observador.ptobservador.pt - 15 jan. 13:06

Mário Barreiros: "Nunca tentei impingir a minha guitarra e a minha bateria nos grupos que produzi"

Mário Barreiros: "Nunca tentei impingir a minha guitarra e a minha bateria nos grupos que produzi"

Já trabalhou em mais de 300 discos e agora está de regresso ao jazz. Em entrevista, Mário Barreiros recorda o início na infância, os sucesso de 80, a escola que ajudou fundou e (sempre) o Porto.

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É janeiro e o sol brilha na praia da Aguda. Fosse verão e o passadiço estaria certamente emaranhado de pernas e a areia coberta de toalhas, com guarda-sóis espetados que nem pelourinhos de banhistas. Sendo inverno, os pescoços escondem-se nas golas dos casacos e o barulho das ondas apenas é quebrado pelo grasnar das gaivotas e pelo rádio pousado no cubículo da casinha branca à beira mar. Dele sai Trio Odemira, “Ana Maria / tu só tu / Ana Maria” para deleite do pescador, com boné vermelho pintado a cores e letras de Portugal, que ali se senta e que não tardará a juntar-se a outros companheiros, já no areal, a reparar um barco – seria o Esperança ou o Esposende?

“Venho para aqui todos os dias. O mar está sempre bonito para nós”, diz Mário Barreiros, de olhos postos para lá do farol e língua solta a ondular pelas memórias de uma carreira que começou ainda em petiz e de cabeleira farta, nos Mini Pop, se emancipou com os Jáfu’Mega e com versos que se colaram ao imaginário de quem cresceu nos anos 80 – “a ponte é uma passagem / prá outra margem” – e que foi dançando ao som do jazz, da pop e do rock germinando vários sucessos à sua volta.

Sentados num banquinho, à sombra, interrompidos de quando em vez por um “bom dia” ou por um cachorro ansioso por mimos, falámos do novo álbum Dois Quartetos Sobre o Mar, composição que tem um Lado A mais contemplativo com o Quarteto Pacífico – Carlos Barreto (contrabaixo), Ricardo Toscano (saxofone alto) e Abe Rábade (piano) – e um Lado B de águas mais agitadas com o Quarteto Abissal – Miguel Meirinhos (piano), Demian Cabaud (contrabaixo) e José Pedro Coelho (saxofone tenor).

“O disco é uma homenagem a todas as pessoas que estão a cuidar do mar.” Aos biólogos marinhos, às organizações não governativas e, de certa forma, também àqueles pescadores que trabalham à nossa frente, queixando-se de ano para ano do peixe cada vez mais escasso e que, graças à Associação Cultura Curto Espaço, sediada a uns metros de distância na primeira linha da praia, têm os seus retratos expostos ao longo do passadiço, numa exposição de fotografia a preto e branco.

[“Só ten o corpo memoria”, do novo álbum de Mário Barreiros:]

Mário Barreiros já lá tocou, naquela associação, em muitos finais de tarde, conta-nos. Tocar continua a ser o que lhe dá mais prazer, principalmente jazz, pela liberdade de improvisação que lhe proporciona. “É uma música flexível que a qualquer momento podes mudar. Faz-me lembrar muito os jogos: por muito bem treinado que estejas, o essencial é estares de cabeça aberta, livre e reagires ao momento. Ter o instinto à flor da pele e não pensar propriamente muito, porque se pensares já foste, já perdeste o tempo”.

Ainda assim, por muito que o improviso o empurre para o desconhecido, o coração do músico e produtor de 60 anos continua a saltar quando se cruza com uma canção orelhuda, essa estrutura que é uma das “grandes invenções do Homem!”. “Erase Me” de Lizzy McAlpine foi das que lhe roubou mais horas de audição nos últimos tempos, confessa, mas também a “OK OK OK” de Gilberto Gil. “As canções são sínteses da vida” e pelas mãos de Barreiros já passaram muitas vidas: de Rui Veloso a Pedro Abrunhosa, no início dos anos 90, a Silence 4, Da Weasel e Ornatos Violeta, sem esquecer Jorge Palma ou mais recentemente Luísa Sobral, o músico portuense já entrou em mais de 300 trabalhos, alguns como intérprete, outros como produtor, em certos casos assumindo ambas as funções.

