visao.sapo.ptapfigueiredo - 26 nov. 08:30

Visão | Morrer de raça (2)

Visão | Morrer de raça (2)

Sabíamos que o mundo era grande, mas estávamos longe de pensar que houvesse uma tal variedade de raças

Olhamos e voltamos a olhar para o nosso ex-conterrâneo, Xavier Anaishe, os seus dois filhos e todos os estrangeiros. E uma coisa parecia certa: aquela gente não vinha à sua terra natal para matar saudade. Nem a sua delegação nos vinha visitar. Os poucos que antes aqui chegaram à nossa aldeia tinham os olhos doentes: olharam-nos e não viram ninguém. Estes que acabavam de chegar tinham olhos de águia: ciscavam a terra em busca de uma presa. Quando o silêncio se tornou demasiado pesado, o nosso tio dirigiu-se com modos secos ao Xavier:

– Porque trouxeste esta gente à sua aldeia paterna?

– Materna – emendou com delicadeza um vizinho.

– Não me interrompa, cunhado – reclamou o nosso tio. Na nossa aldeia, os homens casados chamam-se de cunhados e, assim, todas as esposas se tornam irmãs. O tio recompôs-se para, de novo, se dirigir ao Xavier:

– Estamos à espera de que fales.  

– Não tenho que te dar satisfações – resmungou Xavier.

– Mas há uma coisa que deves explicar: que nome é esse que deste à tua filha? Anodia Anaishe?!!!

– É um nome shona, quero que ela seja autenticamente shona – argumentou o visitante.

– Pois agora na nossa aldeia – retorquiu o nosso tio – todos temos o nome arraçado de português. É assim que somos autênticos nos dias de hoje.

Na nossa terra, ninguém nasce dono da sua boca. Aprendemos a escutar com o devido cuidado: todos trazem recados de alguém. Xavier Anaishe conhecia essas suspeitas e sabia como nascem espinhos no silêncio. Não perdeu mais tempo. Estendeu o braço em direção ao mais encasacado dos visitantes e anunciou: – Apresento-vos o doutor Martinez. Ele é o boss dos bosses.

Cumprimentámos o doutor Martinez e ficámos à espera de que o Xavier apresentasse os restantes membros da delegação. Cada um deles tinha a sua nacionalidade, a sua língua, a sua cor de pele. . Mais perto, porém, via-se que os recém-chegados eram todos parecidos, todos murungos, todos vientes. Desta vez, o cego Muoni tinha-se enganado. Nenhum daqueles homens era um munu mutema, a raça da nossa aldeia.

Foi então que os estrangeiros estenderam um grande mapa sobre o capim. Quando se colocaram de pé em redor do mapa, eu tive uma visão: o que cobria o chão não era um papel. Era um lençol. Repetiam o que se faz com os mortos que são tapados para que não se saiba que há, neste mundo, corpos sem vida. Pela primeira vez, olhei o chão e senti que ele era uma criatura mortal.

Faz parte da nossa cortesia saudar, um por um, aqueles que nos visitam. Um estranho torna-se da nossa família depois de o seu nome tocar os nossos lábios. A boca é a porta da casa, diz o provérbio. O chefe dos estrangeiros não teve esse cuidado. Começou a falar como se todos fôssemos indistintos. Chamou-nos de “comunidade local”. Ninguém sabia que essa expressão, comunidade local, era o novo nome da nossa aldeia. E era o nome de todas as aldeias do mundo. “Comunidade local” é o nome de todas as pessoas sem nome.

O doutor Martinez começou por perguntar como se chamava o nosso rio.

– Chama-se “Mvura Wa Nhiymba” – respondemos.

E traduzimos o nome para português: “a chuva que engravida.” Não é chuva, é a água – emendou o meu pai. Aquele reparo não tinha sentido. Na nossa língua, chuva e água dizem-se com a mesma palavra.  De qualquer forma, aquele era o nome do nosso rio, que, de quando em quando, galgava as margens e afogava os bichos e as árvores.

Depois, o chefe da delegação estendeu um lenço no chão e ajoelhou-se como se fosse rezar. Ainda pensámos: afinal, o estrangeiro é um homem respeitador, não falou connosco, mas está a dirigir-se aos nossos falecidos. Em silêncio, escutámos a sua longa oração numa língua que ninguém entendia. Dava medo porque parecia que ele conhecia o idioma da água e estava a conversar com o rio. Afinal, apenas estava a falar para um microfone que trazia pendurado no pescoço. O nosso tio disse em voz alta, como se fôssemos pouco civilizados: – o tipo está a fotografar a sua própria voz. Mas depois, falando na nossa língua, o tio deu-me ordem: tu que tens telemóvel, grava tudo o que eles disserem.

