jornaleconomico.sapo.ptAna Pina - 14 jan. 00:11

Inflação, estagflação, reflação e os dilemas que por aí vão

Inflação, estagflação, reflação e os dilemas que por aí vão

A economista Isabella Weber gerou polémica ao defender que a solução para a inflação exige o controlo de preços, em especial os da energia.

A gestão incerta da pandemia, entre euforia de rave party e apatia de divã do psicanalista, gerou uma subida generalizada dos preços dos bens e escassez de matérias-primas. De imediato, reacenderam-se os temores da escalada desenfreada da inflação e recomendou-se o aumento das taxas de juro. Como todo o remédio, esta medida só será eficaz se atacar o mal pela raiz. Mas o prazer que economistas de diferentes lados da barricada têm na contenda, tem distraído a atenção das suas causas ou de tentar resolvê-las.

As opiniões dividem-se entre considerar que a subida de preços é temporária, ou assumir que o seu crescimento será descontrolado, semelhante ao da década de 1970. A OCDE, Paul Krugman e alguns académicos estão entre os que consideram que a breve prazo a inflação se dissipará, não sendo necessária uma resposta dos bancos centrais. Já para os mais liberais, como John Cochrane, o estímulo Biden fez ressurgir a estagflação, justificando-se subir a taxa de juro, mesmo que implique contrair o produto.

Estagflação, uma fusão dos vocábulos inflação e estagnação, pressupõe desemprego elevado. As dificuldades que certos sectores estão a ter para encontrar mão de obra contrariam a ideia de que se atravessa um episódio de estagflação. Isabel Schnabel, membro da Comissão Executiva do BCE, chamou-lhe até reflação – inflação sem estagnação –, o preço a pagar pela recuperação. Ao adiar a subida das taxas de juro, o BCE tem demonstrado concordar com esta visão.

A última polémica na matéria foi gerada pela economista Isabella Weber, ao defender que os problemas na cadeia de distribuição foram aproveitados pelas empresas para aumentar os seus preços e lucros, pelo que a solução para a inflação exige o controlo de preços, em especial os da energia.

Mas foi James K. Galbraith que pôs o dedo na ferida ao atribuir o problema ao excesso de eficiência das empresas e da cadeia de abastecimento. A eficiência conduziu a uma gestão no limite, em que a menor perturbação se amplia, num efeito dominó. Nesta lógica, uma empresa adquire bens ou assume o seu transporte e armazenamento quando tem a garantia, a jusante, de que serão rapidamente escoados.

A logística requer movimento contínuo: estar parado tem custos. Apertadas nas suas margens, as empresas ou financiam as existências ou esperam pelo pagamento que virá do elo seguinte da cadeia, muitas vezes o consumidor final que, persuadido de que é o principal interessado, paga por antecipação. São exemplos disto sinalizar a reparação de um automóvel, fazer uma compra online ou comprar uma casa em planta. Em todos, o consumidor financia o negócio.

Ao parar a economia, a pandemia quebrou uma peça de uma engrenagem complexa. Os consumidores, cativos, dispostos a sinalizar, retomaram a procura, enquanto as empresas, receosas, respondem com uma oferta a conta-gotas, à espera de financiamento. O poder, como avançou Isabella Weber, ficou do lado das empresas. A inflação é disso sintoma. Corrigi-la, com medidas que condenam a economia, é como sedar um potro selvagem: poderá ser dominado, não domado. Por vezes, até para a economia, a paciência é a maior das virtudes.

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