Soube ontem que a minha vizinha do rés do chão morreu. Soube através de uma mensagem do condomínio. Primeiro senti um arrepio. Depois fez-me falta os barulhos do seu quotidiano. Foi um sentimento estranho porque a nossa convivência era fraca. Em 20 anos a viver no mesmo prédio foram mais os ralhetes do que conversas normais de vizinhança. Era uma mulher atormentada pela viuvez, pela ausência de família, pela incapacidade de aceitar os outros. Mas bastava-lhe atenção de minutos para se derreter em palavras doces. A dona Tina habituou-me a ouvir, em alto som, o terço todos os dias e a missa todos os domingos. E a vê-la à volta dos canteiros ou a varrer o pedaço do pátio comum. Deixei de a ver em dezembro. Mês da sua morte, junto da filha, longe de nós. As janelas fechadas trazem-me, agora, saudade. Os vizinhos também são família.