observador.ptobservador.pt - 15 jan. 11:35

Molière: a arte de uma gargalhada com 400 anos

Molière: a arte de uma gargalhada com 400 anos

A capacidade que Molière teve de captar o essencial de uma personalidade, no que tem de mais risível e burlesco e nos traços mais comuns, é uma habilidade teatral rara que continuamos a celebrar.

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Se a Inglaterra é, no campo das letras, uma monarquia incontestável, com o trono a pertencer a Shakespeare, se em Espanha o sólio é de Cervantes e em Portugal de Camões, em França, a pátria literária por excelência, o campo é mais republicano. Entre Racine e Montaigne, ou Hugo e Balzac, a coroa está de tal maneira dividida que nenhum pode usar mais do que uma ponta dela.

Ora, numa corte tão povoada, só há um lugar fixo: Molière, que nasceu há 400 anos, será, com certeza, o bobo. O génio do riso e da paródia, da gargalhada estendida de Paris a Versalhes, é incomparável. Há, com certeza, outros escritores cómicos, porventura até mais cómicos. Há Rabelais, há Voltaire, sim, mas nem a prosa burlesca de Rabelais nem a paródia mordaz de Voltaire têm a mesma alegria cómica das grandes obras de Molière. O riso de Rabelais e Voltaire é de gozo e de troça, mas o de Molière, embora não se furte à troça, é um riso diferente, de divertimento. A boca que se abre de riso com Voltaire morde quando se fecha porque o seu teatro e a sua ficção visam ideias. Ora, embora Molière tenha fama de grande castigador de costumes e de trocista do Antigo Regime, o alcance do seu teatro é, ao mesmo tempo, mais modesto e mais profundo. Molière, mais do que um crítico de ideias, é um crítico de caracteres.

Se o século XVIII foi o século dos grandes sistemas filosóficos e da integração do Homem no grande complexo da Natureza, o “grand siècle”, na literatura francesa, foi o século de análise da especificidade humana. Voltaire, Rousseau, Condorcet, são precedidos por Pascal, La Bruyère ou La Rochefoucauld, os habitualmente chamados moralistas. Ora, entre as Máximas de La Rochefoucauld, os Pensamentos de Pascal e os Caracteres de La Bruyère há algumas óbvias semelhanças temáticas. O papel do orgulho na condução da vida, as subtis desformalizações do amor próprio, espalhado pelas obras mais sórdidas e pelas mais pias, tem um desenvolvimento interessante na literatura.

O domínio do orgulho e do amor-próprio sobre o Homem espalha-se das formas mais diferentes por cada um; será, aliás, em parte responsável por esta mesma diferença. Há, tanto em Pascal como em La Bruyère, uma noção clara de que o orgulho é uma potência individualizante; a noção mais tardia de Kierkegaard, de que o demoníaco e aquilo que é próprio de cada um, aquilo a que chamamos personalidade, de alguma forma se confundem, já está presente nos grandes moralistas do século XVII. Isto porque parte do orgulho nasce desta vontade de sermos senhores daquilo que temos, da possibilidade sempre aberta de sacrificar o Bem àquilo que não é partilhável. É uma misteriosa particularidade humana que estes autores estudaram como ninguém: o facto de estarmos enamorados de nós próprios leva-nos várias vezes a preterir o nosso Bem por qualquer coisa que se assemelhe a uma manifestação de individualidade, de que existimos como seres originais.

É daqui que surge a grande obsessão com os caracteres, com as manifestações interiores de originalidade, que marcam a literatura deste século. As Fábulas de La Fontaine são uma longa sucessão de episódios marcados pelas diferentes manifestações dos diferentes caracteres, caracteres esses que serão revelados em grande cópia por La Bruyère. A grande obra de La Bruyère é, assim, uma tentativa de sistematizar estas várias falsas manifestações de individualidade, que facilmente se tornam caricaturas de eus, precisamente porque nenhum Homem deseja verdadeiramente este tipo de originalidade que não procura a verdade sobre si próprio. Ora, aquilo que os Caracteres de La Bruyère nos trazem em linguagem filosófica, a obra de Molière traz em linguagem cómica.

