observador.ptobservador.pt - 15 jan. 10:15

Margarida II. A rainha que os dinamarqueses escolheram está há 50 anos no trono

Margarida II. A rainha que os dinamarqueses escolheram está há 50 anos no trono

Foi através de um referendo que os dinamarqueses decidiram que as mulheres poderiam reinar. Apaixonada pelas artes, traçamos o perfil da monarca, carinhosamente tratada como "tia Margarida".

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Qual é a rainha, qual é ela, que é adorada pelos seus súbditos e celebra um jubileu do seu reinado este ano? É tentador responder Isabel II, mas a verdade é que antes das celebrações pelos 70 anos da soberana no trono britânico começarem, no próximo mês de fevereiro, há outra monarca em modo de festa. Trata-se de Margarida II da Dinamarca, que celebra a 14 de janeiro 50 anos no trono. Pelo reino da Dinamarca estava prevista uma grande festa ao longo de vários dias, mas a pandemia trocou os planos aos dinamarqueses. Por aqui, apanhamos boleia das celebrações e propomos descobrir a rainha Margarida através de 25 curiosidades de diferentes áreas da sua vida.

Jubileu em tempos de pandemia

No final de novembro de 2021 a Casa Real dinamarquesa publicou nas suas redes sociais um novo retrato da rainha Margarida em antecipação do Jubileu de Ouro que se celebraria em janeiro. O retrato da monarca foi captado pelo fotógrafo Per Morten Abrahamsen no Palácio de Fredensborg em abril de 2020.

As celebrações do jubileu de ouro da rainha. Inicialmente, os planos que celebram a ascensão de Margarida ao trono a 14 de janeiro de 1972, prolongavam-se entre os dias 10 e 16 de janeiro de 2022 com uma série de eventos. Por causa da pandemia de Covid-19 o programa foi reduzido e adiado. No dia 14 de janeiro a efeméride será assinalada, de forma mais contida, num conselho de estado no palácio de Christiansborg, no parlamento e com a colocação de uma coroa de flores na Catedral de Roskilde. Alguns dos eventos que estavam programados para janeiro serão adiados para os dias 10 e 11 de setembro, como por exemplo a celebração na Câmara Municipal de Copenhaga, uma performance no Royal Danish Theatre’s Old Stage, um serviço religioso especial na Catedral de Copenhaga e um banquete de gala no palácio de Christianborg.

Um dos eventos do jubileu é a exposição “A caixa de joias de uma rainha – 50 anos no trono contados através de joalharia” (A Queen’s Jewellery Box – 50 years on the throne told through jewellery). Trata-se de uma exposição com joias da rainha Margarida que estará patente no museu do palácio de Amalienborg. A seleção de peças é variada e conta com joias emblemáticas, como a pregadeira margarida e peças do conjunto Pearl Poire (à exceção da tiara). A abertura da exposição estava marcada para 13 de janeiro com a presença da própria rainha, e permanecer aberta ao público até 23 de outubro, mas dadas as restrições impostas pela pandemia, a abertura foi adiada para data futura.

Em janeiro de 2021 tornou-se na primeira monarca a ser vacinada contra a Covid-19.

Não é a primeira vez que a pandemia estraga os planos festivos da rainha da Dinamarca. Já em 2020, quando a rainha fez 80 anos (a 16 de abril), teve de cancelar todas as celebrações (que se estendiam de 2 de abril a 6 de junho) por causa do início da pandemia. Assim que o governo dinamarquês pediu à população para ficar em casa, a 12 de março, a rainha cancelou também todas as festividades planeadas para o seu aniversário. Contudo, surgiram outras formas de celebração espontâneas que provam a sua popularidade. Os dinamarqueses uniram-se através de uma conta de Facebook para cantar os parabéns à monarca ao meio dia do seu aniversário, onde quer que estivessem. Os membros das casas reais europeias fizeram um vídeo onde foram reunidos os vários votos de feliz aniversário, e ficamos a saber que muitos deles se referem à rainha como Aunt Daisy (tia Margarida). Também os funcionários do palácio onde a rainha vive se reuniram para lhe fazer uma serenata logo de manhã ao acordar.

A vida pessoal de uma rainha

Margrethe Alexandrine Þorhildur Ingrid nasceu no palácio de Amalienborg, em Copenhaga, a 16 de abril de 1940. Filha primogénita do rei Frederico IX e da rainha consorte Ingrid, nascida princesa da Suécia. É a mais velha de três irmãs. Seguiram-se a princesa Benedikte, em 1944, que casou com o príncipe alemão Richard de Sayn-Wittgenstein-Berleburg, que morreu em 2017. Em 1946, nasceu a princesa Ana Maria, que é casada com o rei Constantino da Grécia.

Além do seu dinamarquês nativo, a rainha Margarida é fluente em mais quatro línguas: inglês, sueco, alemão e francês.

