observador.ptObservador - 14 mai. 00:15

Eu, cronista, me confesso

Eu, cronista, me confesso

Sou, sem arrogância nem complexos, um sacerdote identificado com a Igreja que ama, mas também um cidadão que não abdica dos seus direitos e deveres cívicos.

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Quase desde o início do Observador, assino uma crónica semanal neste jornal. Grato pela oportunidade de ter aqui um espaço onde posso dar testemunho da minha fé, tenho procurado ser fiel ao conselho do apóstolo: “estai sempre prontos a dar razão da vossa esperança a todo aquele que vos perguntar, com bom modos e respeito, mantendo limpa a consciência” (1Pd 3, 15-16).

Neste sentido, tem sido para mim muito estimulante o diálogo que, sobre questões de fé e moral, aqui estabeleço, todas as semanas, com os leitores, a quem estou reconhecido pelos comentários que, pelo seu número e extensão, nem sempre consigo acompanhar. Também agradeço as respostas mais iradas porque, embora fora de tom, atestam que o meu texto não provocou indiferença. Antes interpelar e até incomodar, como Jesus Cristo, que a ninguém deixava apático, do que, à força de dizer trivialidades, ou só dizer o que os outros querem ouvir, ser um cronista morno. G.K. Chesterton dizia que, quando todos concordavam com ele, pensava logo que se tinha enganado!

Não obstante a comunidade eclesial estar, infelizmente, dividida em tantas tendências contrapostas, em questões doutrinais, litúrgicas e morais, a minha irrenunciável fidelidade a Jesus Cristo e à sua Igreja, na pessoa do Santo Padre e dos demais pastores, não me impede de a todos procurar compreender e respeitar.

A minha adesão à Igreja não é cega. Nunca fui brando com a pedofilia eclesial, sem receio do desconforto que a minha enérgica condenação desse escândalo causaria em certos eclesiásticos que, infelizmente, foram complacentes com esses abusos. Também nunca cedi à tentação de fazer, da abominável excepção do padre pedófilo, uma regra que legitime uma indiscriminada perseguição anticlerical. Sei que a esmagadora maioria dos sacerdotes católicos são exemplares no seu ministério, bem como no serviço desinteressado aos irmãos, sobretudo aos mais necessitados.

Nunca confundi a Igreja com o Vaticano: a minha fidelidade eclesial não me obriga a aprovar os desaires financeiros do IOR; nem a concordar com a diplomacia vaticana quando, por via do reconhecimento da chamada igreja patriótica chinesa, menospreza os verdadeiros católicos desse país, que têm sido, na sua terra, mártires da fé e que agora parece terem sido abandonados à sua triste sorte. Também não aprovo a rigidez com que são maltratados os amantes da liturgia tradicional, nem a tibieza como alguns clérigos fingem ignorar as contradições de um presidente norte-americano, que se declara católico e promove o aborto, ou os excessos do caminho sinodal alemão.

Se sou, sem arrogância nem complexos, um sacerdote identificado a cem por cento com a Igreja, que amo por ser Cristo presente no mundo, também sou um cidadão que não abdica dos seus direitos e deveres cívicos. Desde sempre respeitei as limitações decorrentes do meu estatuto sacerdotal e, por isso, a minha participação cidadã nunca foi partidária, nem comprometeu a independência e isenção da Igreja que, modestamente, sirvo. Neste sentido, sinto como própria a preocupação social do Papa Francisco, que tem sido pródigo em declarações de carácter político, sempre que razões de ordem humanitária o exigem.

Graças a Deus, nunca cedi à tentação de hipotecar a minha independência de pensamento e de expressão. Sempre fui fiel à Doutrina Social da Igreja, que traduz o que penso ser melhor para o meu país e para o mundo. Sempre fui e sou amigo da liberdade, da justiça, da igualdade de oportunidades. Sempre defendi a vida desde a concepção e até à morte natural, como sempre fui contra a distanásia. Sempre detestei a hipocrisia, a impunidade dos ricos e poderosos, a exploração dos mais pobres e fracos. Sempre me revoltou a injustiça social, o silencioso holocausto dos nascituros, o sofrimento das crianças abusadas, as dificuldades dos deficientes, a indigência dos sem-abrigo, dos refugiados e dos pobres. É também por eles que não me calo e, com a graça de Deus, continuarei a ser a voz dos que não têm voz.

