jornaleconomico.ptAna Pina - 13 mai. 00:15

Os contos dos irmãos Grimm

Os contos dos irmãos Grimm

Desejo sinceramente que a Rússia seja derrotada; mas temo que os vencedores saiam imaculados, limpos de qualquer mal, sem nunca termos percebido a verdadeira realidade dos factos.

Os contos dos irmãos Grimm seguem uma receita tétrica, mas clássica e bastante eficaz.

De um lado temos os maus. Completamente maus, sem um osso bom ou um laivo de compaixão. São movidos por interesse próprio e tudo o que fazem ou tentam fazer é geralmente tremendo na perspetiva da(s) sua(s) vítima(s).

Por outro lado, as vítimas são inevitavelmente boas. Sem uma réstia de maldade, e, quase sempre, incapazes de se defenderem contra o mal absoluto que as persegue. O nível de terror é enorme. Desde uma bruxa que engorda crianças inocentes para as comer, a uma madrasta que quer matar a linda e inocente enteada, a uma fada despeitada que quer matar uma criança pura no dia do seu batismo, mas que uma outra consegue salvar condenando-a a cem anos de coma profundo… O rol não para. Sinistro.

Durante muito tempo perguntei-me porque é que se contavam estas histórias às crianças? Para as endurecer perante o mal, para começarem a lidar com a morte e a desgraça? Hoje em dia, acredito que o fito é outro. Mostrarmos às nossas crianças que o bem, o puro e imaculado bem, vence sempre. Nada mais falso. Falso porque não existe esta dicotomia absoluta entre o bem e o mal na vida real, e falso porque, infelizmente, não é verdade que o bem (ou alguma versão deste) vença sempre.

Faço desde já um disclaimer à Miguel Sousa Tavares, aliás plagio mesmo o seu: “A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão.”

Feita esta salvaguarda não posso deixar de comparar as reportagens a que assistimos da guerra a um relato “à La Grimm”. De um lado temos os maus, os russos. Péssimos, monstros mesmo. São os agentes de uma carnificina sem dó. Violam raparigas, profanam cadáveres e atacam tudo e todos sem nenhum tipo de distinção entre o que é um ato de guerra e o que é um ato de violência fácil e gratuito. Do outro, temos as vítimas (que neste caso são efetivamente vítimas), os ucranianos.

Mas a história que nos contam é que do lado ucraniano não há um único ato de maldade. Apenas se defendem contra os atacantes sem perpetrarem qualquer tipo de violência gratuita ou desnecessária. São as vítimas, estão do lado certo e por isso só sabem fazer o bem.

Ora, isso não acontece em nenhum conflito. O cenário é de guerra! E se é certo que há atacantes e atacados, se é certo que não há qualquer justificação para o ataque, é também certo que guerra é guerra e é sempre terrível.

Os soldados russos são soldados, os soldados ucranianos também. Há certamente bons comportamentos e maus comportamentos dos dois lados. Há fúria, há desespero, há vingança. Se o objetivo desta higienização das notícias é fazer crer que a Ucrânia vai ganhar, porque os bons ganham sempre, cumpre-me dizer que o objetivo ficará por cumprir.

A mim, esta visão enviesada e dicotómica da guerra só me faz desacreditar das notícias, só me faz acreditar que está a haver censura, que estão a acontecer coisas que não nos estão a contar. E esta sensação é a pior que há para quem, como eu, acredita na ilegitimidade desta guerra, e na culpa inegável da Rússia.

Desejo sinceramente que a Rússia seja rápida e inexoravelmente derrotada; mas temo que os vencedores saiam imaculados, limpos de qualquer mal, com todos os pecados escondidos para se virem juntar à Europa, sem nunca termos percebido a verdadeira realidade dos factos e, de novo, a aparente justiça que se venha a fazer, seja apenas a “justiça dos vencedores”.

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