www.publico.ptpublico@publico.pt - 13 mai. 10:06

As mulheres estão lixadas

As mulheres estão lixadas

A personagem da Supermulher foi inventada por um homem bígamo. O senhor vivia simultaneamente com duas mulheres e os filhos de ambas, mas convenceu-nos a todas de que aquelas maravilhas todas eram cumpridas apenas por uma!

Ana,

Tenho a comunicar-te que as mulheres estão lixadas. Desculpa o termo, mas é o que me ocorre e quando penso na plaina a correr ligeira e a afagar a madeira até a deixar bem fininha e polida. Lixadas é a palavra certa. Como cheguei a esta conclusão? Pelos anúncios que passam na televisão. Num dos intervalos para publicidade de um dos telejornais das oito, vi com os meus próprios olhos um total de 23 anúncios, 16 eram protagonizados por mulheres, e destinados a mulheres.

Maravilhoso, dizes tu — mostra que têm cada vez mais protagonismo e poder de compra. Claro que sim, mas espera, ganharam de facto visibilidade que não tinham, e isso é fantástico, mas… é ela que conduz o carro último modelo, é ela que leva os filhos à escola, é ela que dirige a equipa no escritório, é ela que, de capacete na cabeça, vigia as obras de um novo armazém, é ela que cozinha, é ela que engoma, é ela que vai ao banco abrir uma conta xpto para profissionais de sucesso, é ela que usa cuidadosamente, de manhã e à noite, os cremes de beleza, é ela que experimenta o soutien que promete manter-lhe o peito mais sexy, é ela que planeia as férias, é ela que experimenta o melhor colchão, é ela que… desculpa, já estou cansada.

Resumindo, é basicamente a super-supermulher. Toda a gente espera tudo dela — inclusivamente ela própria! Percebes melhor porque digo que estão lixadas? Os marketeers vão sempre mais à frente no estudo da “psique colectiva”, ou seja, sabem que, neste preciso momento, são elas que estão a desempenhar todos estes papéis e que são elas as principais consumidoras daquilo que têm para oferecer.

E é por isso que sinto a responsabilidade moral de voltar a recordar a todas as mães da nossa comunidade de mães birrentas que a personagem da Supermulher foi inventada por um homem bígamo. É mesmo verdade, Ana, o senhor vivia simultaneamente com duas mulheres e os filhos de ambas, mas convenceu-nos a todas de que aquelas maravilhas todas eram cumpridas apenas por uma!

Querida Mãe,

A sua carta fez-me lembrar uma cena do filme de Cinderela. O rei convida todas as mulheres solteiras para o baile, por isso a Cinderela está obviamente incluída. A madrasta má não tem como impedi-la de ir, por isso opta por lhe dizer, maleficamente, que é claro que pode ir desde que consiga cumprir todas as tarefas antes de saírem. A Cinderela fica entusiasmada e agradecida (apesar de se tratar de um direito seu) e trabalha afincadamente para provar que consegue lavar roupa, mudar camas e limpar o chão, arranjar um vestido adequado, ser querida com os ratinhos e ainda ficar linda como uma princesa para ir à festa. Mas, claro, a madrasta inventa mais um, ou dois, ou três extras e a pobre coitada, perdida a tentar fazer tudo, exausta e desmotivada, acaba por ficar para trás, fechada na cozinha a chorar.

Conseguimos fazer caminho para destruir a ideia de que não somos tão competentes como os homens, ou que só servimos para estar em casa, mas mais ou menos disfarçadamente vai-se mantendo o discurso da madrasta: “É claro que podes ser o que quiseres, desde que não descures todas as outras coisas.” E nós, entusiasmadas pela oportunidade, queremos mais uma vez provar que sim. Que conseguimos fazer tudo.

Sei que ainda há muito que andar, que não é um caminho feito só pelas mulheres. Sei que as coisas demoram a mudar e que também é normal cair em exageros até conseguirmos encontrar um equilíbrio, mas cada uma de nós pode, entretanto, parar, respirar fundo e perceber que da mesma forma que recusamos o estereótipo de que fomos criadas para fazer bolinhos, também podemos recusar o estereótipo de que temos todas de gostar de engenharia.

O que importa é estabelecer o direito a escolher, a experimentar, a seguir uma qualquer profissão, mas sem perder o direito a dizer “não”. Num admirável mundo novo do politicamente correcto pode parecer mais “digno” ser uma mulher de negócios do que uma dona de casa, pode parecer mais “cool” sermos nós a gerir obras do que a costurar, mas o objectivo de toda esta bem-aventurada revolução é conquistar a liberdade de podermos ser como somos, como queremos ser. E nunca trocar uma prisão por outra.

Beijinhos

Ana

P.S.: Os anúncios destinam-se a vender coisas! Vendendo a ilusão de que essas coisas trazem acopladas felicidade, prestígio, aceitação. Se estivermos mais atentos a essa certeza, se calhar somos menos tentados a comprar coisas de que não precisamos.

No Birras de Mãe, uma avó/mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, começaram a escrever-se diariamente, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Mas, passado o confinamento, perceberam que não queriam perder este canal de comunicação, na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook e Instagram.

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