www.publico.ptpublico@publico.pt - 26 nov. 09:12

Crónica universitária

Crónica universitária

Pago 697 euros de propinas anualmente para, na maioria das vezes, ter de aprender a matéria toda por mim própria. Tenho tido a sorte de conseguir bons resultados, mas para aprender coisas sozinha não tinha ido para a universidade.

Chegou aquela altura do semestre em que todos queremos congelar a matrícula, ou até desistir de tudo. Todos os nossos queridos professores se lembraram de marcar tudo para a mesma altura porque, sim, não há mais semanas no resto de semestre. Os alunos que arranjem maneira de fazer dois testes no mesmo dia. Depois, o professor que demore quase dois meses a lançar as notas.

Somos os reis da procrastinação, mas também gostávamos de ter mais atenção da parte dos nossos superiores. Andamos todos com os neurónios nas últimas, a pesquisar no Google como passar com 20 valores sem estudar e sem ir às aulas, mas às vezes temos a sorte de ver aparecer uma luz ao fundo do túnel e lá um querido colega nos dá resumos. Levamos dias a estudar, dias que no final de contas não nos servem de nada, basta termos um professor que não gosta assim tanto de nós e que nos chumba só porque sim, porque a realidade é que este tipo de situação ainda acontece.

Sejamos honestos, o nosso sistema de ensino superior está cheio de falhas e cheio de pessoas que não se interessam pelo bem-estar dos alunos, nem se nós aprendemos a matéria ou não. Sim, porque a maior parte das aulas não vale as propinas que pagamos, vamos às aulas para estarmos a ouvir histórias pessoais dos professores ou, como já me aconteceu, vamos às aulas para ouvir a música preferida dos meus colegas.

A realidade de quem está na universidade é chegar a esta altura de semestre e chorar dia sim, dia sim, fingir que não há nada para estudar nem trabalhos por entregar porque é simplesmente mais fácil e menos doloroso do que estar a olhar para slides de matéria (quando os há) e nem entendermos o que está lá. E atenção que a culpa de isto acontecer não é só nossa porque, ao contrário do que se acha, as taxas de reprovação nas unidades curriculares têm culpa de ambos os lados, não são os alunos que são preguiçosos e não se esforçam. Tem de haver esforço dos dois lados. 

Devo soar como uma aluna que só sabe reclamar, mas tenho a certeza que não sou a única universitária que se sente e vê as coisas assim. Todos já chorámos porque a universidade é dura e difícil e às vezes exige demasiado da nossa saúde mental. A verdade é que nem todos conseguimos limpar as lágrimas, respirar fundo e continuar, e quando simplesmente não conseguimos mais não há apoio nem compaixão de ninguém, somos só considerados uns falhados, quando o que realmente falha é o sistema de ensino.

Já me sinto realmente cansada, talvez seja um acumular de três anos de licenciatura onde sinto que apenas tive quatro professores que realmente fizeram um esforço para que nós aprendêssemos o que é suposto e se preocuparam com o nosso bem-estar e tiveram a coragem de nos ouvir quando necessitámos.

Este é o último semestre que farei na minha universidade porque vou de Erasmus, e não podia estar mais feliz porque estou simplesmente cansada de estudar num sítio onde sou ignorada pelos professores quando aponto algo de errado, estou cansada de estar numa universidade onde não posso dar uma opinião contrária à de um professor sem depois ser prejudicada na minha avaliação e, atenção, é ter opinião diferente, não é ser mal-educada.

Custa estar a menos de um ano de entrar para o mercado de trabalho, ou de ingressar para um mestrado, e sentir que não aprendi o que era suposto, e não é por falta de esforço, nós sentimos é que não nos estão a ser dadas as competências que um dia iremos necessitar.

No final de contas, reclamamos de tudo isto no grupo de turma, pedimos desesperadamente ajuda uns aos outros quando as frequências se aproximam e depois é um ciclo de semestre para semestre. Continuamos a ver os tutoriais do YouTube e uns artigos que vamos conseguindo encontrar, e infelizmente sentimos que faltar à aula x para estudar para a frequência da disciplina y realmente valeu a pena porque conseguimos um 18. É igual em todos os semestres, e de vez em quando lá voltamos a ter aquela professora que é muito querida e temos finalmente uma disciplina a que ninguém tem vontade de faltar. Só já pensamos no diploma que desesperadamente queremos (e que é caro e demora a chegar).

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