rr.sapo.ptOpinião de Henrique Raposo - 26 nov. 06:55

Deus não é Príamo

Deus não é Príamo

Toda a informação nacional e internacional. Música, programas, vídeos e podcasts. Na rádio, no digital, em movimento. Renascença, a par com o mundo.

Na minha conversão, há um elemento-chave que, apesar de ser fundamental, é muito difícil de transpor para palavras. Em exercícios espirituais com os jesuítas, já senti esta emoção como se fosse uma coisa material tão palpável como este ecrã; já me comovi sozinho só a pensar sobre esse ponto: a tremenda humildade de Deus. Apesar de ser o criador, Deus é modesto e pratica a renúncia. Deus renuncia. Aquilo que nos é pedido nas Escrituras, a renúncia (temos de renunciar a prazeres e ambições em nome dos outros) é cumprido desde o início por Deus. Ele lidera pelo exemplo. Apesar de invisível, está na frente de combate, qual Alexandre impalpável e omnipresente.

Como diz CS Lewis no “The Problema with Pain”, Deus cria cada pessoa como uma peça única e cada um de nós tem a liberdade para recusar Deus. Deus cria a criatura, eu ou você, caro leitor, e dá a essa criatura a possibilidade de negar o criador. Só há liberdade humana neste pressuposto: o pressuposto de que podemos negar Deus. Ele não nos criou para sermos servos acríticos e geneticamente impossibilitados de negar Deus, não. Ele não nos criou como robôs incapazes de negar o dono. É esta a dimensão do seu imenso amor por nós: criou-nos livres e, por isso, Ele submete-se, desde o início, à possibilidade de ser negado pelas suas criaturas. Pensar e comover-me com esta humildade foi um passo fundamental na minha conversão já tardia. Deus não é um tirano, é um pai e, como tal, está por inerência sujeito à rebeldia do filho. É por isso que Deus não é o deus de “Watchmen”, de que falei aqui há uns tempos: não cria seguidores acríticos, mas sim filhos potencialmente rebeldes. A humildade de Deus prossegue na ética da manjedoura. Então o filho de Deus vai nascer no local mais sujo e pobre? Então o filho de Deus não nasce como herdeiro de um império? Então o filho do Criador nasce na província esquecida e desprezada junto de pastores e enquanto ‘filho’ de gente humilde? A humildade de Deus no nascimento de Jesus só é superada pela humildade de Deus na morte de Jesus. Ele não impede a morte do filho e deixa-o ficar na cruz. Deus não é da nossa escala, faz estas coisas inverosímeis mas certas. Na ‘Ilíada’, Príamo exige amortalhar o seu filho, Heitor. Só que Deus, Ele, não é Príamo. É Deus. Esta humildade, o pilar do mundo, foi retratada de forma belíssima por Charles Péguy mesmo no final de “Os Portais do Mistério da Segunda Virtude” (Paulinas): “Todo o homem tem o direito a amortalhar o seu filho todo o homem à face da terra. Se tiver a grande infelicidade de não ter morrido primeiro. E só Eu, Eu, Deus, com os braços atados por esta aventura, Só Eu nesse minuto, pai como tantos pais, Só Eu não podia amortalhar o meu Filho”. Ainda bem que Deus não é Príamo.
NewsItem [
pubDate=2021-11-26 06:55:44.0
, url=https://rr.sapo.pt/artigo/henrique-raposo/2021/11/26/deus-nao-e-priamo/262184/
, host=rr.sapo.pt
, wordCount=494
, contentCount=1
, socialActionCount=0
, slug=2021_11_26_56507553_deus-nao-e-priamo
, topics=[opinião, henrique raposo]
, sections=[opiniao]
, score=0.000000]