observador.ptObservador - 15 jan. 00:17

O preço do amor

O preço do amor

O amor, pura e simplesmente, sempre me pareceu uma falha de sistema, algo que esqueceram de nos cobrar. Até que um dia eu entendi. O preço do amor é a ausência.

Tem acesso livre a todos os artigos do O preço do amor é uma cama vazia. É um abraço que não se tem. É um lugar vago na mesa. O preço do amor é seguir amando e não ter um corpo para abraçar, cabelos entre os quais deslizar os dedos, olhos para os quais olhar, mãos às quais recorrer.

Por vezes é uma ausência provisória. O filho que vai morar fora. O filho que muda de país levando os netos. O companheiro que vai trabalhar em outra cidade. O amigo que arrisca a sorte do outro lado do mundo. Uma ausência que tem volta no todo, mas que nos faz perder partes muito doloridas da existência.

Outras vezes a ausência é definitiva, mas viva. Um divórcio. O rompimento de uma amizade por uma razão grave. Pessoas que deixam de fazer parte das nossas vidas por razões racionais e justificáveis. O problema é que o amor não acompanha as decisões racionais. Frequentemente ele permanece. Teimoso. Incansável. Errôneo.

E, por fim, a ausência mais temida. A morte. Irreversível e inegociável. O pai que nunca mais vai te perguntar se você sabe o caminho. A avó que nunca mais vai insistir para que você coma mais um pouco. A mãe que nunca mais vai beijar sua testa. O companheiro que nunca mais procurará sua mão durante a noite. O filho que nunca mais entrará pela porta.

O preço do amor é a ausência. Amar é um contrato de risco. É apostar tudo, sem garantia de vitaliciedade. É ser obrigado a entender o que ser humano nenhum está pronto para entender: que cada abraço tem que valer por si só e não pela expectativa do próximo. É aceitar que a felicidade é tão intensa quanto será a altura da queda. E, então, a matemática perfeita se apresenta: a ausência dói exatamente na mesma medida do tamanho do amor. Nem mais, nem menos. O amor tem, sim, um preço tão claro quanto caro: quanto maior o seu tamanho, maior será a dor da perda.

[Bom descanso, pai. Me perdoe por não ter sido capaz de salvá-lo. Está doendo na medida exata: a maior do mundo. Te amo.]

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