Atualmente toca com o seu Sexteto Mário Barreiros, com os Jáfu’Mega, com quem vai fazendo umas aparições pontuais a lembrar os tempos em que ainda tinha os primeiros pelos da barba a despontar, e com os The Gift, já lá vão 16 anos e uma inesquecível temporada com Brian Eno. Em nome próprio já não editava desde 2007. Mas o mar, esse faroeste imenso, levou-o novamente para estúdio dando à costa o álbum que sai agora em formato CD e nas plataformas digitais, no dia 17 de janeiro. “Achei que estava uma gravação boa, peguei nela e editei”. Seguindo o ritmo da rebentação, levámo-lo a passear numa conversa tão longa e rica quanto a sua carreira. Quanto o mar.

Qual é a sua relação com o mar?
É quotidiana, adoro o mar. Não há nada mais importante na nossa vida e na vida de todos os que vivem na pele do planeta terra do que o mar. Ainda por cima é lindo! O mar está sempre bonito para nós.

Quando é que o mar despertou a sua criatividade para este novo trabalho?
Fiquei impressionado por causa de um documentário, o “Seaspiracy” (2021), que é de uns tipos que tinham feito há uns anos um outro documentário muito bom, o “Cowspiracy” (2014). O disco é uma homenagem a todas as pessoas que estão a cuidar do mar. Aqui onde vivo, há mais de 20 anos que estou todos os dias com os pescadores e eles queixam-se que há cada vez menos peixe. Esta pesca artesanal, que é uma pesca antiga, está ameaçada há muito tempo pela pesca do arrastão. Há biólogos marinhos que dizem que o peixe vai acabar no final da década de 40. Portanto, é urgente que se façam coisas. A partir daí, falei com os sete músicos, com todos os envolvidos, e disse-lhes que tínhamos um sujeito para nos inspirar.

Foi a urgência de fazer alguma coisa pelo mar que o empurrou para este disco?
De repente fiquei tão impressionado com aquele documentário que precisei também de contribuir. Foi um ponto de partida. Se calhar vou repetir no futuro, sempre com assuntos importantes do contemporâneo que me possam inspirar e motivar a fazer coisas.

Porquê esta abordagem com estes dois quartetos tão distintos, o Pacífico e o Abissal?
São os grupos que tenho neste momento. O Quarteto Pacífico, que costumo chamar de Quarteto Lisboa, já existe desde 2014. Vai fazer oito anos agora na primavera. O Abissal é o quarteto mais recente que fiz com pessoas que eu já conhecia, com exceção do pianista Miguel Meirinhos, que só conheci em 2019, quando o formei. O Miguel já me tinha sido sugerido pelo Mário Laginha e pelo José Pedro Coelho, que é um músico do qual eu já sou fã há muitos anos. O outro músico que eu gosto muito e que é uma sorte tê-lo cá no Porto é o argentino Demian Cabaud, que é um contrabaixista de nível mundial, de primeira classe! Esse é o grupo com quem toco regularmente originais, mas também vários standards. É um quarteto para manter a forma, digamos.

Desde o início que a opção foi separar os dois quartetos num Lado A e num Lado B?
Tentei misturar os dois, mas depois tive alguns problemas. Achei que se calhar as coisas não ligavam umas com as outras e então achei melhor pôr de um lado as do Quarteto Pacífico [as primeiras quatro faixas] e do outro o Abissal. Preferi destacá-los e a melhor forma de o fazer foi pôr de um lado um e do outro lado o outro. Uma das qualidades que este disco tem é a interação. Há uma conversa constante do princípio ao fim. Os temas são o ponto de partida, mas de resto, a maior parte que existe é improvisação. A flexibilidade é única no jazz.

Como é tocar com músicos de diferentes gerações?
Lembro-me que quando tinha dez anos e olhava para os tipos de 60, pensava “olha ali aquele velhote”. O que é certo é que uma pessoa chega lá e não dá por isso. Não sentimos a idade da mesma forma. Sou muito amigo do Ricardo Toscano, que tem a idade do meu filho, 28 anos, e dou-me muito bem com ele, melhor do que com muitas pessoas da minha idade. Temos uma coisa muito forte em comum que é a herança do jazz. Conhecemos os mesmos discos, gostamos das mesmas coisas, falamos muitas vezes sobre o que ouvimos e isso é o que nos aproxima.