Embora alguma vez injustamente conotado com o pensamento extremista, a verdade é, felizmente, muito diferente. Com efeito, nestas crónicas, já elogiei um líder histórico do Bloco de Esquerda, a quem também critiquei a forma como desvalorizou o Holodomor. Igualmente denunciei a hipocrisia de um ex-deputado desse partido se afirmar católico e, em simultâneo, promover a eutanásia. Já reconheci publicamente o comovedor humanismo de alguns textos de um conhecido comediante comunista, mas também escrevi contra a opressão existente em todos os países em que está vigente, ou vigorou, essa desumana ideologia totalitária. Homenageei, por ocasião da sua morte, uma das fundadoras do Partido Socialista, viúva do seu líder histórico, mas não deixei de deplorar a impunidade de que alegadamente beneficia um ex-primeiro-ministro desse partido (como explicar que tenha estado tantos meses detido, afinal, por coisa nenhuma?!).

Algumas destas crónicas escandalizaram bastantes puritanos e não poucos fariseus, mas provam a minha independência e liberdade de espírito. No entanto, esta isenção ficou aparentemente comprometida com um texto em que, há mais de um ano, parecia apoiar a candidatura presidencial do Chega. Na realidade, em vésperas das eleições presidenciais, limitei-me a transcrever o que os diferentes candidatos declararam sobre a eutanásia, por entender que este tema era, e é, da maior relevância para os cristãos. Para não parecer que estava a favorecer o único candidato que se declarou abertamente contra a eutanásia, supus que também o actual Chefe de Estado o seria. Claro que esta suposição desfavorecia o único candidato que se manifestara contra a legalização do homicídio a pedido, na medida em que retirava exclusividade à sua candidatura presidencial. Mas fi-lo deliberadamente, para que não parecesse que, para um católico coerente, só a votação num único candidato era viável: sou muito amigo da liberdade política dos cristãos e visceral inimigo dos regimes e partidos confessionais. Contudo, essa minha crónica foi tergiversada de forma a supor-se que, ao contrário do que tinha dito, estava a promover a candidatura presidencial mais à direita!

Apesar de não ter dito nada que não fosse público, fui fulminado com um anátema, como se tivesse proferido uma heresia, ou cometido um sacrilégio! Com aquela ânsia persecutória e a escassa ponderação própria das mentalidades totalitárias, fui logo rotulado de próximo da extrema-direita. Curiosamente, os mesmos que rasgaram as suas vestes, por eu ter tido a honestidade de dizer o que era óbvio, escandalizaram-se agora por eu ter criticado, em recente crónica, a desvalorização do 25 de Abril pelo mesmo líder partidário, na correspondente sessão parlamentar. Não será esta, afinal, mais uma prova da minha independência e isenção?!

Ensinam os moralistas que é grave o escândalo causado pelo pecado próprio e que deve ser evitado o escândalo dos pusilânimes, mas que se deve desprezar o escândalo farisaico porque, neste caso, o mal está na hipocrisia dos que se indignam e não na acção que serve de pretexto para essa sua despropositada reação.

Os meus leitores sabem bem quem eu sou, até porque expresso sempre as minhas opiniões por escrito, em crónicas públicas que estão permanentemente acessíveis a quem as queira consultar. Continuarei presente nesta tribuna, enquanto Deus quiser, com a mesma independência e franqueza, mesmo sabendo que, para alguns comunistas, sou um perigoso fascista e, para alguns fascistas, um terrível comunista. Estes insultos, mais do que definirem a pessoa a quem são dirigidos, caracterizam, em sentido contrário, quem os profere: os comunistas acham que todos os que o não são, são fascistas, e vice-versa.

Não sou, nem tenho a pretensão de ser, dono da verdade, mas um simples aprendiz do Mestre que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). Como sacerdote de Jesus Cristo, amo apaixonadamente o mundo e todas as pessoas, sem excepção. Não julgo ninguém – quem sou eu para julgar?! – apenas comento, à luz do Evangelho, alguns dos mais relevantes factos da actualidade. Como Aristóteles, cuja dialéctica foi o tema da minha dissertação universitária, se “sou amigo de Platão, mais amigo sou da verdade”.

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