observador.ptObservador - 14 mai. 00:11

Auxiliares de ação médica, rescaldo da pandemia

Auxiliares de ação médica, rescaldo da pandemia

As visitas ficaram suspensas, o afeto congelado, restando apenas aqueles a quem a vida deu como missão cuidar e amar sem ser amado.

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Quando o tema é pandemia, ocorrem-me palavras como dor, solidão, sofrimento, isolamento, esquecimento. Rostos tapados, sorrisos escondidos, olhares de medo.

Têm sido tempos de dilema, emoções e desafios para aqueles cuja missão é dar sem receber, onde uma palavra, um gesto, um sorriso no olhar, aquecem o ambiente gélido que rodeia o isolamento e o abandono forçado de todos aqueles marcados pelo cupim.

Hoje, presto a minha sincera e profunda homenagem àqueles incansáveis trabalhadores, que se têm mantido na sombra da pandemia mas que assumem uma importância infinita no cuidar.

São elo fundamental, na dinâmica dos serviços ligados à saúde mas tantas vezes esquecidos; os auxiliares de acção médica.

São aqueles que muitos teimam em não ver, mas que zelam pelo bem-estar dos espaços e organizações, limpando, higienizando, acompanhando e transportando doentes.

Atravessámos tempos em que todos se transformaram em dragão de fogo, vencedores de combates temerários e desiguais em que nem sempre o mais forte ganha.

São tempos difíceis, quiçá cruéis para quem já nada espera da vida, e quando a palavra de ordem é humanizar foram expostas fragilidades e insuficiências de todo um sistema social, humano e organizacional, tornando todas as tarefas que envolvem o cuidar ainda mais complexas, mas ao mesmo tempo únicas.

A pandemia obrigou-nos a ultrapassar a barreira do medo, a sacrifícios ainda maiores daqueles que nos amam, tudo para que a missão a nós confiada pudesse ela sair vencedora.

Longe dos entes queridos, os doentes, abandonados à sua sorte em lares ou hospitais, tiveram no pessoal de saúde e neste caso nos auxiliares de ação médica, pela proximidade do cuidar, o sorriso no olhar, o afago, a palavra terna, o afeto de quem já não tem memória. Foram o abraço há muito esquecido, a carícia de um olhar já não lembrado e muitas vezes a última palavra escutada.

Foram a família de quem se perdeu em memórias de risadas e de afetos.

Foram os filhos, os cônjuges, os netos, a família, o padre. Escutaram o último suspiro e impediram que a morte apenas transportasse rostos vazios e olhares sem distância.

Foram muitos os que tombaram em tão magnânima missão, outros sufocaram para sempre a gargalhada, mas todos souberam agarrar em cada sofrimento e superar o cansaço, a dor e fazer cumprir a sua missão; amar e cuidar do próximo, sem retorno.

A mim, cabe-me um eterno agradecimento pelas horas de compartilha e de trabalho árduo em que todos somos um.

Bem Hajam.

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