www.publico.ptpublico@publico.pt - 15 mai. 09:25

O perigo da mediatização do crime

O perigo da mediatização do crime

A pergunta que se impõe sobre Don’t F**k With Cats: teria o canadiano Luka Magnott embarcado nesta teatral jornada de terror, não fosse a janela das redes sociais e dos media? Atenção: este texto tem spoilers.

Ultimamente ando saudavelmente interessada — ou não, como veremos ao longo deste texto — em histórias de crime reais, sobretudo de assassinos em série. Não sei bem o que explica este súbito interesse, mas talvez a curiosidade mórbida que penso que todos temos, em certa medida, por narrativas macabras. Há algo que atrai nas mentes perversas, talvez a vontade de tentar perceber, em parte, o que motiva comportamentos tão horríveis.

Depois de Mindhunter, de Cenas de Homicídio - Uma Família Vizinha e de Emboscada Final, esbarrei-me em Don't F**k With Cats, documentário sobre a história de Luka Magnotta, um canadiano que começa por matar sadicamente gatos bebés, escalando depois para o perturbador homicídio de um estudante chinês chamado Jun Lin, em 2012.

O documentário mexeu comigo como raras vezes acontece. Deixou-me a pensar e levou-me a escrever, aguçando a reflexão sobre os efeitos profundamente nocivos da mediatização do crime e, sobretudo, sobre a nossa responsabilidade, enquanto público.

Vale a pena contextualizar o caso. No documentário, Luka Magnotta, à data com 29 anos, é retratado como sendo portador de uma personalidade extremamente narcisista, mas ao mesmo tempo inferiorizada, por não gozar, pelo menos até ficar conhecido pelo crime, da fama de que se sente merecedor. Depois de ter sido alvo de bullying durante anos, como relata a sua mãe, Magnotta tenta vingar como actor ou modelo, sem sucesso, tornando-se mais tarde, actor pornográfico e, pontualmente, stripper e acompanhante.

O universo online assume um papel determinante no percurso de Luka. É na Internet que começa por publicar vídeos terríveis de tortura animal e, mais tarde, do assassinato de Jun Lin, despoletando uma vaga de indignação nas redes sociais e, ao mesmo tempo, uma investigação proactiva levada a cabo por utilizadores do Facebook. Investigação essa que, como o documentário muito bem sublinha, pode ter ajudado à captura do homicida, mas também encorajado os comportamentos de Magnotta, que via no constante falatório nas redes sociais uma alavanca para a tão desejada fama.

A cultura popular e, em particular, o cinema, também é uma peça chave nesta história. Numa reviravolta que nos deixa perfeitamente boquiabertos, ficamos a saber, no final do documentário, que Magnotta mimetizou a personagem de Sharon Stone no filme Instinto Fatal. Além de matar Lin de forma semelhante à do filme, imitou até o inesquecível cruzar de pernas da actriz durante um interrogatório da polícia.

E agora, as perguntas que se impõem: teria o canadiano embarcado nesta teatral jornada de terror, não fosse a janela das redes sociais e dos media? Faz sentido eternizarmos filmes que elevam a ícones assassinos brutais e que inspiram potenciais homicidas? Será saudável o nosso interesse por histórias macabras se, como Luka Magnotta indiscutivelmente confirma, isso encoraja os criminosos?

O mal-estar que sinto ao escrever estas perguntas diz-me que a resposta para todas elas é não. A mediatização do crime, apesar da responsabilização dos criminosos em massa que pode desencadear, promove em nós uma curiosidade mórbida que é mais maléfica do que benéfica, e, em última análise, que é co-responsável pela concretização deste tipo de atrocidades.

Na minha opinião, o Don't F**k With Cats destaca-se de outras produções semelhantes, precisamente por não fugir a esta responsabilização do público, tantas vezes esquecida. Com efeito, o fim do documentário é brilhante. Sem aviso, uma das investigadoras informais do Facebook fita de repente a câmara, depois de se questionar sobre o seu próprio papel na jornada de Luka, e diz-nos que nós, também, encorajamos a violência, pelo tempo de antena que, ao vermos este tipo de produções, damos aos criminosos.

“Está na hora de desligar a máquina”, podemos ouvir, numa frase que me arrepiou e que, efectivamente, disciplinou, pelo menos temporariamente, a minha muito pouco saudável curiosidade por histórias de crime reais.

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