www.dinheirovivo.ptdinheirovivo.pt - 14 mai. 12:29

Onde está o serviço público audiovisual?

Onde está o serviço público audiovisual?

Confesso que não costumo ver os concursos de talentos, uma variante dos reality shows, na qual candidatos a estrelas são sujeitos a um júri que é uma das partes mais importantes do espetáculo, porque cada um dos seus membros já é ele próprio uma estrela - e aos quais a produção incentiva comportamentos excessivos. Mas na semana passada, por puro acaso, vi um bocado de um programa destes, exibido na RTP1 - The Voice Kids. E devo dizer que fiquei muito incomodado quando percebi que estava um miúdo a chorar, depois dos comentários do júri. A realização focava o rapaz a chorar em grande plano, claramente perturbado, cercado por vários membros do júri, alguns com pose agressiva. Tenho as maiores dúvidas de que este tipo de programas seja aceitável numa estação de serviço público - e bem sei que o formato foi originário na BBC, que também não é livre de pecados. Para falar claro - é exploração primária de emoções, ainda por cima numa criança. Se olharmos para a programação da RTP1, verificamos que os momentos de maior audiência são fruto do concurso O Preço Certo, de transmissões de jogos de futebol e de alguns programas de informação, para além de programas como este The Voice Kids ou concursos como o Joker.

Confesso que não costumo ver os concursos de talentos, uma variante dos reality shows, na qual candidatos a estrelas são sujeitos a um júri que é uma das partes mais importantes do espetáculo, porque cada um dos seus membros já é ele próprio uma estrela - e aos quais a produção incentiva comportamentos excessivos. Mas na semana passada, por puro acaso, vi um bocado de um programa destes, exibido na RTP1 - The Voice Kids. E devo dizer que fiquei muito incomodado quando percebi que estava um miúdo a chorar, depois dos comentários do júri. A realização focava o rapaz a chorar em grande plano, claramente perturbado, cercado por vários membros do júri, alguns com pose agressiva. Tenho as maiores dúvidas de que este tipo de programas seja aceitável numa estação de serviço público - e bem sei que o formato foi originário na BBC, que também não é livre de pecados. Para falar claro - é exploração primária de emoções, ainda por cima numa criança.
Se olharmos para a programação da RTP1, verificamos que os momentos de maior audiência são fruto do concurso O Preço Certo, de transmissões de jogos de futebol e de alguns programas de informação, para além de programas como este The Voice Kids ou concursos como o Joker.

Creio que se pode dizer que a maioria da programação da RTP1 e grande parte do seu investimento em grelha está dirigida à obtenção do máximo de audiências possíveis, sem grande consideração pela qualidade e sobretudo pelos princípios de serviço público - e aqui cito a declaração programática da BBC: fazer programas de elevada qualidade para audiências diversificadas, de forma imparcial, com o objetivo de proporcionar programas que informem, eduquem e entretenham. Conseguem ver isto na RTP1?

Aqui há uns anos, numa infeliz decisão de Poiares Maduro, que se inspirou num modelo entretanto abandonado pela BBC, foi criado o Conselho Geral Independente da RTP, posteriormente apelidado de Conselho Inútil, pela notória irrelevância da sua atuação, nomeadamente como garante dos princípios de serviço público audiovisual. Nos casos mais duvidosos de programação, como este surgido em The Voice Kids, não se ouve um pio às sumidades que integram esse Conselho.

Quanto à empresa que tem a concessão do serviço público, a RTP escuda-se na RTP2, que tem uma ínfima parte dos recursos, para dizer que é ali que cumpre grande parte da sua missão de serviço público. Apesar do milagre que a RTP2 consegue com poucos meios, o serviço que presta não pode ser usado como justificação para encobrir o desvio em relação às obrigações de serviço público que são demasiado frequentes na RTP1.

Vamos a números: na semana passada O Preço Certo, quase sempre o mais visto da RTP1, teve na sua emissão com maior audiência, cerca de 826 mil espectadores e The Voice Kids registou cerca de 700 mil e a série Três Mulheres, um dos bons esforços da RTP em matéria de produção de ficção, ficou-se pelos 340 mil. Isto compara com cerca de 72 mil espectadores no Jornal 2 e na série Assuntos Legais. Já agora, o programa mais visto da CNN teve cerca de 150 mil espectadores e o da CMTV teve cerca de 690 mil.

O objetivo de um serviço público audiovisual não pode ser só obter audiências - embora as deva ter em consideração, dentro do espetro de programas que constituem a sua missão. Mas o que se passa hoje em dia não é nada disso. E creio que a principal razão porque isso acontece é que atualmente a missão de serviço público da RTP não é de facto escrutinada, analisada com base em indicadores claros avaliados por especialistas.

Sob o pretexto de eliminar a fiscalização partidária que ocorria na Assembleia da República, criou-se um órgão que nem avalia nem se atreve a criticar e vigiar se o operador de serviço público serve para fazer concorrência aos privados ou se serve para fazer programas diferenciadores que não são oferecidos por esses mesmos privados. Onde está o serviço público audiovisual?

SF Media

NewsItem [
pubDate=2022-05-14 11:29:00.0
, url=https://www.dinheirovivo.pt/opiniao/onde-esta-o-servico-publico-audiovisual--14854009.html
, host=www.dinheirovivo.pt
, wordCount=661
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2022_05_14_1874969443_onde-esta-o-servico-publico-audiovisual
, topics=[opinião, opinião: manuel falcão, economia]
, sections=[opiniao, economia]
, score=0.000000]