observador.ptObservador - 14 jan. 00:17

Campanha eleitoral parola

Campanha eleitoral parola

Os nossos políticos fazem de conta que uma guerra às portas de países da União Europeia e da NATO, organizações de que Portugal faz parte, ou com a participação delas, não nos diz respeito.

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Claro que a abordagem da degradação do Serviço Nacional de Saúde, do aumento dos salários, das pensões, do preço dos combustíveis, da carga fiscal são muito importantes numa campanha eleitoral em Portugal, mas uma guerra entre as “distantes” Rússia e Ucrânia poderá pôr tudo a perder.

Por isso, esperava que esse tema fosse abordado em algum dos numerosos debates televisivos entre os dirigentes de vários partidos, mas enganei-me redondamente.

Isto tornou-se particularmente evidente no debate entre João Oliveira, representante do Partido Comunista Português, e Rui Rio, dirigente do PSD. Quando este último tentou abordar as posições assumidas pelo PCP face à União Europeia e à NATO ou falar de modelos de governo que os comunistas veneram: Coreia do Norte, Venezuela, Cuba, João Oliveira contra-atacou para dizer que estava ali para falar dos problemas do país.

Com isto não quero dizer que Rui Rio quisesse dedicar algum do seu tempo cronometrado à grave situação criada na fronteira entre a Rússia e a Ucrânia ou à profunda crise existente nas relações entre a Aliança Atlântica e Moscovo. Ele e outros dirigentes políticos nacionais não fazem isso simplesmente porque discutir os grandes temas internacionais, mesmo aqueles que já nos afectam ou podem vir a afectar no futuro, não dá votos.

Dediquei algum tempo à procura de uma palavra capaz de definir esta forma de estar na política e acho que “parola” é a que melhor a define; dizer que ela é “provinciana” será pouco.

Impasse perigoso na Europa

Não quero fomentar o pânico, mas as relações entre a Rússia, por um lado, e os Estados Unidos, NATO e União Europeia, entraram num terreno muito perigoso. A situação é tão grave que já se ouvem vozes na Finlândia e na Suécia, países que se mantiveram neutros durante a “guerra fria”, a falar da possibilidade da sua adesão à Aliança Atlântica.

No caso concreto da Finlândia, país que sempre evitou irritar o seu poderoso vizinho e até tirou grandes proveitos económicos da sua neutralidade, perdeu o receio e ameaçou aderir à NATO caso a Rússia invada a Ucrânia. Esta é a posição unânime do Presidente conversador Sauli Niinistö e da jovem primeira-ministra social-democrata Sanna Marim.

Isto deveria fazer pensar o Presidente russo, que conseguiu pôr todos os seus vizinhos ocidentais contra si, considerando que a culpa da deterioração das relações com o Ocidente é toda deste último.

Mas parece que esse momento não chegará. Dmitri Peskov, porta-voz de Vladimir Putin”, utilizou a palavra “fracasso” para caracterizar a primeira volta das conversações entre as partes, um sinal de que o Kremlin vai continuar a pressionar para conseguir os seus objectivos, principalmente no que respeita ao não alargamento da NATO a países como Ucrânia, Geórgia e Moldávia e à instalação de infraestruturas e armamentos da Aliança Atlântica junto das fronteiras russas.

Segundo Serguei Lavrov, ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, os Estados Unidos prometeram apresentar uma resposta por escrito ao ultimato de Putin na próxima semana, mas é praticamente certo que ela não agradará a Moscovo. Já foi prometido por ambas as partes continuar o diálogo, mas até quando? O Kremlin quer resultados rápidos, o que dificulta ainda mais as coisas.

Entretanto, continuam as acusações mútuas de instalação de tropas e armamentos nas zonas fronteiriças. Os separatistas pró-russos de Donetsk e Lugansk falam de armamento pesado. Nesta situação, qualquer atrito ou provocação poderá gerar um conflito armado de grandes dimensões.

É difícil compreender a razão e as vantagens que poderão levar Putin a envolver-se num confronto militar com a Ucrânia, mas ele colocou a fasquia tão alto que é difícil vislumbrar qual a solução para este grave problema. Talvez ela passe mesmo pelo “Quarteto da Normandia” (França, Alemanha, Rússia e Ucrânia) e pelos Acordos de Minsk? Aqui há uma unanimidade quanto ao conteúdo do citado documento, havendo diverg��ncias na sequência da sua realização. Kiev quer reaver primeiro o controlo da fronteira russo-ucraniana nas regiões separatistas e só depois definir o estatuto desses territórios, mas os separatistas (leia-se, Putin) defendem o contrário.

Em Agosto de 2008, Vladimir Putin, então primeiro-ministro da Rússia, encontrava-se a assistir à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim quando deu ordem às suas tropas para invadir a Geórgia. Dentro de três semanas, ele estará na capital chinesa para assistir à abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno… Não sou supersticioso, mas…

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