observador.ptObservador - 14 mai. 00:09

O direito aos cuidados no nosso envelhecimento

O direito aos cuidados no nosso envelhecimento

Tendencialmente, a institucionalização deve ser a última das respostas a ser dada às pessoas idosas. Teremos de implementar novos conceitos, como aldeias seniores, que se distingam pelos serviços.

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Em 2050, as pessoas com 65 anos ou mais vão representar 25 por cento da população que vive no nosso país. A Organização Mundial da Saúde tem alertado para esta alteração demográfica, semelhante noutros pontos da Europa, defendendo a necessidade de existirem mais cuidados integrados, uma orientação para a avaliação centrada na pessoa e o reforço dos cuidados primários. Outra prioridade é a redução do risco de declínio cognitivo e demência.

O envelhecimento ativo pode ser parte da solução, otimizando a capacidade intrínseca e a habilidade funcional da pessoa idosa. No entanto, exigem-se melhorias no acesso a diagnósticos, vacinas, medicamentos essenciais e tecnologias auxiliares.

O encorajamento e reforço da utilização do digital nos cuidados integrados é outro caminho, sendo necessário eliminar potenciais barreiras. Aqui, também entra em equação a própria sustentabilidade dos sistemas de saúde, que estiveram sob pressão acrescida durante a pandemia e viram em novas ferramentas uma resposta alternativa. Paralelamente, será importante desenvolver uma força de trabalho mobilizada, adequadamente treinada e com mais competências na área da geriatria e gerontologia. Público e privado são chamados a complementarem-se, em termos de recursos e na sua relação com os mecanismos de proteção social.

Mais do que nunca, viver mais significa viver melhor. E viver melhor é, à medida que o tempo passa, o exercício de fazer valer direitos e ter uma palavra a dizer sobre o nosso futuro. A participação ativa na sociedade também passa pelos cuidados que podemos (e devemos) escolher no nosso envelhecimento.

Recentemente, o interessante estudo Live and Work Well at Home, conduzido em quatro países europeus – Alemanha, Espanha, França e Itália –, concluiu que cerca de 60 por cento dos participantes cuidavam de um familiar idoso e 47 por cento tinham essa responsabilidade numa base diária. Não é de estranhar que 66 por cento dos inquiridos demonstrassem interesse em subscrever um serviço de apoio, considerando-o “altamente valioso”. Entre as necessidades identificadas, três saltavam à vista: cuidados ao domicílio (higiene e alimentação), saúde em casa (enfermagem e exames médicos), dispositivos de emergência (tecnologias, por exemplo, para detetar quedas).

Se há algo que a pandemia veio sublinhar é a importância da casa, enquanto centro da vida de cada um de nós. Um porto seguro, quando reunidas condições de habitabilidade, salubridade, enfim, dignidade. Portugal, que tem das maiores taxas de cuidados domiciliários informais da Europa, tarda em dar um salto. Porque estes cuidados domiciliários informais são, essencialmente, assegurados por familiares, sem formação e, por vezes, sem capacidade física ou mental para responder da melhor forma.

Tendencialmente, a institucionalização deve ser a última das respostas a ser dada às pessoas idosas. Desenraizá-las das suas comunidades tem um custo demasiado elevado, seja económico, seja social, seja da própria saúde, conforme está documentado em diversas investigações. No caso de ser necessário atuar, teremos de implementar novos conceitos, como aldeias sociais ou aldeias seniores – ofertas residenciais para idosos, que se distinguem pelos serviços que podem ir desde saúde, alimentação, até bem-estar e atividades desportivas. Em alguns casos, até podem ter uma componente de dinamização de concelhos despovoados.

O desafio é criar, cada vez mais, equipas multidisciplinares para planear estas respostas e políticas públicas. O relógio não para e, um dia, vamos querer usufruir daquilo que defendemos, hoje, em nome da dignidade de todos.

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