Entre 1960 e 1965 a então princesa Margarida estudou em diferentes universidades dentro e fora da Dinamarca. Em 1960 formou-se em Psicologia na Universidade de Copenhaga, estudou Arqueologia na Universidade de Cambridge entre 1960-61, e estudou Ciência Política em três instituições diferentes: na Universidade de Aarhus (1961-62), na Sorbonne, em Paris (1963) e na London School of Economics (1965). É a primeira monarca no país a ter título universitário e a primeira a ter estudado numa escola pública.

É a rainha artista. Margarida é apaixonada pelas artes e praticante, uma vez que pinta, desenha, faz bordados e tem especial interesse por cenografia, têxteis religiosos e ilustração de livros. Segundo o El País, em 2017 a rainha criou e produziu o guarda-roupa e a decoração da peça o Quebra-Nozes, que estreou em Copenhaga um ano depois. Quadros da sua autoria já estiveram em exposição em vários museus dinamarqueses. Assim como os seus bordados. Tal como aconteceu com o povo, também a rainha esteve em confinamento e aproveitou o tempo extra em casa para se dedicar aos seus interesses. O resultado foi uma série de bordados, dos quais 100 estiveram em exposição na galeria Kings Gathering, na cidade de Koldinghus, até ao início de 2022. A rainha tem obras de arte suas em três museus: o Statens Museum for Kunst (National Gallery da Dinamarca), o Museu de Arte ARoS Aarhus, e a Køge Art Gallery Sketch Collection (que se dedica a desenhos para têxteis religiosos).

A rainha é também conhecida por ser uma grande fumadora. “Fumo em qualquer sítio onde haja um cinzeiro”, diz a própria, citada pela Vanity Fair. Já foi vista a fumar em público várias vezes, mas desde há 20 anos tem sido mais discreta em relação a este hábito. Em 2015, enquanto passeava em família e com os netos pela mão, numa reunião de família para serem fotografados pela imprensa, a rainha não viu qualquer problema em acender um cigarro e fumá-lo, como noticiou o DailyMail. Apesar das imagens terem gerado críticas, a família parece já estar acostumada a este hábito da rainha e os dinamarqueses também.

Margarida II da Dinamarca

Quando subiu ao trono, a princesa Margarida tinha 31 anos, já estava casada com o príncipe Henrik e já tinham os seus dois filhos. O príncipe Frederico tinha três anos e Joaquim, dois, quando a mãe se tornou rainha da Dinamarca, das Ilhas Faroé e da Gronelândia e comandante-chefe da defesa dinamarquesa. O seu lema é “A ajuda de Deus, o amor do Povo e a força da Dinamarca”.

Embora reze a lenda que a rainha demorou muito tempo a aceitar Mary Donaldson como a noiva do seu filho mais velho e princesa herdeira, a relação entre ambas parece ter-se invertido. Atualmente sogra e nora dão-se bem, os príncipes herdeiros têm sido um apoio cada vez mais importante para a rainha e a princesa é muito popular entre os seus súbditos e até na Europa. Prova de tudo isto é o facto de, em 2019, a rainha Margarida ter feito da princesa Mary sua regente. Ou seja, na Dinamarca a monarca deve ter sempre um regente para o caso de não poder desempenhar as suas funções. A rainha Margarida já tinha três regentes, o príncipe Frederico (filho mais velho e o herdeiro); o filho mais novo, o príncipe Joaquim; e a irmã, princesa Benedikte. Uma vez que os dois últimos vivem, respetivamente, em Paris e na Alemanha, a rainha decidiu nomear também a princesa Mary como regente. Nunca antes tinha sido nomeada para esta função uma pessoa que não fosse descendente direto da família real.

Uma das joias preferidas da rainha é uma pregadeira que é uma margarida de diamantes. É uma peça que a rainha usa muitas vezes e além de ter uma ligação pessoal (por ser também o seu nome), também tem ligação familiar. A joia foi um presente dos avós maternos da rainha Margarida, à filha, a rainha Ingrid, mãe da atual monarca da Dinamarca. A avó chamava-se Margarida de Connaught, a forma da pregadeira deve-se ao seu nome e os diamantes que a compõem eram seus. A então princesa Ingrid estreou a pregadeira no dia do seu casamento com o então príncipe  herdeiro da Dinamarca, Frederico. Também a rainha Margarida usou pela primeira vez a peça no dia do seu casamento, mas só a recebeu de presente da sua mãe quando fez 60 anos.

A tiara Pearl Poire é a escolha da rainha em todos seus retratos oficiais. A joia pertenceu à princesa Luísa dos Países Baixos, que nasceu no início do século XIX e era a tetravó da atual rainha Margarida. Deixou a tiara de herança à filha, a princesa Luisa da Suécia que se tornou rainha da Dinamarca ao casar com Frederico VIII da Dinamarca. A tiara tem 18 pérolas em forma de pêra penduradas em arcos de diamantes e deve o seu nome às pérolas. A rainha costuma acompanhar a tiara com um vistoso colar e brincos, todos com pérolas, formando um conjunto. A tiara é uma joia que tem estado na casa real dinamarquesa e passado de geração em geração até chegar à rainha Margarida, que a usa com muita frequência, em inúmeros atos importantes, e em retratos oficiais, como é o caso da primeira fotografia oficial como rainha da Dinamarca e da mais recente, que é comemorativa do seu jubileu de ouro.

