www.jn.ptjn.pt - 14 mai. 01:06

Círculo vicioso

Círculo vicioso

Sem surpresa nenhuma, esta semana lemos as conclusões do Banco de Portugal de que nascer rico ou nascer pobre, ter pais com ou sem qualificações, nos diz como será parte do nosso percurso de vida.

No Boletim de maio do Banco de Portugal consta que apenas um em cada cinco portugueses cujos pais estudaram até ao 9.º ano conseguiram tirar um curso superior, descendo para quase metade nos casos em que a família vem de uma situação de maior vulnerabilidade económica. Já em 2018, num relatório publicado pela OCDE, era clara a conclusão de que o elevador social estava e continua avariado em Portugal e a igualdade de oportunidades é ainda uma ficção.

Se não é surpreendente a divulgação destes dados, já o é a relativa indiferença ou transigência com que são recebidos. As parcas e tímidas reações do poder político a estes estudos que vão sendo publicados não deixam de incomodar, porque parecem conviver bem com um modelo de desenvolvimento que condena os mais frágeis e vulneráveis a um ciclo de pobreza e exclusão.

De facto, as origens socioeconómicas e o capital humano dos pais continuam a marcar indelevelmente as hipóteses de crianças e jovens terem uma carreira de sucesso. Não obstante terem sido dados passos significativos, nas últimas décadas, na promoção e melhoria da escolaridade dos portugueses, na percentagem de população entre os 25 e os 64 anos com, pelo menos, o ensino secundário completo, estamos na última posição entre os estados-membros da União Europeia. Se estes dados são um embaraço, podem ser mais do que isso: um desafio comum e partilhado a que coletivamente temos de dar resposta nos próximos anos.

Sem prejuízo das evidentes e saudáveis diferenças partidárias que separam os vários responsáveis políticos, concordarão (quase) todos que a chave do problema reside na Educação, como principal fator de elevação social. Seja na aposta real, e que chegue a todo o país, no ensino pré-escolar, seja na necessidade de encarar a Educação como um bem individual que nos deve acompanhar ao longo de toda a vida, o mínimo que se exige ao poder político é que tenha uma estratégia clara que contrarie este círculo vicioso em que tantos se encontram. Um círculo em que o apelido dos pais, o local onde nascemos, o material de que é feito o nosso berço continuam a ditar grande parte das oportunidades que teremos ao longo da vida, salvo raríssimas exceções. Façamos das exceções a regra, arranjando o elevador social.

*Jurista

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