visao.sapo.ptClara Cardoso - 14 mai. 08:40

Visão | A força de cada mulher é a nossa força

Visão | A força de cada mulher é a nossa força

A sede da associação Corações Com Coroa ocupa há uma década a casinha “da porteira”, um anexo da Biblioteca de Belém, que guarda o espólio feminista Ana de Castro Osório, com mais de 1700 obras sobre as mulheres e as temáticas da igualdade de género. Acredito que não é por acaso...

Foi há 10 anos. Inspirada pela minha missão voluntária enquanto Embaixadora de Boa Vontade do Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA), juntei-me a pessoas amigas com a mesma vontade de ajudar a construir um mundo mais justo e igualitário, e fizemos nascer a Associação sem fins lucrativos e ONGD Corações Com Coroa (CCC).

Acredito, até por tudo o que tenho testemunhado no terreno em países em desenvolvimento como a Índia, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Indonésia, Timor, Bangladesh, Uganda, Haiti, Sudão do Sul, São Tomé e Príncipe, Colômbia, Gana, Egipto ou Quénia, como Embaixadora do UNFPA e enquanto documentarista da série televisiva “Príncipes do Nada”— , que a solução para erradicar a pobreza extrema passa por um sério investimento na igualdade de género, nos direitos sexuais e reprodutivos e na saúde materna. Passa pela promoção do acesso à educação e aos serviços de saúde para raparigas e mulheres. Exige uma aceleração que permita a concretização das 169 metas que compõem os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que os Estados Membro da ONU acordaram cumprir até 2030.

Há três zeros que é crucial conseguirmos atingir até lá: Zero mortes maternas, zero formas de violência com base no género e zero necessidades não resolvidas em termos de planeamento familiar.

Há mais 20 anos que ouço as populações e os saberes de quem todos os dias trabalha os Direitos Humanos e a conclusão a que chego é sempre a mesma: as meninas, raparigas e mulheres são quem mais sofre. Por diferentes formas de violência, casamentos precoces e forçados, mutilação genital feminina, gravidez adolescente não planeada, fístula obstétrica, abusos sexuais.

Os números confirmam-no. Mais de 130 milhões de raparigas estão fora da escola, 200 milhões de mulheres vivem com as consequências de uma Mutilação Genital Feminina. E, para as 48 milhões de mulheres e meninas a precisar de assistência humanitária, incluindo quatro milhões de grávidas, a Covid-19 veio aumentar o risco.

Mesmo em situações de fuga por conflito ou catástrofes naturais continuam a nascer crianças, as meninas e mulheres continuam a menstruar e persistem as violações. Além disso, são frequentemente armas de troca por bens essenciais.

Nesta humanidade partilhada, no século XXI todos os dias morrem 830 mulheres por causas evitáveis associadas à gravidez e ao parto. A cada 11 segundos, uma grávida ou um bebé perdem a vida. Mais de 218 milhões de mulheres não conseguem aceder a contracetivos modernos. Quase metade de todas as gravidezes não são intencionais: 121 milhões por ano.

São realidade globais, que tendemos a ver como distantes. Mas a verdade é que também em Portugal os desafios que as mulheres têm de enfrentar são enormes: violência doméstica (uma em cada três mulheres é vítima de violência ao longo da sua vida); trabalho não formal não pago; trabalho não digno; ausência de responsabilidade parental dos seus companheiros; assédio sexual, salários desiguais para as mesmas funções; menos participação publica e menos oportunidades de subir na carreira; melhores resultados académicos mas sem reflexo na integração no mercado de trabalho.

Dizem os estudos que nos postos mais altos de poder de decisão, serão precisos 130 anos para que as mulheres atinjam as mesmas oportunidades.

A CCC nasceu da vontade de contribuir para acelerar este objetivo, também em Portugal. Dez anos de CCC são 10 anos de investimento no potencial de cada jovem rapariga, no empoderamento de cada mulher que nos procura. Pela sua dignidade e através das ações inscritas no nosso ADN: apoiar, informar, capacitar.

A solidariedade em que acreditamos e que praticamos é uma solidariedade afetiva, próxima, que escuta com respeito as necessidades de quem precisa de apoio. E por isso também uma solidariedade efetiva, que resolve problemas, que promove a autonomia, que se orgulha de cada vida reconstruída e de cada sonho concretizado.

