ionline.sapo.ptRui Patrício - 13 mai. 09:11

Uma bofetada na civilização do exagero

Uma bofetada na civilização do exagero

Tenham dó, vão mas é ocupar-se, cresçam um bocadinho, tirem a estafada e cansativa empatia da lapela e, já agora, não deitem fora o bebé com a água do banho.

Civilização do espetáculo, civilização digital, et cetera; as coisas que já chamaram e que chamam ao nosso tempo. E estarão todas muito certas, não ponho em causa. Mas eu gosto mais de civilização do exagero, no sentido de que qualquer coisa (mesmo aquelas – e são muitas – que começam bem e por bons motivos)  acaba quase sempre por se transformar em hipérbole e por conduzir a resultados que tenho por negativos. Pensemos no cancelamento cultural, no Woke, no #MeToo, ou no policiamento e na tentativa de neutralização da linguagem em geral. E há mais, fiquemos por aqui (estou-me a conter para não discorrer, por exemplo, sobre a epidemia de assédio moral). Estava tudo muito bem, os propósitos são certos e são importantes, mas depois cai-se num exagero que, não só é contraproducente e, também, abre caixas incontroláveis de Pandora, como gera novas divisões, novos maniqueísmos, novas opressões (além dos muitos apontamentos de ridículo). Há exemplos deste exagero por toda a parte, sendo que alguns são apenas pueris, mas outros são muito perigosos, sobretudo quando visam eliminar categorias estruturais substituindo-as por (novas) categorias por decreto, numa espécie de limpeza quase à Robespierre. Às vezes fico com a sensação de que alguns dos cultores destas coisas, numa espécie de leninismo pós-moderno, transformam o pensamento critico de desconstrução da norma ou anti normativo numa Grande Norma, como se por exemplo Foucault deixasse de ser um importante pensador e passasse a ser um Apóstolo, um Totem ou, pior, um Primeiro Cônsul.

Querem um exemplo deste exagero? Pois bem, regressemos à bofetada que Will Smith assentou em Chris Rock na cerimónia dos Óscares em março passado. Ainda se lembram? Espero que sim, porque durante dias e dias o episódio foi elevado aos altares das coisas mais importantes para a Humanidade. Ora, a bofetada foi duplamente estúpida, acho eu. Primeiro, porque uma piada (mesmo que doa, como aliás costuma acontecer com as piadas, caso contrário não têm graça na maior parte dos casos) não é razão para desatar à chapada. Já não se podem dizer piadas? Pelos vistos não. Ou só se pode sobre certas coisas, por exemplo flores, abelhas, criancinhas ou naturezas mortas (perdão, naturezas que já não estão na condição de vivas, porque agora tudo é condição, não há doença, não há enfermidade, não há morte – não há nada, só muito tédio e muito ambiente liofilizado). Segundo, dar bofetadas é em geral estúpido, e não é uma coisa boa, nem de aplaudir ou incentivar. E frente às câmaras ainda é mais estúpido, não só pelo mau exemplo que se dá, mas também porque se revela (ao fazer a coisa à vista de todos) uma de três coisas, nenhuma boa: sentido de impunidade, descontrolo ou tolice.

TODAVIA – e vai em maiúsculas propositadamente -, tratou-se apenas de uma bofetada. Não é bom, não é bonito, não é de encomiar; sim senhor, está mal e tal. Mas pronto, ponto final parágrafo. Não foi o fim do mundo, não é razão para tanto abalo, chilique, opinião, grito, protesto, reflexão; enfim, um caleidoscópio de exageros que ocupou os dias e as manchetes, como se fosse uma coisa muito importante; até parece que vivemos numa civilização desocupada e/ou governada por uma aparvalhada puberdade. Repito, tratou-se apenas de uma bofetada. Não justifica crucificar Will Smith. E ainda menos – porque isso é muito mais estúpido, e muito mais perigoso – com argumentos do tipo “foi uma manifestação de masculinidade tóxica”. Se fosse uma mulher, era feminilidade tóxica? E se fosse alguém não binário, era o quê? Et cetera. E, por um bambúrrio feliz, quem deu e quem levou a bofetada são, como sói dizer-se, afro-americanos. Imagine-se que um não era? Jesus, então aí teríamos mesmo EXAGERO - e aqui vai novamente com maiúsculas. Se apenas a vítima fosse afro-americana, nem quero imaginar a vozearia, o agressor teria sido crucificado, desmembrado e atirado aos abutres. Se apenas fosse o agressor, também teríamos tido vozearia, mas se calhar de outro tipo, era capaz de ser, não uma chapada, mas uma manifestação de empoderamento ou, quiçá, um fruto envenenado de uma envenenada árvore secular de opressão. Ou seja, só estupidezes, seja num sentido, seja noutro. E tudo por causa de uma simples bofetada.

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