observador.ptobservador.pt - 15 jan. 16:46

De Rockefeller às alterações climáticas, passando pela Highway 66: uma breve história da indústria petrolífera (parte 2)

De Rockefeller às alterações climáticas, passando pela Highway 66: uma breve história da indústria petrolífera (parte 2)

As empresas de petróleo e o “sonho americano” têm feito um longo caminho juntos para conseguirem convencer os americanos e boa parte do mundo que liberdade é podermos queimar a gasolina que quisermos.

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[Este é o segundo de três artigos sobre a origem da terminologia do mundo do petróleo e a história das suas marcas comerciais mais conhecidas. A primeira pode ser lida aqui]

Standard Oil

Consta que quando John D. Rockefeller era adolescente terá proclamado que o seu plano era amealhar 100.000 dólares (uma fortuna, em meados do século XIX) e viver até aos 100 anos. Ficou a três anos de cumprir o objectivo da longevidade, mas ultrapassou largamente o objectivo financeiro: tornou-se não só no homem mais rico do seu tempo como no homem mais rico de sempre – quando se faz a correcção para a inflação, Jeff Bezos, Elon Musk e Bill Gates ficam-lhe muito atrás. E o “instrumento” que lhe permitiu juntar esta fortuna foi a Standard Oil.

John D. Rockefeller (1839-1937) entrou no negócio do petróleo – ou melhor, de um seu derivado – em 1863, como sócio da firma Rockefeller, Andrews & Flagler, que operava uma pequena refinaria de produção de querosene em Cleveland, Ohio. Rockefeller intuiu que o petróleo seria uma matéria-prima com futuro e em 1870 desfez a sociedade Rockefeller, Andrews & Flagler e fundou, com Flagler, em Cleveland, a Standard Oil, uma empresa bem mais ambiciosa, cujo nome exprimia o seu desejo de ganhar reputação pelo cumprimento de elevados padrões (“standards”) de qualidade. O nome pode parecer anódino aos olhos do nosso tempo, em que a regulamentação, a certificação e o controlo de qualidade asseguram que os produtos comercializados são seguros e que as suas características são consistentes, mas esta estava longe de ser a situação na década de 1870, em que as explosões e incêndios devidas ao uso doméstico de óleos de iluminação impuros ou de qualidade deficiente matavam cerca de 600 pessoas por ano.

John D. Rockefeller era um negociador implacável, possuía uma férrea ética de trabalho e uma obsessão com a eficiência e a racionalização e parece ter herdado o talento para a moscambilha do seu pai, William Rockefeller, um vendedor de “snake oil” (banha-da-cobra) que se apresentava como “Dr. William Livingstone” e nunca parava muito tempo no mesmo lugar, pela necessidade de fugir aos credores e às pessoas que ludibriava, e visitava a família apenas esporadicamente (até porque, entretanto, constituíra outra no Canadá).

John D. Rockefeller, em 1885

Esta mortífera combinação de capacidades de John D. Rockefeller permitiu-lhe engolir ou levar à ruína a maior parte da concorrência: em apenas quatro meses de 1872 absorveu 22 das 26 empresas rivais em Cleveland e no final da década de 1870 já controlava 90% do sector nos EUA. Na década de 1880, a Standard Oil, que, até então, operara apenas na área da distribuição e refinação, lançou-se numa agressiva campanha de aquisição de poços e em 1891 já era dona de 25% da produção do país – com este processo de integração vertical, a Standard Oil tinha agora um domínio quase hegemónico. O período da história dos EUA que se seguiu à Guerra Civil foi retratado por Mark Twain e Charles Dudley Warner no romance The Gilded Age: A tale of today (1873) como uma era de “gizamento de esquemas colossais, de especulações de todo o tipo”, visando a célere constituição de fortunas formidáveis, e a Standard Oil e Rockefeller são o paradigma perfeito desse frenesim.

