repetir os gestos de “Normal People”. E, tal como no livro, tudo acontece na informalidade das conversas e no quotidiano. Mas “Conversations With Friends” não se rege por uma história de um grande – e normal – amor, mas pela emancipação da protagonista, Frances (Alison Oliver), face às suas vulnerabilidades.

Estudante universitária de 21 anos, Frances escreve poesia com um desejo algo fugaz pela coisa. As pretensões a fazer daquilo carreira parecem sérias, mas cheias de pontos de interrogação. A sua melhor amiga, Bobbi (Sasha Lane), é também a sua ex-namorada. Bobbi é o oposto de Frances e é por isso que se completam tão bem nos espectáculos de poesia que organizam. É num desses espectáculos que conhecem Melissa, interpretada por Jemima Kirke, a Jessa de “Girls”.

Melissa, mais velha, nos trintas, tem uma carreira literária de sucesso. É casada com um ator famoso, Nick (Joe Alwyn), e aparentemente parecem ter uma vida invejável, com tudo no sítio e, melhor, com as carreiras e a articulação entre elas bem resolvidas. Melissa sente-se atraída por Frances e Bobbi, num sentido de as proteger e preparar para o mundo, ou seja, para a possível carreira que podem vir a ter. Por isso, começa a incluí-las em algumas das ruas rotinas e, posteriormente, em eventos sociais.

A partir daqui Frances e Nick sentem uma atração mútua e dado o ritmo a que se encontram, torna-se inevitável que comecem uma relação. Tanto no romance como nesta adaptação, o que salta à vista é como este romance, e a traição, estão muitas vezes em segundo plano, porque o que toma conta da atenção é a forma como a vida normal, pacata – até algo desinteressante – de Frances encontra uma razão para existir para lá das suas rotinas e conforto.

É aí que “Conversations With Friends” triunfa, apesar das quatro personagens estarem sempre muito presentes, é o jogo moral de Frances que conquista. Aí tem muitos traços com “A Pior Pessoa do Mundo”, o filme de Joachim Trier, um dos nomeados dos últimos Óscar para Melhor Filme Internacional, pela forma como situa o certo/errado com a geração que vive hoje nos 20/30s. E, tal como “Normal People”, “Conversations With Friends” tem um dinamismo contagiante, o tom certo para contar uma história onde pouco ou nada acontece, onde o quotidiano das personagens comanda a narrativa. E, tal como “Normal People”, lembra-nos da falta que estes dramas simples, relacionáveis, fazem.

NewsItem [
pubDate=2022-05-15 09:56:50.0
, url=https://observador.pt/2022/05/15/conversations-with-friends-regressar-ao-mundo-de-sally-rooney-e-a-idade-em-que-talvez-tenhamos-sido-felizes/
, host=observador.pt
, wordCount=918
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2022_05_15_32724753_-conversations-with-friends-regressar-ao-mundo-de-sally-rooney-e-a-idade-em-que-talvez-tenhamos-sido-felizes
, topics=[séries]
, sections=[]
, score=0.000000]