Há uns tempos, em conversa com o [programador] Ivo Martins, a propósito dos 30 anos do Guimarães Jazz, ele dizia que na sua juventude as famílias não viam com muito bons olhos ter algum membro que fosse músico de jazz. Contudo, a família do Mário era muito diferente…
O meu pai era um apaixonado por música. Ele foi músico amador. Aliás, foi o meu pai o culpado disto tudo, da minha carreira. Há 50 anos, quando era miúdo, toda a gente tinha que tirar um curso superior ou ter uma profissão qualquer, porque ser músico não era um trabalho sequer. Ainda hoje as pessoas pensam que os artistas são uns preguiçosos, o que não é verdade. Mas sempre tive o apoio da família.

Hoje em dia é possível viver do jazz?
É difícil. Há alguns casos, como o Mário Laginha, mas a maior parte das pessoas pelo menos tem que dar aulas. No meu caso, faço muitas coisas e não estou em exclusivo no jazz. Só estive seis anos dedicado em exclusivo ao jazz, que foi de 1984 a 1990, quando abrimos a Escola de Jazz do Porto. De resto, comecei pelo pop rock quando era miúdo. Só descobri o jazz aos 15 anos. É talvez a música que mais prazer me dá a tocar, por uma razão simples: por causa da improvisação. É uma música flexível que a qualquer momento podes mudar. Faz-me lembrar muito os jogos: por muito bem treinado que alguém esteja para esse jogo, o essencial é estar de cabeça aberta, livre e reagir ao momento. Ter o instinto à flor da pele e não pensar propriamente muito, porque quem pensar já foi, já perdeu o tempo. Há certas atividades em que não podemos pensar, em que o pensar atrapalha. E o jazz é uma delas.

Há pouco dizia que o seu pai foi essencial para a sua educação musical. Fale-me da infância e dos Mini Pop. Como é que o grupo foi formado?
As primeiras memórias que tenho é de ver grupos lá em casa a ensaiar. O meu pai formava grupos, era uma espécie de empresário. Passados dois anos dessas primeiras lembranças, que são a partir dos meus cinco anos, começámos a aprender música: primeiro o meu irmão, depois eu e passado um ano ou dois o meu pai formou com um amigo nosso, que era o Abílio Queiroz (baterista), os Mini Pop. Foi uma espécie de escola, onde tocávamos pop rock, desde Beatles, Steely Dan a Eagles na fase em que contratámos o Rui Lacerda.

Mas o grupo surgiu para se divertirem? É que a certa altura vocês já tocavam em Vilar de Mouros (1971) e no Festival da Canção da RTP (1973).
Havia um misto das duas coisas. Tínhamos que trabalhar todos os dias um bocado para a escola e um bocadinho para a música. Havia uma disciplina do meu pai e depois o nosso gosto. Aliás, ele nunca nos chateou muito. Gostávamos de fazer aquilo. Há até um episódio curioso: quando em 1973, tinha eu 12 anos, fomos ao Festival da Canção tocar uma música chamada Menina de Luto, nem gostávamos da música nem do Festival da Canção! Ficámos em sétimo à frente da Simone e da Tonicha e depois tivemos convites para tocar no dobro dos sítios a que normalmente íamos tocar. Nunca tivemos tantos espetáculos como no verão de 1973. O que aconteceu é que íamos tocar como artistas do Festival da Canção, mas não tocávamos a música do Festival da Canção. Ficava toda a gente desiludida e o meu pai sempre a desculpar-se, “o que é que eu posso fazer, os miúdos não querem!”. Normalmente tocávamos as músicas de que gostávamos e sempre cultivámos isso. Portanto, o nosso pai nunca nos chateou muito e foi bom nesse aspeto.

Era normal pisar grandes palcos?
Claro que era anormal, mas eu não sabia o que era o normal, por isso para mim aquilo era o normal.

Como é que se dá a transição dos Mini Pop para os Jáfu’Mega?
É a emancipação dos filhos em relação aos pais. Queríamos fazer o nosso próprio grupo, compor música original e foi isso que fizemos. Começámos em inglês, porque tínhamos esse background, mas depois o Rui Veloso abriu as portas e percebemos que se cantássemos na nossa língua, estávamos mais perto do público.