Refinaria n.º 1 da Standard Oil, em Cleveland, Ohio, 1889

No final do século XIX, a indústria petrolífera passou pelo susto da disseminação da lâmpada eléctrica, mas logo redobrou a pujança com o advento do automóvel. Porém, começaram a surgir fracturas na hegemonia da Standard Oil, com a descoberta de petróleo no Kansas (1892), Califórnia (1893), Texas (1894) e Oklahoma (1897) e com a multiplicação de pequenos produtores, distribuidores e refinadores que conseguiram manter-se longe dos tentáculos da Standard Oil. E, pouco a pouco, a opinião pública começou também a olhar com desconfiança para aquele gigante que pretendia que o seu (angelical) objectivo era “permitir ao homem sem posses usufruir de iluminação barata”.

Cartoon de Udo J. Keppler, na revista Puck de 7 de Setembro de 1904: O polvo da Standard Oil, que já logrou o controlo do Capitólio (à esquerda) e da Câmara dos Representantes (à direita), lança um tentáculo sobre a Casa Branca

Para a consciencialização, na percepção pública, da ameaça representada pela Standard Oil contribuiu decisivamente uma série de 19 artigos publicados em 1902-1904 na revista McClure’s pela jornalista de investigação Ida M. Tarbell, compilados no livro The history of Standard Oil Co., surgido em 1904, ano em que a Standard Oil foi responsável por 91% da produção e 85% das receitas do sector, nos EUA. Tarbell, cujo pai trabalhara para Rockefeller e testemunhara a forma brutal como a sua empresa esmagava a concorrência, fizera um trabalho objectivo e fundamentado, que levou muitos políticos e governantes a apontar baterias para a Standard Oil, questionando as suas práticas de abuso de posição dominante face à concorrência (uma vez que dominava o transporte de petróleo por oleoduto e ferrovia). Em 1906, quando a quota de mercado da Standard Oil já caíra para 70% – em parte devido ao aparecimento da Gulf, Texaco e Shell – a empresa foi formalmente acusada de violar as a leis anti-trust (o Sherman Act de 1890). A Standard Oil recorreu a todos os meios para contestar a acusação e o processo arrastou-se durante cinco anos, mas em 1911 o Supremo Tribunal confirmou que a empresa que, nos EUA, refinava 2/3 do petróleo, comercializava 4/5 da querosene, detinha mais de metade dos vagões-tanque do país e possuía 97 navios-tanque, era um monopólio contrário ao interesse público e deveria ser desmembrada.

Cartoon de Frank Arthur Nankivell, na revista Puck de 23 de Maio de 1906: Numa sátira a um célebre episódio mitológico (quando Hércules, ainda bebé, estrangulou uma serpente que subira ao seu berço), o presidente Theodore Roosevelt luta com as serpentes representando a Standard Oil, John D. Rockefeller (à direita) e o senador Nelson W. Aldrich, líder do Partido Republicano, compadre de John D. Rockefeller e paladino dos interesses das grandes empresas

O colosso fragmentou-se em 34 empresas: a Standard Oil de New Jersey deu origem à Esso (futura Exxon), a Standard Oil de Nova Iorque à Socony (futura Mobil), a Standard Oil da Califórnia à SoCal (futura Chevron), a Standard Oil do Ohio à Sohio, a Standard Oil do Indiana à Stanolind (futura Amoco), a Ohio Oil Company à Marathon, a Standard Oil do Kentucky à Kyso, a Continental Oil and Transportation Company à Conoco e a Atlantic fundiu-se com a Richfield para dar origem à ARCO. Porém, a decisão do Supremo Tribunal deixara por definir muitos aspectos no processo de dissolução, de forma que o astuto John D. Rockefeller conseguiu minimizar os danos: embora teoricamente separadas, as empresas-filhas circunscreveram a sua actuação aos seus territórios originais de implantação, não entrando em competição umas com as outras, e mantiveram os seus clientes; quanto às acções das empresas-filhas, foram rateadas entre os accionistas da Standard Oil Co., pelo que pouco mudou na estrutura de propriedade. A concertação entre estas empresas, nos primeiros anos pós-desmembramento, levou a que as sete maiores – Esso, Mobil, SoCal, Sohio, Amoco, Marathon e Kyso – se tornassem informalmente conhecidas como “Seven Sisters” (sete irmãs), numa alusão às Plêiades, as sete filhas do titã Atlas (o termo ganharia novo significado em 1945-1975, período em que designou, informalmente, as sete empresas que dominavam o mercado mundial: Esso, Mobil, SoCal/Chevron, Gulf, Texaco, Anglo-Iranian Oil Company, Royal Dutch Shell).

