sol.sapo.ptMário Ramires - 15 jan. 00:00

À beira do burnout

À beira do burnout

António Costa está com aquele mesmo ar com que António Guterres andou nos últimos tempos da sua governação, nos primeiros dois anos deste milénio, antes de fugir do pântano em que deixou o país e entregar o poder a um líder do PSD em que já ninguém acreditava que poderia chegar a primeiro-ministro, a não ser o próprio (que só não sabia quando).

Se Guterres foi vítima de si próprio e do que considerou para si mesmo uma ingratidão do povo - leia-se eleitorado, que lhe negou a maioria absoluta depois de quatro anos de uma terceira via que distribuiu benesses à esquerda e à direita e levou à exaustão a governação pelos consensos e tentativas de conciliação abafadoras de qualquer processo de decisão ou reforma -, Costa desiludiu-se com o falhanço do seu sonho de governar à esquerda, com a esquerda e pela esquerda.

Acabou, esgotou-se, já não traz nada de novo nem promete esperança alguma.

Por isso é tão curioso que, no debate com Rui Rio, o líder socialista tenha lançado mão da hipótese de governar com o apoio do PAN (assim ao género do Orçamento do Queijo Limiano) ou «à Guterres», negociando à vez e com toda a gente e medida a medida.

Só que tudo tem o seu tempo e o seu contexto.

E este não é o tempo de soluções ‘limianas’ ou ‘consensos guterristas’.

Se a terceira via foi um movimento que teve péssimos resultados à escala europeia, a governação pela consensualização de Guterres, para marcar o contraponto com o rumo austero e firme de Cavaco Silva, revelou-se um desastre para o país - ao ponto de o próprio ministro das Finanças à época, Joaquim Pina Moura, ter sido corrido do Executivo por apresentar um plano de medidas draconianas que já então (ainda no século passado) considerava essenciais para Portugal ter futuro. E se tinha razão!!!

Claro que Guterres, à Guterres, preferiu meter o plano de Pina Moura na gaveta e adiar as reformas que se impunham para perseguir a sua tentativa de chegar a uma maioria à qual sempre teve medo de chamar absoluta e que, em parte por isso mesmo, os portugueses recusaram dar-lhe.

Curioso foi António Costa ter recuperado a fórmula de governação ‘à Guterres’ no debate com Rio. É o pior que podia fazer. Mais lhe valera dizer alto e a bom som, como Cavaco em 1991, que ou lhe dão a maioria absoluta ou vai à sua vida.

Costa diz que não fará nunca como Cavaco e não fará essa «chantagem» com o eleitorado.

Tenha boa sorte, então. Se julga que é a admitir acordos com o PAN (como Guterres não quis fazer em 1999 e foi o que foi) ou com propostas de governação à Guterres que atinge o seu objetivo, está muito bem enganado e mal aconselhado.

Lançar mão da muleta de Marcelo em Belém, dizendo que este Presidente não permitirá que um primeiro-ministro com maioria absoluta pise o risco duas vezes como aconteceu no passado, é extraordinário. Esqueceu-se que o Presidente da República no tempo das maiorias absolutas de Cavaco Silva era Mário Soares, fundador do PS e republicano, socialista e laico que combateu ativamente o cavaquismo até pela inércia que o próprio apontava ao líder da oposição de então, precisamente António Guterres? Mais um tiro no pé, no joelho ou mais acima, como diria o militante número um de um grande partido nacional.

António Costa tem a escola da política, do berçário à creche, com licenciatura, pós-graduação e doutoramento. Tem a escola toda.

Por isso, a falta de forma e os sucessivos desaires destes últimos tempos só podem explicar-se com desgaste, cansaço, frustração, burnout. Que lhe pode ser fatal.

Não quer dizer que a corrida esteja perdida para Rio, que ainda tem muito caminho a percorrer.

Mas, se quer mesmo vencer, é bom que comece a dar corda aos sapatos.

Rio tem a virtude de nunca ter desistido e ter provado que, contrariando verdades axiomáticas, afinal a mesma água pode passar duas vezes por debaixo da mesma ponte. Só depende da maré.

Já só faltam 15 dias decisivos.

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