Vocês eram contemporâneos do Rui Veloso, dos Táxi, dos GNR, Trabalhadores do Comércio. O que é que o Porto tinha para fazer florescer tantos grupos?
O Porto tinha uma qualidade impressionante. Lembro-me desde miúdo, desde os Mini Pop, do respeito da malta de Lisboa pelos músicos do Porto. Havia imensos músicos de pop rock aqui no Porto com uma qualidade incrível e eu fui aluno de alguns deles: o Fernando Nascimento, o Carlos Garrido, o Rui Lacerda, o Alberto Jorge, o Graça Moura, depois o António Pinho Vargas. E cantautores também: o José Mário Branco era do Porto e o Sérgio Godinho. Pelo Porto ser uma cidade fechada, muito menos festiva do que Lisboa, talvez isso tivesse criado mais condições para as pessoas trabalharem um pouco mais, ficarem mais em casa, para que se dedicassem a um trabalho de fundo. O Porto agora já está completamente cosmopolita e boémio. Portanto, daqui a 50 anos vamos ver se isso continua a ser verdade ou não.

A comunidade de músicos era muito próxima?
Sim, cruzávamo-nos em festas de finalistas, liceus, universidades. A Cooperativa Árvore tinha às sextas-feiras uma jam session muito famosa, onde íamos para assistir e tocar. A escola de Belas Artes também tinha no seu pequeno auditório concertos frequentes. Encontrávamo-nos muitas vezes em casa uns dos outros para ouvir música. Tenho umas 200 ou 300 cassetes gravadas dessa altura. Como é que gravávamos as cassetes? Um décimo das pessoas emprestava discos e eu ia a casa delas, combinava o dia e ia gravar. Gravava em tempo real. Agora é imaginar, 200 a 300 cassetes, com dois discos cada uma, um de um lado outro do outro, quantos dias isso não demorou a fazer!

Foi nessa altura que despertou o seu interesse para o jazz?
Acho que a primeira música que me bateu e que me deixou apaixonado foi o tema do Herbie Hancock, do disco Thrust (1974), que se chama “Actual Proof”. Não percebia nada daquilo, não sabia que acordes eram aqueles, mas adorei. No intervalo dos espetáculos dos Mini Pop – normalmente fazíamos duas partes – passei por uma fase de uns meses em que ia para o carro do Rui Lacerda ouvir a música as vezes que podia. Se o intervalo fosse de meia hora, dava para ouvir três vezes. A partir daí fui descobrindo outras coisas. Comecei a ouvir muito cedo o Coltrane, o Sony Rollins, o Art Blakey e os Jazz Messengers numa fase em que tinha um músico com quem eu depois tive o privilégio de tocar, que é o Wayne Shorter. Ele ainda é vivo, tem 88 anos e está a escrever uma ópera! O Wayne Shorter é talvez a maior figura viva do jazz.

Na altura era fácil aceder a esse tipo de música?
Era difícil. Era preciso pedir discos emprestados, encomendá-los nas discotecas. Na altura dos Mini Pop, na Praça Velásquez, havia uma discoteca muito boa que era a Sofisticada onde íamos praticamente todas as semanas ver o que tinha saído de novo. Lembro-me perfeitamente de em 1970, quando saiu o “Let it Be” em single, de irmos lá, levarmo-lo para casa e depois chegámos a tocá-lo nos Mini Pop. Mais tarde, a Tubitek também era uma excelente discoteca, bem como a Orfeu na Boavista. Havia outra no shopping Brasília, que não me lembro do nome. Às vezes encomendávamos discos às cegas. Depois tínhamos amigos que traziam discos de fora e fazíamos sessões para os ouvir.

Ainda tem alguns desses discos?
Tenho uns 500 a 600 discos. Atualmente não compro vinil, não me interessa muito esta moda, sou um consumidor de streaming. Adoro o streaming, porque é muito fácil para saber o que saiu de novo. Para mim é uma ferramenta imprescindível.

Quando entrou no Conservatório, foi para uma vertente de jazz ou de clássica?
Na altura não havia vertente de jazz no Conservatório. Nem sequer havia os dois instrumentos que eu desenvolvo, que é a guitarra e a bateria. Fiz o primeiro ano de educação musical com 10 anos. Não gostei da professora, era uma velhota chata. Passados uns três ou quatro anos voltei para fazer os estudos de educação musical, matriculei-me em violino, estive também em trompete uns meses, mas os meus instrumentos já eram a guitarra e a bateria.