A libertação do controlo central exercido pela empresa-mãe deu a cada uma das “irmãs” a flexibilidade para adoptar tecnologias e práticas adequadas ao seu contexto, o que se revelou importante num tempo em que a gasolina estava rapidamente a tomar o lugar da querosene como principal produto. O resultado foi que os consumidores e as empresas rivais pouco benefício tiraram da dissolução e, em contrapartida, as melhorias no desempenho das empresas-filhas trouxeram pingues lucros aos antigos accionistas da Standard Oil, a começar por Rockefeller, cuja fortuna duplicou em menos de uma década – mais do que compensando o afrouxamento do seu domínio sobre a indústria petrolífera.

John D. Rockefeller, cartoon por John S. Pughe, na revista Puck de 27 de Fevereiro de 1901

Esso

A Standard Oil de New Jersey foi o bloco maior resultante do desmembramento, em 1911, da Standard Oil Co. (cerca de metade do valor global da empresa-mãe) e passou a ser conhecida como Esso, que é simplesmente uma transcrição fonética de S.O.

Em 1919, a Esso adquiriu a Humble Oil Company, fundada em 1911, e a empresa resultante passou a comercializar combustíveis sob as marcas Esso e Humble e, a partir de 1960, também sob a marca Enco (de Energy Company) – o uso das marcas variava consoante os estados, uma vez que o desmembramento interditava o uso da marca Esso nalguns deles. No final da década de 1960, foi considerada uma operação de “rebranding” que faria a marca Enco prevalecer em todas as estações de serviço, mas a ideia foi abandonada quando se descobriu que “enko” é, em japonês, a abreviatura de “enjin no koshō” = motor avariado. O “rebranding” acabou por ter lugar em 1972, agora como Exxon (um nome sem significado), mas como a marca Esso era muito popular nalguns países, foi neles mantida.

Anúncio à Esso, 1925

O nome Exxon ganhou publicidade muito negativa em 1989, devido ao naufrágio do petroleiro Exxon Valdez, no Prince William Sound, no Alaska – não só causou o maior (à data) derramamento de petróleo em águas dos EUA (41.000 m3), como os efeitos deste foram extraordinariamente prolongados, devido às baixas temperaturas prevalecentes na região, que retardam a degradação dos hidrocarbonetos. A Exxon ainda tentou alijar culpas acusando o capitão do petroleiro de embriaguez, mas em tribunal foi provado que estava sóbrio quando do acidente.

Mobil

A Standard Oil de Nova Iorque deu origem à Socony, que, em 1931 se fundiu com a Vaccum Oil Company, fundada em 1866, em Rochester, estado de Nova Iorque, por Matthew Ewing e Hiram Bond Everest e que fora, entretanto, adquirida pela Standard Oil, em 1879. Em 1889 a Standard tentou usar a Vaccum para colocar fora de jogo uma rival, a Buffalo Lubricating Oil Co., subornando um ex-funcionário que fora contratado pela Buffalo para sabotar a nova fábrica desta empresa (o que dá ideia de alguns dos métodos usados por Rockefeller para se tornar no “dono disto tudo”, no que ao petróleo diz respeito).

Bomba de gasolina Socony-Vacuum, nas Índias Ocidentais Holandesas, décadas de 1920-30

Em 1940, a Socony-Vacuum teve sarilhos com a justiça, por práticas concertadas com outras companhias, destinadas a manter os preços do combustível artificialmente altos (uma táctica recorrente entre empresas petrolíferas). Em 1955 a empresa foi rebaptizada como Socony-Mobil, a partir da marca Mobiloil, que registara em 1920. O famoso cavalo alado vermelho da Mobil foi pedido emprestado, em 1931, à marca “Red Flying Horse”, que era usada por outra subsidiária da Socony-Mobil, a Magnolia Petroleum Company. Em 1963, a marca Mobiloil foi reduzida a Mobil, que passou também a ser a designação da empresa a partir de 1966.

