rr.sapo.ptOpinião de Francisco Sarsfield Cabral - 14 jan. 06:18

Atirar a matar

Atirar a matar

O presidente do Cazaquistão ordenou às forças de segurança para “atirarem a matar” contra os manifestantes. Viktor Orbán, que na Hungria montou uma “democracia iliberal”, aplaudiu. Torna-se claro que o regime de Orbán pouco tem a ver com os valores europeus de respeito pelos direitos humanos.

O presidente do Cazaquistão acusou os milhares de manifestantes que provocaram o caos no seu país de serem “terroristas e criminosos”, treinados e comandados pelo estrangeiro. Pelo que se viu na televisão, havia ali manifestantes violentos, mas nada de muito diferente daquilo que aconteceu por exemplo, em França com as manifestações dos “coletes amarelos”.

A acusação de que os manifestantes estavam a soldo do estrangeiro é típica das ditaduras. Conhecemos essa reação em Portugal, antes do 25 de abril. E é a desculpa habitual de Putin para justificar uma repressão cada vez mais violenta na Rússia.

Putin e o aparelho repressivo que ele comanda não hesitam em assassinar no estrangeiro, por envenenamento nomeadamente, pessoas incómodas para o Kremlin. Para referir apenas um caso, lembremos que Navalny, o líder da oposição russa, foi envenenado na Alemanha. Felizmente conseguiu sobreviver; hoje está preso na Rússia.

A acusação de interferência estrangeira serviu também para o presidente do Cazaquistão ter ordenado às suas forças de segurança para “atirarem a matar”. O que em boa parte explica terem ali morrido mais de 160 pessoas. Ou se calhar muitas mais: a repressão contou com militares russos e de outros países da antiga órbita soviética. Mais de onze mil pessoas estão presas na Cazaquistão, sem direito a visitas nem a advogado; muitas poderão já ter morrido.

Mandar a polícia disparar sobre uma multidão de manifestantes é algo que seria inaceitável numa democracia. Por isso de muitas partes do mundo se levantaram protestos contra este uso excessivo da força.

Significativamente, do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, veio apoio à sangrenta repressão no Cazaquistão. Na Hungria desde há dez anos Viktor Orbán tem posto de pé o que ele próprio classifica de uma “democracia iliberal”. Viktor Orbán é próximo de Putin, pois são ambos políticos autoritários. E agora Orbán aplaude que se reprimam manifestações a tiro. Torna-se cada vez mais claro que o regime de Viktor Orbán pouco tem a ver com os valores europeus de respeito pelos direitos humanos.

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