A bateria apareceu depois da guitarra?
Sempre tivemos bateria em casa. Todos nós – o Pedro, que é contrabaixista, o meu irmão Eugénio, que era teclista e cantor dos Mini Pop – tocávamos bateria. A bateria é um instrumento irresistível. Aquilo estava em casa e nós tínhamos que ir para lá fazer barulho.

Então aprendeu de forma autodidata?
A minha formação é sobretudo como autodidata. Só me dediquei à bateria a sério com 17 anos, quando já tinha muitos discos gravados de jazz, que era basicamente o que me interessava. Encomendei alguns livros americanos e a aprendizagem foi sempre através dos discos e dos livros. Não é mau aprender sozinho. É mais difícil, é preciso uma força de vontade muito grande, mas tem uma vantagem em relação às escolas: não perdemos tempo com coisas que não nos interessam. Uma coisa é certa: é impossível saber tudo e as escolas às vezes têm esse defeito. São muito rígidas, ensinam muita técnica e pouca estética. Desenvolvem pouco a diferença individual e é mais fácil de chegar a essa diferença através da descoberta solitária.

Colaborou durante muitos anos com o António Pinho Vargas. Foi um dos seus grandes mentores?
Sim, completamente. Quando acabámos os Mini Pop, em 1976, tinha eu 16 anos, já o conhecia de o ver tocar. Depois, já não sei por que razão, o grupo do António Pinho Vargas – que tinha o Artur Guedes no contrabaixo, o José Nogueira no saxofone e o José Martins na bateria – começou a ensaiar num anexo de uma casa grande que nós tínhamos, que é a atual Escola de Jazz do Porto. Nessa altura, o José Martins foi para Lisboa, começou a tocar com os Trovante e a fazer um monte de outras coisas. Portanto, eles ensaiavam muitas vezes sem baterista, porque o José Martins vinha uns dias antes dos concertos para fazer dois ou três ensaios e nos outros ensaios regulares, eles não tinham bateria. Eu assistia a todos, adorava jazz, estava a descobrir tudo e certo dia perco a vergonha e pergunto “posso acompanhar só com a mão direita? Mas vejam lá, se eu estiver a atrapalhar eu paro”. Eles disseram logo que sim e foi assim que começou. Comecei a acompanhá-los com a mão direita no prato, a fazer o swing e passado uns tempos estava a tocar com eles. O António Pinho Vargas é um dos meus segundos pais.

Teve outros pais?
Outra pessoa que me influenciou muito foi o Rão Kyao. Foram duas pessoas muito importantes para mim. Também muito importante, mas talvez um pouco menos, foi o José Eduardo, contrabaixista que fundou a Escola de Jazz do Hot Clube e que foi para Barcelona ter um papel fundamental no Taller de Musics, uma das mais importantes escolas de jazz de Barcelona. Foram três pessoas mais velhas que me guiaram e ajudaram muito no jazz.

Tem imensas colaborações na carreira: já falámos do António Pinho Vargas e do Rão Kyao, mas também com o Mário Laginha, a Maria João, o Bernardo Sassetti. Como é que isso o ajudou a evoluir enquanto músico? E qual é a sua identidade musical?
Podia estar aqui a inventar uma série de coisas, mas não sei qual é nem nunca me interessou saber qual é a minha identidade musical. A minha identidade musical são os outros que dizem qual é. Há, contudo, uma coisa que sei: das coisas que gosto e que não gosto. Para mim, sempre foi fácil perceber na música o que gosto e o que não gosto. Em geral, há coisas que realmente provocam em mim uma ressonância interior muito grande: textos, filmes, músicas e creio que a minha identidade passa muito por aí. O que sai de mim é o somatório disso tudo.

Qual foi o projeto mais desafiante em que participou, isto dentro do jazz?
É uma pergunta difícil, mas talvez tenha sido o concerto de abertura do ciclo de jazz que a Porto, Capital Europeia da Cultura 2001 fez, exatamente com o Wayne Shorter. Foi um concerto no Coliseu do Porto com o quinteto do Wayne Shorter e a Orquestra Sinfónica do Porto. Ensaiámos uma semana com Orquestra e com o maestro e depois ensaiámos dois dias antes do concerto com o Wayne Shorter. Foi talvez o maior desafio que tive como baterista de jazz.

