eco.sapo.ptRicardo Pinheiro Alves - 26 nov. 12:00

“Crisis? What Crisis?”

“Crisis? What Crisis?”

O chumbo do orçamento para 2022 que levou à queda do governo socialista pode ter sido um momento de esperança e uma bênção para o país.

O chumbo do orçamento para 2022 levou à queda do governo socialista. Que horror, há uma crise! Mas qual crise? O discurso que se seguiu ao “chumbo” foi o da chegada do apocalipse: como é que o país vai continuar sem um orçamento aprovado? Como vai ser o nosso futuro sem um governo que nos lidere? Agora que vem o “dinheirinho” de Bruxelas, quem é que nos vai dizer como e onde gastá-lo?

Ao contrário do que a comunicação social veicula, estas questões são enganadoras. A questão que interessa face ao atraso na aprovação do orçamento e à realização de eleições é esta: A ausência de um governo em plenas funções é má para os países e para as economias?

A resposta depende sempre de qual é a alternativa. Um preconceito que é habitual é que se não há orçamento nem governo, não podem ser tomadas decisões e, por causa disso, o país não se desenvolve. Mas isto não é verdade. A falta de orçamento e de governo não impede as empresas de tomarem decisões, excepto, talvez, as que vivem à custa de subsídios e de negócios com o Estado. E no Estado, a impossibilidade de decidir só é prejudicial se as decisões que o governo tomaria fossem favoráveis e não impedissem as sociedades de se desenvolver. O preconceito é que se assume que as decisões seriam sempre benéficas, mas a realidade demonstra que frequentemente acontece o oposto.

O caso de Portugal é uma das provas mais evidentes da falsidade dos efeitos negativos da ausência de orçamento e de governo. O país está há 20 anos em estagnação económica apesar de a maioria dos governos ter cumprido a legislatura de 4 anos. Isto só por si indica que não foi a falta de orçamentos e de decisões dos governos que impediu o desenvolvimento do país.

Há outros exemplos que demonstram como falsa a ideia de que a ausência de governo é nefasta para o desenvolvimento. A Bélgica esteve mais de um ano e meio, em 2010 e 2011, sem governo. O que aconteceu? Aconteceram, com certeza, várias coisas, mas não consta que o país tenha entrado em convulsão ou em colapso pelo facto de não ter governo. Aliás, não deixa de ser caricato que a cidade que pretende ser a “capital” da União (Europeia) seja a razão para a falta de governo e para a desunião entre os belgas.

Se pensarmos apenas em termos económicos, a economia belga cresceu a uma média de 2,3% ao ano em 2010 e 2011, o que não foi uma taxa de crescimento extraordinária, mas foi significativamente superior ao período que antecedeu e ao que sucedeu a estes dois anos.

Outros exemplos incluem a Alemanha, que geralmente está vários meses a negociar coligações até se formar um governo e o país não colapsa por causa disso. Possivelmente, ainda funciona melhor. Ou Espanha, que esteve entre 2016 e 2019 continuamente com instabilidade governativa, com executivos minoritários sempre em risco de “caírem” e de haver novas eleições. No entanto, a taxa média de crescimento económico ao longo do período foi 2,6%. Ou ainda Itália, em que já houve 67 governos desde o final da Segunda-Guerra mundial, o que dá uma média de duração pouco superior a 1 ano. Mas isso não impediu o país de se desenvolver, mesmo considerando a crise que atravessa desde o início do milénio, período no qual os governos se tornaram mais duradouros.

Porque é que isto acontece em todos os países: Porque sempre que isso é possível, a vida das pessoas não está dependente de balbúrdias governativas. O problema é quando essa balbúrdia se impõe e prejudica os nossos negócios (no sentido da negação do ócio).

Todas aquelas taxas de crescimento e todos os sinais de desenvolvimento que vêm daqueles países são uma maravilha quando comparadas com a mediocridade da economia portuguesa. Qualquer deles foi muito superior à média de 0,25% a que Portugal cresceu nos últimos 20 anos, a maioria do tempo sob a “estabilidade-estagnação” socialista, que nos últimos anos foi apadrinhada por um dos mentores da “teoria” dos benefícios da “estabilidade-estagnação”, Marcelo Rebelo de Sousa, e pelo seu delfim, Rui Rio.

Por estas razões é fácil de perceber que as perguntas iniciais não sinalizam o risco de Portugal não se desenvolver, mas são próprias de um país que está “doente”, que vive limitado e não consegue aproveitar todas as suas potencialidades. Um país que está habituado a viver à sombra dos outros, que prefere a dependência na ociosidade sobre a independência e a autonomia com responsabilidade.

Um país “mole”, que se deixa enganar em tudo, que bate palmas à obrigatoriedade de usar máscara na rua imposta por qualquer charlatão sem questionar se faz algum sentido, que se deixa manipular diariamente por uma imprensa vendida à ideologia, e que esconde a realidade, como a que se passa nas nossas escolas (ler aqui), ou se recusa a usar a palavra “ciganos” quando alguns desta etnia roubam e desrespeitam sistematicamente a lei.

Um país que aceita acriticamente as lavagens cerebrais que a esquerda radical conseguiu impor em Portugal e que levaram à aprovação recente da eutanásia sem qualquer discussão pública e num momento em que os mesmo que a aprovaram bradavam contra a crise governativa que traria a desgraça, ou que levam à doutrinação das nossas crianças no mais completo desrespeito pela lei e pela autonomia das famílias (como escrevi aqui).

É por todas estas razões que Portugal está em crise há duas décadas. Por isso, o chumbo do orçamento para 2022 que levou à queda do governo socialista pode ter sido um momento de esperança e uma bênção para o país. Em Janeiro começaremos a descobrir se assim foi.

NewsItem [
pubDate=2021-11-26 12:00:20.0
, url=https://eco.sapo.pt/opiniao/crisis-what-crisis/
, host=eco.sapo.pt
, wordCount=937
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_11_26_94955655_-crisis-what-crisis-
, topics=[opinião]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]