A força de cada mulher é a nossa força. Não desistimos de ninguém. Somos uma pequena grande equipa que todos os dias se coloca, realmente no lugar de quem precisa que lhe retirem de cima, o pó pesado e paralisante das desigualdades de oportunidades, das injustiças, das violências e dos infortúnios. Pessoalmente, fico orgulhosa pelo facto do meu voluntariado permitir já oito postos de trabalho com contrato e ainda muitas avenças.

Há uma frase do jornalista Eduardo Galeano que tem inspirado o nosso trabalho nestes 10 anos:

Eu não acredito em caridade, eu acredito em solidariedade. Caridade é tão vertical: vai de cima para baixo. Solidariedade é horizontal: respeita a outra pessoa e aprende com o outro. A maioria de nós tem muito a aprender com as outras pessoas”, diz Galeano.

Nós temos aprendido muito. Temos uma contabilidade transparente, uma seriedade e ética à prova de bala e uma nova imagem que espelha a nossa maturidade. Acreditamos num mundo ondeninguém é ignorado, esquecido, negligenciado, calado, oprimido ou discriminado.

Passaram 10 anos e conseguimos tocar as vidas de centenas de raparigas e mulheres.

Atribuímos 34 bolsas de estudo, em áreas tão diferentes como Enfermagem, Direito, Fisioterapia, Medicina, Terapia da Fala, Marketing, Engenharia ou Economia. As nossas bolseiras, com o apoio biopsicossocial, passam a voar sozinhas, sem nunca cortarem o cordão umbilical com a CCC. Depois dos três anos de bolsa, continuam a visitar-nos, a partilhar as suas decisões, confidências e conquistas.

O serviço gratuito diário de atendimento & consultas nas áreas de psicologia, serviço social, saúde oral, apoio jurídico, já permitiu que 584 mulheres mudassem a sua vida para melhor, num verdadeiro exercício de empoderamento.

Com o projeto CCC Vai à escola, para prevenir e combater a violência no namoro e o bullying já chegámos a 7762 alunos e alunos do país inteiro.

Na Guiné Bissau, equipámos nove enfermarias na maternidade do principal hospital nacional Simão Mendes, com 100 camas e entregamos material médico, aparelhos ao serviço e kits de dignidade às mães. Demos ainda duas ações de formação na área da saúde materna.

Queremos ajudar a informar através das conferências anuais e das tertúlias no CCC Café, projeto pioneiro, social, cujas receitas revertem na íntegra para o emprego feminino e para o trabalho da associação.Consome-se com responsabilidade social e cada cliente sente-se em causa.

Entregamos todos os anos os Prémios Corações Capazes de Construir nas categorias de Jornalismo e Campanha porque sempre me foi dito que “os Direitos humanos não vendem”. Não acredito. Acredito na abordagem que dignifica quem necessita de ter o microfone e o holofote em cima, para que, como consequência, cada cidadão informado, seja responsável e lute pelo reconhecimento dos direitos individuais e coletivos.

Tenho trabalhado muito com jovens, com proximidade e vontade de ouvir e partilhar. Digo-lhes que residem neles os poderes para fazer mudar mentalidades e realidades, que violentam e discriminam. É necessário sentido de compromisso; curiosidade para conhecer e aceitar a diferença; ter consciência dos próprios privilégios, para poder colocá-los ao serviço dos outros.

Digo também para não terem medo das emoções; não invejarem a vida de ninguém; perceberem que as suas escolhas determinam, a maior parte das vezes, as suas oportunidades. Que o direito à autonomia corporal está contemplado e que ele implica um respeito por si próprio e uma enorme responsabilidade relativamente às suas ações.

Às raparigas, repito que a menstruação não pode ser nunca encarada como um tabu, que as discrimina e aumenta a desvantagem social. Informação é poder e ela está disponível também nos capítulos da sexualidade.

Acrescento ainda que pertencem à maior geração de jovens de sempre e que, se um dia elas decidirem ser mães, e o forem de filhos rapazes, que tenham muita atenção na forma como os vão educar para que no seu quotidiano possam também derrubar todos os estereótipos de género e promover o seu crescimento enquanto pessoas feministas, que lutam para uma efetiva igualdade de género. Para que um dia a frase “as mulheres são más umas para as outras!” pertença ao passado, ensino-lhes o significado da palavra sororidade.

P.S: Com a festa de hoje dos dez anos da CCC no Teatro da Trindade, das 14.15 às 17.30, com entrada gratuita, queremos agradecer a quem nos ajuda a ajudar, homenagear todas as raparigas e mulheres que se reergueram ao nosso lado, e celebrar a empatia através também da inauguração de uma exposição de fotografia sobre os nossos projetos. Apareçam!

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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