Anúncio à Mobiloil, 1950

Em 1999 deu-se a fusão da Exxon e da Mobil, dando origem à ExxonMobil, a maior companhia petrolífera do mundo e também aquela que mais dinheiro tem despendido a subsidiar estudos climatológicos que neguem a influência da queima de combustíveis fósseis no aquecimento global. Alguns cientistas da Exxon já tinham, nas décadas de 1970 e 1980, alertado a direcção da empresa para os efeitos da queima de combustíveis fósseis mas estes relatórios internos não foram divulgados e, a partir do início do século XXI, com o fenómeno do aquecimento global a ganhar protagonismo mediático, a ExxonMobil passou ao ataque, pagando a (pseudo) cientistas para produzirem estudos enviesados e a grupos de lobbying junto do Congresso e do governo dos EUA para bloquear legislação visando restringir emissões de CO2. Os descendentes de John D. Rockefeller têm envidado esforços para que a empresa abandone a atitude negacionista, o que levou a ExxonMobil a acusar a família Rockefeller de congeminar uma conspiração contra si.

Texaco

Já tinha sido descoberto petróleo no Texas em 1894, mas o momento inaugural que faz com que, ainda hoje, se associe este estado a petróleo foi o jorro de petróleo a 50 metros de altura que, 10 de Janeiro de 1901, brotou de um poço perfurado por Anthony F. Lucas (um engenheiro nascido na Croácia como Antun Lučić), em Spindletop, perto da cidade de Beaumont. O petróleo continuou a brotar exuberantemente, ao ritmo de 100.000 barris por dia, até que, nove dias depois, foi controlado – a indústria do petróleo nunca assistira a um fenómeno de magnitude similar. O campo de Spindletop produziu 17 milhões de barris em 1902, entrando em declínio no ano seguinte – mas por esta altura já se descobrira petróleo em vários outros locais no Sudeste do Texas e em tal quantidade que fez cair o preço do petróleo nos EUA para 3 cêntimos por barril. Em breve a produção do estado ultrapassou a da Pennsylvania e até a de toda a Rússia.

Spindletop, Texas, 10 de Janeiro de 1901

A companhia que daria origem à Texaco foi uma das muitas que foram fundadas em Beaumont nesse prodigioso ano de 1901; foi criada por Jim Higg, Joseph S. Cullinan, John Warbe Gates e Arnold Schlaet, como Texas Fuel Company e convertida no ano seguinte em Texas Company – em 1906 era registada a marca Texaco e em 1928, as bombas de gasolina desta tinham-se expandido aos (então) 48 estados dos EUA. A estrela no logótipo é uma alusão à estrela solitária na bandeira do estado do Texas, que é também a razão de este ser conhecido como “lone star state”.

Estação de serviço da Texaco em Galveston, Texas, c.1910-20

Ao longo da década de 1930, a Texaco expandiu-se para fora dos EUA, na Colômbia (numa parceria com a Mobil) e na Arábia Saudita (numa parceria com a Standard Oil of California que recebeu o nome Caltex), operações que foram lideradas por Torkild Rieber, um norueguês que entrara em 1905 para a Texaco como capitão de um petroleiro e fora lentamente ascendendo na hierarquia. Rieber tinha um fraquinho por fascistas – não é claro se pela ideologia, se pela ilusão de ordem e eficácia transmitida pelas suas paradas – e forneceu clandestinamente petróleo às forças nacionalistas durante a Guerra Civil de Espanha (apesar do embargo em vigor) e à Alemanha nazi no início da II Guerra Mundial (furando o bloqueio britânico), persistindo nestas actividades apesar de multas e reprimendas. As suas simpatias pró-fascistas tornaram-se tão óbvias e embaraçosas que, em 1940, com as tensões entre EUA e Alemanha a crescer e receando que o comportamento de Rieber fizesse fugir clientes, o conselho de administração da empresa o forçou a abandonar o cargo de CEO.

