observador.ptobservador.pt - 14 mai. 17:48

Movimento cívico denuncia abate de "árvores históricas" em obra da IP em Gaia

Movimento cívico denuncia abate de "árvores históricas" em obra da IP em Gaia

Obra da IP já motivou queixas junto do Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto, bem como ao Ministério Público e ao Provedor da Justiça Europeu, com o argumento de mau uso de fundos comunitários.

O movimento cívico Cidadãos da Praia da Granja, que tem contestado a obra que a Infraestruturas de Portugal (IP) está a realizar na Linha do Norte, em Vila Nova de Gaia, denunciou este sábado o abate de “árvores históricas”.

Numa carta aberta dirigida ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), o grupo fala em “abate de árvores centenárias” e relaciona a operação, na sexta-feira, na Avenida Sacadura Cabral, na localidade da Granja, concelho de Vila Nova de Gaia, com as obras que a IP está a levar a cabo no troço ferroviário da Linha do Norte.

“Fomos surpreendidos com um abate de árvores históricas, um abate que não compreendemos e só pode estar relacionado com a obra da IP. É mais uma evidência de que não vão parar apesar da população se manifestar contra e da obra constituir um total desrespeito pela identidade da zona”, disse à agência Lusa o porta-voz do movimento, Vasco Sousa.

Já na carta dirigida ao ICNF e partilhada com a Lusa, o grupo fala em “sentimento de impotência perante a força de quem pode decidir” e pede ao instituto que trave a “desconsideração a uma das zonas balneares mais bonitas do país”.

“Iremos passar de geração em geração as histórias que marcam a Granja. O dia em que fomos abatidos, árvores e pessoas, não será esquecido”, acrescentam.

Sobre a obra da IP, uma empreitada que já motivou queixas junto do Tribunal Administrativo e Fiscal do Porto, bem como ao Ministério Público e ao Provedor da Justiça Europeu, com o argumento de mau uso de fundos comunitários, o movimento critica o “progresso em betão” que coincide com a “regressão em humanidade”.

Em causa está o projeto que a IP tem vindo a implementar ao longo do troço ferroviário da Linha do Norte entre Espinho (distrito de Aveiro) e Vila Nova de Gaia (distrito do Porto), o qual inclui a colocação de separações acústicas, reformulação de apeadeiros e construção de passagens pedonais superiores para substituir as atuais.

Movimentos cívicos de várias localidades de Vila Nova de Gaia, nomeadamente da Granja, Aguda e Miramar, têm vindo a contestar a empreitada através de queixas a instituições, petições públicas, pedidos de esclarecimento e protestos, como o organizado a 30 de abril e juntou no local cerca de uma centena de pessoas.

O Cidadãos da Praia da Granja critica, entre outros elementos da empreitada, a passagem pedestre aérea que está projetada para a estação local, a qual, segundo o movimento, terá “quase 12 metros de altura, três torres de vigia e muros infindáveis de betão armado entre os três e seis metros”.

“Torres, muros, betão armado, conceitos que irão permear a separação entre duas Granjas, a de cima e a de baixo, qual retorno infeliz a um passado prévio ao 25 de Abril em que a estratificação social nos separava”, lê-se no texto enviado ao ICNF.

A 14 de abril, em resposta à agência Lusa, a IP afirmou que a construção de uma passagem inferior pedonal para substituir a superior que é contestada pelos moradores constitui “maior risco à segurança dos utentes”.

“A criação de uma passagem inferior pedonal não asseguraria condições de visibilidade do exterior para o interior da passagem, o que constitui um maior risco a segurança dos utentes, e, em caso de falha de fornecimento de energia ao sistema de bombagem, ficaria impedido o acesso dos passageiros à plataforma central e a evacuação dos mesmos em casos de emergência e socorro”, referiu a IP.

Na resposta, a IP admitia que se comprometeu, após a reclamação apresentada no ano passado por um grupo de cidadãos, a analisar a viabilidade de uma solução de desnivelamento inferior à linha férrea, no entanto concluiu que essa não é possível.

“[A passagem superior oferece] melhores condições de salubridade e segurança”, resumiu a empresa.

A Lusa contactou a Câmara de Gaia, que recordou que este processo inclui uma ação judicial, algo que “o município respeita”, mas “impede a continuação do debate público”.

Também a este propósito, em declarações à Lusa na segunda-feira, o arquiteto e professor universitário Correia Fernandes considerou que a obra “é uma agressão” e está “tecnicamente mal justificada”.

A 22 de abril, também a associação ambientalista Campo Aberto acusou a IP de atitude “pouco democrática”, manifestando-se “solidária” com os moradores que classificam algumas das estruturas projetadas de “mamarracho”, “escarro arquitetónico” ou “muros de Berlim”.

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