Maior do que a abertura da Escola de Jazz do Porto? Quando é que se deu o clique para fundar uma escola de ensino profissional de jazz?
A escola foi inaugurada em 1985 e o clique até foi do meu pai. Achámos muita piada, porque os meus irmãos Pedro e Eugénio também eram estudiosos do jazz. Tínhamos descoberto todos o jazz há pouco tempo. A escola foi fundada com a ajuda preciosa de alguns amigos, entre eles o Pedro Abrunhosa, a Isabel Dantas, o José Meneses que foram também os primeiros professores da escola. Já tínhamos alguma experiência em dar aulas e tínhamos todos feito o conservatório. Já tocávamos jazz, já conhecíamos muitos discos e pronto, fizemos a escola. O Mário Laginha também vinha de tempos a tempos dar aulas de piano. Agora é o meu irmão Pedro quem está à frente da escola.

Apesar dessa variante do jazz, nunca deixou o universo da pop e do rock. O que é que o atrai aí? É a canção redonda?
A canção é uma estrutura e uma descoberta incrível. É uma das grandes invenções do Homem. São sínteses da vida. Depois os textos são engraçados, curtos, geralmente fáceis de perceber e há também a questão do canto. Eu gosto muito do canto popular de todos os estilos de música. O canto mais erudito para mim é muito mais distante em termos de emoção.

Começou a produzir desde cedo?
Basicamente desde miúdo. Nos Mini Pop tínhamos gravadores de cassetes de quatro pistas, nos Jáfu’Mega também. A minha primeira produção oficial foi com os Jáfu’Mega e a partir daí fui começando a produzir várias coisas, sobretudo a partir da década de 90.

Foi nessa década que foi produtor, diretor musical e guitarrista nos Bandemónio do Pedro Abrunhosa e que trabalhou com o Rui Veloso. Tinha noção de que estava a fazer parte de dois grandes fenómenos?
Não tinha noção disso e nunca me preocupei com isso. Acho até que é uma burrice incrível as pessoas preocuparem-se com o sucesso. Claro que temos de nos preocupar com a subsistência. De resto, em termos artísticos, na maior parte das artes, é preciso produzir e depois, eventualmente, vender qualquer coisa ou fazer algum dinheiro com ela. Mais de 50% dos artistas se calhar não fazem dinheiro imediato com as coisas que produzem. É mais importante ser-se livre do que estar preocupado com o sucesso para ir buscar o pão de amanhã. Sou um sortudo, porque nunca me preocupei com dinheiro e sempre me foi possível ser profissional. Mas também digo, nunca me preocupei em ser profissional. Sempre pensei: no dia em que a música já não der, não há problema, arranjo outra coisa qualquer para fazer. De qualquer forma, tive sempre trabalho.

Da mesma forma que no jazz colaborou com uma série de nomes, na pop e no rock também tocou e produziu uma série de nomes portugueses, de várias gerações. Já falámos do Rui Veloso e do Pedro Abrunhosa, mas também há os Silence 4, os Ornatos Violeta os Clã… recebia muitos contactos?
Sim, deve ter sido por causa desses fenómenos que aconteceram logo no início dos anos 90, primeiro com o Rui Veloso, depois com o Pedro Abrunhosa. A certa altura toda a gente queria ser produzida pelo Mário Barreiros. Depois aconteceu outro fenómeno, com os Silence 4. Lembro-me de o primeiro disco deles ser muito fácil de gravar, porque pura e simplesmente adorei as maquetes que eles me mostraram. Curiosamente, tinham sido reprovadas pelas editoras, não sei porquê. Adorei-as logo desde o início. Foi o disco mais fácil e mais rápido que fiz na minha vida.

Qual foi o mais longo?
O mais longo foi um que não fiz, porque achava que demorava um ano e eles não aceitaram. Mandaram-me para as urtigas e foram buscar outra pessoa para o fazer. Não vou dizer quem é, mas era um caso complicado que poderia chegar a um ano de preparação.