A seguir, o fulano despiu o casaco, retirou o relógio do pulso, arregaçou a manga da camisa e mergulhou o braço muito branco no rio. Senti-me envergonhado: nestes dias, as águas andavam tão turvas que o braço do estrangeiro desapareceu naquele ventre escuro. Sustivemos a respiração com medo de que o homem fosse devorado por invisíveis criaturas. Os outros membros da delegação fizeram circular, então, uns copos de plástico, e com eles o doutor foi recolhendo a água da superfície. Interrompi-os antes que os homens se servissem:

– Se estiverem com sede, meus senhores, damos-vos da nossa água que é tirada do poço, que é mais limpa e menos contagiosa. 

Os estrangeiros, contudo, não queriam beber. O que passavam de mão em mão não eram copos. Eram frascos para recolher amostras. Fecharam-nos e colaram um rótulo em cada um deles.

– Queremos saber o que estão a levar nesses copos – declarou o nosso tio.

– São amostras – disse o boss.

– Quem vos deu licença? – perguntou o tio.

– As autoridades competentes – disse Xavier, exibindo um papel. – Convençam-se de uma coisa, basta vir o despacho e este rio pertence-me – prosseguiu ele. – Como será minha também aquela montanha.

– Fale mais baixo, não vai querer que os mortos o escutem – avisou o meu pai.

– Comprámos a montanha junto com o rio – declarou o filho de Xavier, intrometendo-se na conversa. Passou a mão pelos cabelos lisos de azeviche e declarou num tom mais conciliatório: – Vocês também vão ganhar, esta é uma relação win-win.

– Win-win? – perguntou o nosso tio – Então, sobrinho, você agora está a falar chinês connosco?

O boss Martinez fixou o relógio e sacudiu a cabeça. Eu já sabia: olhar um relógio pode ser um modo de mostrar quem é o dono do tempo. Suspirando fundo, o estrangeiro pediu que nos sentássemos debaixo de uma grande árvore. Estendeu o pescoço para enfrentar o céu, abriu os braços como se abraçasse toda a vasta sombra. Começou, então, um longo discurso: em todas as operações comerciais vocês serão nossos sócios. Um bom exemplo é este vosso amigo, o Xavier, que participa como sócio minoritário. Desta forma, temos o conteúdo local que nos pedem os financiadores. Com a vossa inclusão, vocês, comunidade local, darão mais robustez ao componente indígena do projeto. Um processo inclusivo, transparente como esta água, bom, esta água não é exemplo… Se não quiserem sair, não serão obrigados, mas eu pergunto: querem ficar assim como estão? Quantas horas demorei a chegar aqui? Dez. Onde está o hospital, onde está a escola para os vossos filhos? Onde está a estrada para a ambulância vir buscar as mulheres grávidas? Eu venho oferecer-vos o futuro em troca de nada, porque isto aqui não é senão um deserto.

– Se isto é assim tão nada, porque está tão interessado? – perguntou o nosso tio.

– É que vocês estão sentados em cima de dinheiro. Não entendem? Vocês podem ser ricos.

– Nós não queremos ser ricos – argumentou o tio. – Não queremos é não ser pobres.

– Pois aí é que está a diferença – declarou Martinez com convicção. – A gente fica rico espreitando o que está dentro do nada. Veja o caso do dinheiro: o maior peso está nos zeros. Foi assim que enriqueci, meus amigos: contando zeros.

Foi então que o nosso tio começou aos gritos. E mandou embora os intrusos, falando apenas em shona. Empurrou com raiva o Xavier Anaishe para junto das viaturas. Os visitantes que fossem e esquecessem o caminho do regresso. Foram estas as derradeiras palavras do nosso tio:

– Tu voltaste outra pessoa, Xavier, tens o mesmo nome, a mesma carne, os mesmos ossos do teu pai, a mesma raça da tua mãe. Mas já não tens os mesmos mortos de quando saíste daqui. Por isso, não voltes nunca mais.

De ombros derreados, os meus familiares ficaram observando os carros a serem engolidos pela poeira da estrada. O arco das suas costas contrariava o tom vitorioso das palavras do nosso tio. Afinal, sabíamos todos porque odiávamos tanto o Xavier. Porque nós, no lugar dele, teríamos feito exatamente o mesmo que ele fez.

(Crónica publicada na VISÃO 1499 de 25 de novembro)

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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