A Texaco também conquistaria uma reputação pouco invejável no domínio ambiental, devido à poluição causada por métodos negligentes de extracção de petróleo, nomeadamente na parte equatoriana da bacia do Amazonas e no delta do Rio Níger, na Nigéria.

Gulf Oil

A Gulf Refining Company foi uma das muitas empresas criadas em 1901 na euforia do grande jorro de petróleo de Spindletop e o seu nome alude ao Golfo do México, não ao Golfo Pérsico, que, por esta altura, ainda não tinha revelado o seu potencial petrolífero; os dois principais investidores foram Andrew Mellon e William Larimer Mellon Sr., da famosa família de banqueiros e empresários de Pittsburgh.

A Gulf nascera como empresa de refinação, mas, pouco a pouco, foi estendendo-se a todas as áreas da indústria petrolífera. A 1 de Dezembro de 1913, deu um passo importante na área da comercialização, ao inaugurar em Pittsburgh a primeira estação de serviço drive-through. A estação de serviço tornou-se uma componente tão banal e vital da civilização moderna que temos dificuldade em pensar num tempo em que ela não existia, mas os primeiros automobilistas tiveram de reabastecer-se em drogarias, farmácias e mercearias. Só em 1905, em St. Louis, Missouri, surgiu a primeira estação de serviço destinada exclusivamente a essa função e foram precisos mais dois anos para que surgisse a segunda, em Seattle, pela mão da Standard Oil of California, mas o conceito drive-through lançado pela Gulf rapidamente se impôs às lojas com uma ou duas bombas de gasolina junto à rua ou estrada.

Primeira estação de serviço drive-through, Pittsburgh

Em 1947, em Los Angeles, a Gulf apresentou outra inovação neste domínio: a primeira estação de serviço self-service. A Gulf tratou também de diversificar as suas fontes de petróleo: em 1924 iniciou prospecção na Venezuela, em 1926 obteve uma concessão na Colômbia e em 1934 avançou para outro Golfo (o Pérsico), juntando-se à Anglo-Persian Oil Company (futura BP) para criar a Kuwait Oil Company. O Kuwait tivera até então como principal produto de exportação as pérolas, recolhidas nas ostras que cresciam nas águas cálidas do Golfo Pérsico, mas na década de 1930 estas sofreram duramente com inundação do mercado por pérolas “de viveiro” produzidas no Japão, pelo que o emirato teve de descobrir uma nova fonte de rendimento.

Nos primeiros tempos da indústria petrolífera, os países do Golfo Pérsico deixaram o negócio do petróleo nas mãos das empresas, limitando-se a cobrar royalties, mas, à medida que foram apercebendo-se da extensão e valor das reservas, foram assumindo o seu controlo. Em 1974-75, o governo do Kuwait tomou conta da Kuwait Oil Company, o que levou a Gulf a buscar novas fontes de matéria-prima: encontrou-as em Angola, embora este investimento implicasse apoiar um governo comunista apoiado pela URSS e por Cuba e que o governo dos EUA estava empenhado em derrubar.

Nos anos 80 a empresa entrou em declínio, o que a tornou vulnerável ao “ataque” de uma rival: em 1985 foi adquirida pela SoCal (Standard Oil of California), dando origem à Chevron; a empresa Gulf Oil foi extinta mas, mais recentemente, a marca Gulf tem sido licenciada para comercializar produtos para o sector automóvel, talvez pela aura de nostalgia “retro” que tem associada.

Chevron

Uma das principais empresas resultantes do desmembramento da Standard Oil foi o seu ramo californiano. Este tivera origem na Star Oil, pioneira na extracção de petróleo na Califórnia, ao perfurar o primeiro poço em 1876; três anos depois foi comprada pela Pacific Coast Oil Company, que se converteu na mais importante empresa petrolífera da Califórnia e que, em 1900, foi, por sua vez, adquirida pela Iowa Standard, uma subsidiária do gigante Standard Oil Co.

