Sinto que o meu carro anda a tentar matar-me. Já foram quatro - uma, duas, três, quatro! - as vezes em que esmurrei a cabeça na porta da mala em pouco tempo. Abro aquilo, aquilo começa a subir a toda a velocidade mas depois aquilo pára abruptamente. E aquilo fica à espera que eu volte a dar uma valente cabeçada. Bem sei que tenho levado o bicho aos limites da reserva de combustível, mas é que o gasóleo está caro... E explicar-lhe isto? Ainda tentei que ele visse meia dúzia de debates dos candidatos às próximas eleições legislativas para perceber que a vida anda difícil. Mas com tantos pré-comentários, pós-comentários, diretos à porta de edifícios, diretos dentro dos edifícios, declarações à chegada e declarações à saída temi que o rancor do carro para com a minha pessoa se agigantasse. E a máquina passasse da tentativa de homicídio para a sua consumação.