É uma rainha sem medo de usar cor. Tanto na roupa como nos acessórios de cabeça, a rainha Margarida usa cores exuberantes, brilhos e padrões e é muito preocupada com a reutilização das suas peças.

A família

Margarida, então princesa, casou-se com o francês Henri Marie Jean André, conde de Laborde de Monpezat, em 1967. Conheceram-se em Londres, quando ele trabalhava como secretário na embaixada de França na capital britânica. Ficou conhecido como príncipe Henrik e nunca gostou de estar em segundo plano, porque queria ser rei consorte em vez de príncipe. Curava as suas mágoas num castelo em França, onde também fazia vinho. Nos últimos anos de vida sofreu de demência e morreu a 13 de fevereiro de 2018. Estiveram casados quase 51 anos.

Tem dois filhos. O príncipe Frederico André Henrik Christian, que nasceu a 26 de maio de 1968 e é o herdeiro do trono; e o príncipe Joaquim Holger Waldemar Christian, que nasceu a 7 de junho de 1969.

Em 2005, o filho mais novo, o príncipe Joaquim, divorciou-se da primeira mulher e mãe dos seus dois filhos mais velhos, a princesa Alexandra, com quem esteve casado 10 anos. Foi o primeiro divórcio na família real dinamarquesa desde 1846. O príncipe teve de lhe pagar um milhão de euros e vendeu algumas das suas propriedades para lhe comprar uma casa. Depois do divórcio, a rainha deu a Alexandra o título de condessa de Frederiksborg, a tiara que tinha usado no seu casamento e que pertencia à casa real e ainda uma casa. A ex-princesa teve ainda direito a uma pensão anual de 250 mil euros, por ser mãe de dois netos da rainha.

É avó de oito netos. Quatro dos príncipes Frederico e Mary, os príncipes Christian (15 de outubro de 2005), Isabella (21 de abril de 2007) e os g��meos Vincent e Josephine (8 de janeiro de 2011). Dois netos dos príncipes Joaquim e Alexandra, os príncipes Nikolai (28 de agosto de 1999) e Felix (22 de julho de 2002). E depois mais dois do segundo casamento do príncipe Joaquim com a francesa Marie Cavallier, em 2008, os príncipes Henrik (4 de maio de 2009) e Athena (24 de janeiro de 2012).

A família real passava as suas férias privadas de verão no Château de Cayx, um castelo em França, que estava rodeado de vinhas, onde a rainha gostava de pintar e ir ao mercado.

O Reino da Dinamarca

Em 1953, através de referendo, ficou decidido que uma mulher poderia ascender ao trono da Dinamarca, caso não tenha irmãos mais velhos ou mais novos. Margarida era a mais velha de três irmãs e quando se tornou rainha foi a primeira monarca mulher em séculos, desde Margarida I, que foi governante dos reinos da Escandinávia entre 1375 e 1412.

A princesa Margarida nasceu uma semana depois da Dinamarca ter sido invadida pela Alemanha Nazi. Conta a revista Vanity Fair que a chegada da pequena princesa foi “um raio de luz para milhares de dinamarqueses que faziam resistência ao nazismo”. A então rainha Ingrid (uma monarca à moda da era vitoriana) fazia questão de passear a sua bebé na rua e ser cumprimentada pelos seus súbditos.

O palácio de Amalienborg é um conjunto de quatro palácios à volta de uma praça com o mesmo nome onde está uma estátua do rei Frederico V e é a residência de inverno da família real. O palácio Christian IX é a residência oficial da rainha e tem a bandeira içada quando esta lá está instalada. O palácio Frederik VIII é a residência oficial dos príncipes herdeiros Frederico e Mary. O palácio Christian VII é onde a rainha instala os seus convidados e dá receções oficiais. Por fim, o palácio Christian VIII é o único que está aberto ao público porque tem o museu Amalienborg, onde se podem visitar 150 anos de monarquia dinamarquesa, e nos meses de junho, julho e agosto é possível visitar algumas das salas do interior do palácio.

A rainha é a chefe de estado da Dinamarca, uma monarquia constitucional. Como se lê no site da casa real dinamarquesa “Enquanto Chefe de Estado, a rainha não toma parte nas políticas e não expressa quaisquer opiniões políticas. A rainha atua sempre de forma leal com o governo no poder”. Entre várias funções e deveres, a rainha participa na formação de um novo governo, depois deste estar formado, é ela quem o nomeia e é também quem, formalmente, dispensa ministros. As pessoas nos cargos de primeiro ministro e ministro dos negócios estrangeiros informam regularmente a rainha sobre a situação política doméstica e externa. Como Chefe de Governo formal, a rainha preside ao Conselho de Estado.

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