Em 1926, a Standard Oil of California (SoCal) adquiriu a Pacific Oil Company, o que fez dela a maior empresa petrolífera do Oeste dos EUA; em 1933 obteve concessões na Arábia Saudita, constituindo a California Arabian Standard Oil Company ou Casoc, que, em 1944, seria rebaptizada como Arabian American Oil Company ou Aramco – que acabou por ser nacionalizada pela Arábia Saudita em 1973-76.

Publicidade à Chevron, 1946

A fim de assegurar reservas estáveis de petróleo, em 1984 a Standard Oil of California adquiriu a Gulf, dando origem à Chevron Corporation. O novo nome não caiu do céu: já há algumas décadas que a Standard Oil of California usava a marca Chevron para vender gasolina e desde 1931 que usava um logótipo com um “double chevron”, invertido em relação ao da Citroën (ver De onde vêm os nomes das marcas de automóveis? Parte 4: França).

Em 2001, deu-se nova fusão, agora com a Texaco, gerando a ChevronTexaco (só Chevron a partir de 2005), que é a segunda maior empresa petrolífera dos EUA.

ConocoPhillips

A Continental Oil and Transportation Company foi fundada em 1875, foi adquirida pela Standard Oil em 1885 e readquiriu autonomia em 1911. Em 2002, fundiu-se com outra empresa histórica, a Phillips Petroleum, dando origem à ConocoPhillips. A Phillips Petroleum tinha sido fundada em 1917 pelos irmãos Lee Eldas Phillips e Frank Phillips, em Bartlesville, Oklahoma, e tornou-se conhecida pala marca de gasolina e óleos Phillips 66, lançada em 1930 e cujo nome evoca a lendária Highway 66, que liga Chicago a Los Angeles, numa extensão de 3940 Km, e que foi uma das primeiras vias da rede de auto-estradas dos EUA, ficando conhecida como “Main Street of America” ou “Mother Road”.

Anúncio à Phillips 66: A “conquista do Oeste” é uma alusão ao facto de a Highway 66 ter sido uma das primeiras vias a ligar o Midwest à Costa Oeste

Na década de 1960, a Phillips Petroleum expandiu as operações de extracção fora dos EUA, tendo sido a primeira empresa a descobrir petróleo no Mar do Norte, em 1969, no campo baptizado como Ekofisk. Foi também aqui que, 20 anos depois, uma plataforma da empresa colapsou, matando 123 trabalhadores.

Amoco

Outro dos blocos principais resultantes do desmembramento da Standard Oil Co., em 1911, foi a Standard Oil do Indiana (também conhecida como Indiana Standard ou Stanolind), que detinha uma quota de mercado de 88% na gasolina e querosene no Midwest. Em 1925, a Indiana Standard adquiriu a Pan American Oil Company, que detinha 50% do capital da American Oil Company (Amoco), fundada em 1901 por Louis Blaustein (um judeu nascido na Lituânia) e pelo seu filho Jacob, que tinham sido ambos empregados da Standard Oil, fazendo distribuição porta-a-porta de querosene numa carroça puxada por cavalo. A distribuição seria uma área que a Amoco ajudaria a modernizar, apostando na estação de serviço drive-through, abastecida por auto-tanque.

A partir de 1925, a operação da Indiana Standard fez-se sob as marcas Standard e Amoco, vindo este último nome a ser formalmente adoptado pela empresa em 1985.

Anúncio à Amoco, década de 1940

A Indiana Standard começou por ter um ponto positivo no registo ambiental, ao apostar, logo na década de 1920, numa gasolina (a Amoco-Gas) que empregava outros aditivos que não o malfadado tetraetilchumbo para obter o efeito anti-detonante. Porém, em Março de 1978 ocorreria um acidente que ficaria colado para sempre à companhia, quando, durante uma tempestade, o petroleiro Amoco Cadiz encalhou na Bretanha, vertendo 220.000 toneladas de petróleo.

Em 1998 a Amoco fundiu-se com a BP, dando origem à BP Amoco – designada só como BP a partir de 2001.

Naufrágio do Amoco Cadiz, Bretanha, 1978

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