Aceitou projetos muito diferentes, por exemplo os Da Weasel [Podes Fugir mas não te Podes Esconder, de 2001], que são do campo do hip hop…
Os Da Weasel são um grupo que sempre adorei. Foi um desafio incrível, porque era uma área com a qual não estava muito familiarizado, mas que hoje em dia estou. Já o Abrunhosa foi muito influenciado desde o primeiro disco pelo funk e mesmo pelo rap. Quando fomos trabalhar o segundo disco, o Tempo, em setembro de 1996, estivemos quase um mês nos Estados Unidos, em Minneapolis, Memphis e em Nova Iorque. Aí apercebemo-nos que o hip hop era incontornável. Para mim, passado uns anos, ter a oportunidade de produzir os Da Weasel, foi muito bom.

Mas a iniciativa partiu deles?
Foram ter comigo e eu adorei. Acho que eles também viram que, como estudei música, tenho um ouvido bom, como tenho um respeito muito grande pelas bandas com que participo, os podia ajudar. Nunca tentei impingir a minha guitarra e a minha bateria nos grupos que produzi. Isso também lhes dá alguma segurança para acreditarem em mim.

Ainda produz ou já abrandou o ritmo?
Abrandei, porque lá está: na altura estava na moda e toda a gente queria trabalhar comigo, agora que estou a chegar a velhote e já ninguém quer trabalhar comigo. Mas tenho convites. Tenho um do Jorge Palma e tive um convite dos GNR há dois anos para fazermos um tributo, mas, entretanto, a pandemia adiou tudo. Os GNR são um dos meus grupos favoritos de sempre do pop rock e quando o Jorge Romão me ligou para saber se eu estava interessado em produzir um trabalho deles, aceitei logo.

Já tinha trabalhado com eles?
Produzi o Caixa Negra (2015), o último LP deles. Toquei guitarra no disco também. Insisti que fosse o Tóli [César Machado] a fazer a bateria, porque há muitos anos que deixou de ser o baterista ao vivo dos GNR. É guitarrista e também toca teclados, mas os GNR para mim sempre existiram com a batida do Tóli. Então eu disse, “eu produzo um disco vosso, mas tem que ser o Tóli na bateria”. E assim foi. Foi um grupo com quem gostei muito de trabalhar.

Está envolvido com algum projeto atualmente?
Sou baterista dos The Gift há 16 anos, desde 2006. Tivemos uma experiência impressionante que foi trabalharmos o “Altar” (2017) com o Brian Eno, de quem eu sou fã desde sempre. É um dos grandes gurus da música pop rock. Tive quatro sessões com ele, de dez dias cada, que foram absolutamente fantásticas! Acordávamos muito cedo, fazíamos quatro, cinco horas de trabalho antes do almoço e depois do almoço era facultativo, mas quase constante. À noite fazíamos jam sessions. Juntávamo-nos à volta da mesa de jantar, cantávamos música do cancioneiro americano. Fizemos sessões absolutamente inacreditáveis! Tenho pena de não terem sido filmadas, porque dariam documentos incríveis.

E além dos The Gift?
Ninguém, com exceção do quarteto e dos Jáfu’Mega. Reativámos a banda em 2013 e temos feito meia dúzia de coisas todos os anos.

É como voltar à adolescência?
Sim, quer dizer, já tinha vinte e poucos. Mas no início dos Jáfu’Mega ainda era adolescente. Quase nem barba tinha.

Dá mais prazer tocar ou produzir?
Tocar continua a ser o melhor, mas gosto de fazer tudo. Inclusivamente neste disco, Dois Quartetos Sobre o Mar, fui eu que fiz as fotografias, a capa, alguns textos. Fiz a paginação e depois entreguei tudo a uma profissional, a Susana Fernando, que fez a arte final.

Vai apresentar este trabalho em palco?
Não está nada previsto. A pandemia virou tudo um pandemónio, porque não se consegue programar nada. Os teatros estão cheios com coisas que se arrastam já há dois anos. Talvez se façam pequenas coisas, mas mais em 2023.

Tem outros projetos em paralelo?
Neste momento estou a fazer um mestrado em bateria, na ESMAE, que me vai ensinar a escrever, que é uma coisa que nunca fiz. Gosto de ler, mas nem sequer leio muito. Escrever então nunca fui por aí, mas estou entusiasmadíssimo para o fazer. O meu próximo disco provavelmente vai ser aquilo que vou escrever para o mestrado. Ainda falta um ano e meio, vamos ver.

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