O que é característico da comicidade do Misantropo ou do Tartufo é muito mais do que as situações em que uma personalidade mais ou menos bizarra os coloca. O que os torna cómicos, com aquela “alegria tão triste” de que falava Mistral a propósito de Molière, é de facto a falsidade daqueles caracteres. Ora, esta não é uma falsidade hipócrita, à maneira das personagens de Voltaire; mesmo no Tartufo, o hipócrita por excelência, o que é cómico e triste é a farsa que engana os próprios protagonistas. O teatro de Molière está cheio de burgueses fidalgos, de preciosas ridículas, que espelham esta ideia de um Homem que se engana a si próprio deste modo triste e ridículo, procurando encontrar-se de uma forma desastrada, que passa por escolher para si precisamente o que é falso, simples imagens de uma verdade que, se revelada, o mostraria com muito mais grandeza.

A vida teatral de Molière alternou entre Paris e Versalhes, entre o teatro para a corte e o teatro popular, para a cidade. Os críticos têm notado as diferenças temáticas entre as peças escritas para a corte – mais brandas, divertimentos mais claros – e as peças mais críticas, que acirrariam um certo ressentimento de Paris contra a sua perda de estatuto.

Ora, esta ideia enfatiza um lado social nas peças de Molière que não nos parece inteiramente justo.

Há em Molière uma leveza, uma graça quase infantil que, mesmo quando é gozona, pouco tem de ressentida. As grandes peças de Molière traduzem mais o insólito do que o injusto, “corrigem os costumes pelo riso”, como o próprio escreveu, mais do que revoltam.

Esta espécie de graça saudável e descomplexada deve-se, também, a um uso da língua que não tem paralelo em França. Os diálogos simétricos, o ritmo rápido mesmo dentro de uma estrutura métrica bastante longa, tão distante da grandiloquência de Racine ou Corneille, trazem uma frescura claríssima ao seu teatro. A riqueza das suas rimas, o inesperado, a comodidade com que se entretecem fazem de Molière uma espécie de percursor daquela poesia mais prosaica que encantará, com Baudelaire, o século XIX.

Apesar de grande defensor das formas Clássicas nas querelas do seu tempo e do patrocínio do grande cultor da arte poética clássica, Boileau, Molière foi sempre, de alguma maneira, um estranho dentro do teatro. Pode parecer bizarro dizê-lo de um dos mais famosos dramaturgos e encenadores da História; no entanto, essa fama e o reconhecimento não o deixam mais integrado na história do teatro. A sua tradição não é a de Racine ou Corneille; os seus grandes dramas e comédias não são prodígios de enredo, são essencialmente manifestações de personalidades, naquilo que é uma tradição mais próxima do romance, mais propício a desenvolvimentos psicológicos, do que do teatro. A capacidade de Molière captar, num ápice, o essencial de uma personalidade, seja naquilo que ela tem de mais risível e burlesco, seja nos seus traços mais comuns é, assim, uma invulgaríssima habilidade no teatro. Só Shakespeare tem personalidades tão fortes como as de Molière, e mesmo assim as grandes personagens do bardo inglês são trágicas, mais do que cómicas.

O teatro tem uma grande tradição cómica a partir de situações e de ideias, mas a comédia a partir de personalidades é um feito que torna Molière um corpo insólito, mesmo que um dos maiores corpos, na História do Teatro. A comédia nasce sempre de um desajuste. A ideia de que a nossa personalidade não nos pertence, de que procuramos aquilo que nos é estranho para nos encontrarmos é um desses desajustes, embora um que poucas vezes queiramos enfrentar. O que Molière nos traz é a dupla prova disso mesmo. Só nos rimos assim da verdade, mesmo quando a verdade que nos trazem é a de que rimos da forma como nos destruímos precisamente por preferirmos rir, desse riso que nos mata, a contemplar a sabotagem por nós próprios a que nos sujeitamos.

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