www.publico.ptpublico@publico.pt - 14 jan. 05:30

Protótipo ou “geringonça”?

Protótipo ou “geringonça”?

Numa situação de pandemia e perante um enorme pacote de investimento que não pode ser desperdiçado, o eleitorado quer ter garantias de que a política não vai continuar ao sabor de improviso.

Há muitos anos numa digressão por Marrocos quis comprar um saco de pele; escolhida a peça e observada a etiqueta com o preço, perguntei ao feirante quanto teria a pagar. O preço indicado era muito inferior ao da etiqueta, o que me levou a perguntar se não haveria engano; não, disse o comerciante, esse preço é para americanos! Seguiu-se o regateio da praxe, depois de oferecer um valor tão baixo que provocou a ira e alguns insultos do comerciante. Fui subindo gradualmente até, evidentemente, finalizar em valor mais baixo do que o segundo que me fora proposto. Um processo moroso e pouco eficiente que por cá foi há muito substituído por preços fixos, que pelo menos podem ser comparados.

Vem isto a propósito das próximas eleições e da incapacidade dos partidos de assumirem compromissos sérios e razoáveis que permitam escolhas claras ao eleitorado; foi isso que começou a minar a “geringonça” em 2018 com as cativações de Centeno que comprometiam os entendimentos de 2015, se transformou numa vaga promessa em 2019, para levar ao desmantelamento do que restava em 2021.

Esta costela de feirante que quer ganhar o máximo num único negócio terá levado o PS a rejeitar um acordo escrito com o BE no início da última legislatura, mas também o PCP a titubear e a dar uma no cravo e outra na ferradura, e por fim, ao que parece, o BE a pedir “preço para americano” nas últimas negociações do OE.

A mesma esquerda que abriu as portas à troika teve um lampejo de lucidez em 2015, talvez remorsos dos estragos sociais profundos causados pela insensibilidade de Passos Coelho.

A mesma esquerda que abriu as portas à troika teve um lampejo de lucidez em 2015, talvez remorsos dos estragos sociais causados pela insensibilidade de Passos Coelho

Sim, convém não esquecer que para o PSD de 2014 era impossível qualquer hipótese de intervenção do Banco Central Europeu para travagem dos juros galopantes da nossa dívida pública, impostos pela especulação financeira; os tratados assim o impunham, argumentavam com a arrogância do capataz zeloso dos interesses do patrão. Logo a seguir, sem que os tratados fossem alterados, o BCE começou a comprar a divida pública, a especulação financeira virou-se para outras vítimas, mas no PSD ninguém se veio retratar da subserviência face a limitações que afinal não eram impossibilidades, mas que custaram muito caro a muita gente.

A hipótese de um entendimento à esquerda surgiu numa frase de Jerónimo de Sousa : O PS só não forma Governo se não quiser”, depois de manifestada abertura por parte do BE; a “geringonça” apareceu assim como um improviso, de recurso, sem uma negociação prolongada e minuciosa que publicamente responsabilizasse os partidos envolvidos.

Ainda assim o entendimento rudimentar a que se chamou “geringonça” - anular medidas da troika - permitiu ao país ver bem a diferença entre uma politica de esquerda, preocupada com as pessoas, da política de direita sempre ajoelhada perante o altar dos “mercados”.

A falta de compromissos claros ou do cumprimento escrupulosos do que ficou acordado foi a causa da degradação e depois da destruição da “geringonça”.

“O método para alcançar o sucesso negocial dependerá da vontade de superar, corrigir e resolver o impasse e as causas que levaram à não aprovação do orçamento para 2022 como sejam, a inexistência de um acordo, bem como de mecanismos de verificação da sua execução ao longo do tempo”, afirma-se num pedido público de entendimento à esquerda, subscrito agora por gente de variados quadrantes.

Numa situação de pandemia ainda não totalmente solucionada, perante um enorme pacote de investimento que não pode ser desperdiçado, o eleitorado nacional quer ter garantias de que a política não vai continuar ao sabor de improvisos mas que lhe apresentam um quadro credível, exigente mas estável.

Há ou não a garantia de uma solução à esquerda? Se o PS não a mostrar, arrisca-se a perder votos para a abstenção ou para o PSD; se o PCP não se comprometer, arrisca-se a perder votos úteis para o PS. O BE parece que já percebeu.

Pois é agora o tempo para a maioria dos portugueses que acreditam mais em políticas de esquerda perceber se vamos continuar na mesma ou se o PS o BE e o PCP estão disponíveis para um acordo sério, apontando politicas concretas, devidamente ponderadas e orçamentadas; um protótipo bem planeado, a que sem chegue sem pressa nem reservas mentais, não mais uma “geringonça” improvisada pela inspiração de qualquer feirante.

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