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Visão | Ucrânia: Ausência da União Europeia das negociações é culpa da Rússia -- Analista

Visão | Ucrânia: Ausência da União Europeia das negociações é culpa da Rússia -- Analista

O especialista em assuntos internacionais Álvaro de Vasconcelos culpa a Rússia pela ausência da União Europeia (UE) das negociações sobre a "crise gravíssima" na Ucrânia, em que considera ser difícil alcançar um compromisso

“É evidente que a Europa foi afastada dessas negociações, e foi afastada fundamentalmente pela Rússia”, disse Álvaro de Vasconcelos à Lusa.

Para o antigo diretor do Instituto de Estudos de Segurança da UE (2007-2012), o Presidente russo, Vladimir Putin, considera que os Estados Unidos da América (EUA) é que garantem à Rússia o estatuto de superpotência militar que “ainda sonha em continuar a ser”.

“Putin, por um lado, acha que a União Europeia não é um ator militar significativo, no que infelizmente tem razão, e, por outro lado, quer tratar de igual para igual com os Estados Unidos”, afirmou.

Para Putin, são os EUA que “têm a voz decisiva” na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) e que podem travar o seu alargamento à Ucrânia e à Geórgia.

Álvaro de Vasconcelos apontou que a Ucrânia tem problemas económicos graves e uma democracia instável, com correntes políticas diversas, umas pró-Moscovo e outras antirrussas, bem como uma parte significativa da população de língua russa.

“Tudo isso torna a situação política da Ucrânia muito complicada e a Europa é que pode dar resposta a estas questões com o reforço do futuro europeu da Ucrânia, que favorecerá a autonomia em relação à Rússia”, afirmou.

Para Álvaro de Vasconcelos, “esse é um caminho de que a Rússia não gosta”, porque a sua “grande preocupação é com uma Ucrânia democrática e desenvolvida, que seria uma alternativa ao modelo nacionalista autocrático de Putin”.

Com mais de 43 milhões de habitantes, a Ucrânia é o segundo maior país da Europa em tamanho a seguir à Rússia, com o qual faz fronteira.

Depois de ter integrado a antiga União Soviética, tornou-se independente em 1991, após a dissolução do bloco controlado por Moscovo.

Em 2014, na sequência da Revolução Laranja que levou ao afastamento do presidente pró-Moscovo Viktor Yanukovych, a Rússia invadiu e anexou a península ucraniana da Crimeia.

Desde então, tem alegadamente patrocinado uma guerrilha na região industrial de Donbass, no leste da Ucrânia, que já provocou mais de 13.000 mortos e 1,5 milhões de deslocados, segundo dados da ONU.

“No leste da Ucrânia há guerra todos os dias, a Ucrânia está em guerra. Nós perdemos a noção disso, mas já este ano morreram 65 soldados ucranianos em Donbass”, lembrou o especialista em assuntos internacionais.

Álvaro de Vasconcelos disse que a decisão de reiterar o objetivo da adesão da Ucrânia à NATO na cimeira de 2021, em Bruxelas, levou a Rússia a fazer um “ultimato militar” ao concentrar mais de 100.000 soldados na fronteira e ameaçar invadir o país vizinho.

“Isto é algo de gravíssimo”, afirmou.

Em dezembro, Moscovo exigiu garantias de que a Ucrânia e a Geórgia nunca integrarão a NATO, a retirada de efetivos e armamento dos países do Leste que integram a Aliança e o regresso à situação anterior a 1997, quando foi lançado o processo de adesão da República Checa, Hungria e Polónia, concretizada em 1999.

“Dizer agora que a Ucrânia não será membro da NATO é uma capitulação a um ultimato e levaria Putin a pensar que a utilização da ameaça militar é a solução para todos os problemas”, disse o analista.

Álvaro de Vasconcelos definiu Putin como um “autocrata com uma perspetiva fortemente nacionalista”, que desvia a atenção para os problemas graves da Rússia com a ideia de uma ameaça.

“Isto é típico da retórica nacionalista. Ele brande a ameaça da NATO e nós achamos que é um absurdo porque a NATO não vai invadir a Rússia, mas há russos que pensam que isso é possível quando veem manobras da NATO perto das suas fronteiras”, referiu.

E os militares russos têm todo o interesse em propagar essa narrativa, porque lhes dá “mais força, mais meios e mais papel na sociedade russa”.

“Portanto, conjugam-se fatores internos russos nesta ameaça gravíssima que pende sobre a Europa”, disse, referindo que os Estados-membros da UE que têm fronteiras com a Rússia sentem-se diretamente ameaçados.

“Se vivêssemos em repúblicas bálticas como os bálticos, e não fôssemos portugueses que estão tão longe da Rússia, estaríamos extremamente inquietos com o que se passa”, afirmou.

Na sua perspetiva, os europeus “não estão a levar suficientemente a sério” a ameaça militar russa, uma situação que a todos devia “inquietar muito”.

“Para nós, europeus ocidentais, a guerra é algo que não faz sentido, mas não é assim para Putin, o que torna a situação extremamente grave”, sublinhou.

Daí “não fazer sentido nenhum” a UE não participar diretamente nas negociações que a Rússia iniciou esta semana com os EUA, a NATO e a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE).

Álvaro de Vasconcelos lembrou que a UE tem a arma do gasoduto Nord Stream 2, que transportará gás russo diretamente para a Alemanha e que se não entrar em funcionamento representará uma perda significativa para a Rússia.

A redução das manobras militares da NATO no leste e o regresso dos EUA ao acordo sobre mísseis de médio alcance, de que Washington se retirou por decisão da administração de Donald Trump (2017-2021), poderão contribuir para um compromisso.

Mas, mesmo assim, Álvaro de Vasconcelos teme que o conflito resulte numa “intervenção militar limitada” da Rússia na Ucrânia.

“Ou seja, não com uma ocupação militar da Ucrânia, mas que em zonas do leste da Ucrânia, onde há uma minoria russófona muito significativa, haja um pretexto ou inventem uma provocação que permita uma presença militar significativa”, disse.

Uma nota de esperança, acrescentou o especialista, “é que os Estados Unidos e a União Europeia consigam construir uma frente clara em relação a este problema, que a União Europeia tire lições das suas fraquezas militares e políticas, que a sua voz na NATO seja mais unificada e mais forte, e que tenha uma política generosa em relação à Ucrânia que torne mais custoso para a Rússia uma invasão”.

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