observador.ptObservador - 26 nov. 07:03

Temos de nos dividir e escolher

Temos de nos dividir e escolher

É preciso que as eleições sejam de divisão e de escolha. Temos atrás de nós vinte anos de estagnação e crise e teremos outros tantos à frente se deixarmos funcionar a máquina de manter tudo na mesma.

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Os confinamentos sanitários de 2020 e deste ano tiveram custos terríveis para a economia, a educação e a saúde. Mas o confinamento ideológico em que o PS mantem o país desde 2015 não teve menos. Uma sondagem do ICS-ISCTE sobre as expectativas dos portugueses dá ideia dos estragos:  77% não espera ver a economia portuguesa convergir com as economias mais ricas, e 42% acredita até que vai divergir; 75% também não espera que os serviços públicos melhorem, e 37% acha mesmo que vão piorar.

Como é que, assim, se pode pensar que tudo vai ficar na mesma depois das eleições de Janeiro? A oligarquia socialista tem um truque básico: pôr simplesmente a correr que tudo vai ficar na mesma. Não é disparatado: para que não haja mudanças, basta por vezes que ninguém acredite que as mudanças sejam possíveis. Daí a utilidade, para os socialistas, do tipo de debate pré-eleitoral que estamos a ter. A ideia de que, contados os votos, por uma razão ou outra, todos vão ter de se entender com o PS, é uma boa maneira de prevenir qualquer dinâmica eleitoral de alternância. Eis o PS, por isso, e após quatro anos a ignorar Rui Rio, de mão estendida à direita. Para quê? Para desacreditar o PSD como alternativa, ao sugerir que acordos são possíveis, desejados ou mesmo inevitáveis. A conversa sobre “a morte do CDS” serve o mesmo fim, ao dificultar uma coligação PSD-CDS, e a demonização do Chega também, ao sugerir que PSD e CDS estão condenados a ficar na situação que Costa recusou em 2015, de não poderem explorar todos os meios para serem governo.

É verdade, à direita não falta quem ajude. Rui Rio, ao misturar reformas estruturais com revisões constitucionais e mudanças do sistema político, tem contribuído para a ideia de que nada se pode fazer sem o PS. A facção derrotada no último congresso do CDS vai montar uma campanha eleitoral paralela contra o voto no partido. André Ventura ainda não resolveu se quer tirar a esquerda do poder, ou apenas dizer coisas para a deixar indignada, mas no governo.

Não, não é com o PS que se fazem reformas. Leiam As Reformas da Década, de Cavaco Silva. Fala de treze reformas estruturais feitas entre 1986 e 1995. Foram coisas básicas, como a liberalização da comunicação social ou a abertura de sectores à iniciativa privada, sem as quais Portugal seria hoje um museu. O PS votou contra 70% dessas leis. Por vontade do PS, a única televisão seria a RTP, talvez ainda a preto e branco. Fazer depender reformas do PS é não querer fazer reformas nenhumas.

Sim, uma coligação reformista entre PSD e CDS, à maneira da Aliança Democrática, seria provavelmente a melhor maneira de mobilizar a direita, não só pelo que toda a gente já sabe sobre o “voto útil” e o sistema de Hondt, mas pela garantia de que não haveria depois entendimentos com o PS. O PS não quer que haja escolhas nas próximas eleições. Só assim as pode esperar ganhar. À oposição, interessa pelo contrário que as eleições sejam vistas como a opção entre duas maiorias, dois governos, duas visões do país, dois caminhos para a sociedade e para a economia. Só desse modo poderá interessar cidadãos que até agora se têm abstido ou dispersado. A pressão para que não seja assim vai ser enorme. Falar-se-á da urgência de haver orçamento e de gastar o PRR. Não há, porém, maior urgência do que tirar do poder o partido que criou o estado de espírito registado na sondagem que citei ao princípio. É preciso que as próximas eleições sejam de divisão e de escolha. Temos atrás de nós vinte anos de estagnação e de crise, e teremos outros tantos à frente se deixarmos funcionar a máquina de manter tudo na mesma.

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