observador.ptobservador.pt - 26 nov. 07:42

“A minha terra dos sonhos cheira a chocolate”: o que o teatro tem para ensinar às crianças

“A minha terra dos sonhos cheira a chocolate”: o que o teatro tem para ensinar às crianças

“Quem Vai ao Mar” é mais uma encenação do programa Boca Aberta, do Teatro Nacional D. Maria II, a partir de sábado, dia 27: "É preciso ter tempo para contar uma história, é uma questão de educação".

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Têm entre os três e os seis anos de idade. Chegam ao teatro pela mão do projeto Boca Aberta, há seis anos, a partir do Teatro Nacional D. Maria II, a aproximar crianças de processos artísticos capazes de desenvolver nelas novos raciocínios. Estão à vontade. Riem, espreguiçam-se, comentam o que se passa em cena, falam para as personagens e confrontam-se com outras realidades, todas as realidades. Nestas idades, real e imaginário são uma e a mesma coisa. Quanto mais estimuladas estas crianças estiverem para criar, mais competências poderão adquirir.

À sua frente, a Joana e a Capitana viajam em alto mar. Vão à procura da terra dos nossos sonhos, que, por acaso, é no Panamá e cheira a camarão de uma ponta à outra. A bordo de um barco feito de cabides, defrontam uma tempestade e um pirata, salvam um patinho de borracha e regressam a casa. As peripécias não são complicadas e as crianças seguem a narrativa com atenção. Concentradas, deixam a imaginação ver ondas e relâmpagos invisíveis, sentem os pingos da chuva e o cheiro dos bichos que não existem. No fim, têm a sua opinião formada: “A minha terra dos sonhos cheira a chocolate”.

“Só assim vão perceber que há lógicas diferentes das que o raciocínio cartesiano nos impõe. Regras com as quais podem interpretar o mundo de forma mais abertas e capazes de lhes dar uma formação humana. Essa inteligência é crucial para o desenvolvimento da criança”, explica Madalena Victorino, ex-diretora do Centro de Pedagogia e Animação do Centro Cultural de Belém, coreógrafa e educadora. “É fundamental que, desde tenra idade, experimentem esse mundo imaginário poliédrico, de diferentes prismas, de formas muito mais facetadas, com mais de uma dimensão para que essa abertura do raciocínio aconteça. Falo de uma inteligência divergente, que desmultiplica e faz com que se torne importante a relação com o outro que é diferente de nós. Perceber que a diferença é uma riqueza e que se formos todos iguais tudo fica monótono”, continua Madalena Victorino. “É preciso combater essa visão do mundo mais fechada, mais quadrada, assente em paradigmas que estão espelhados na comunicação social, nos media e na publicidade. Se não houver um contraponto, é difícil evoluirmos numa sociedade como a nossa em que o nível cultural ainda é tão baixo.”

Catarina Requeijo, encenadora do Boca Aberta e desta “Quem Vai ao Mar”, em cena a 27 de novembro, 4 de dezembro e de 8 a 22 de janeiro, no Salão Nobre do TNDMII, põe a questão de outra forma: “Perguntamos porque é que é importante dar teatro às crianças, mas não perguntamos porque é que temos que lhes dar a fazer exercícios matemáticos. Se com a matemática elas vão desenvolver um raciocínio específico, com o teatro acontece exatamente a mesma coisa, não estamos é habituados a pôr as coisas em pé de igualdade”. No teatro, nas artes plásticas, na dança, em todas as disciplinas artísticas o princípio é o mesmo. É outro tipo de raciocínio, ao qual normalmente damos menos valor. “Vivemos agarrados aos estereótipos do vamos ver se tem boas notas a matemática, e ninguém se preocupa se é bom a educação física. Isso ainda temos que mudar e trata-se de uma questão de educação, não podemos cair na armadilha”, lembra a encenadora.

“As crianças que participam artisticamente são empoderadas”

Há outro estereótipo ainda que associa o teatro dito para a infância a determinados elementos. Tem que ser dinâmico, com muita luz, muita cor, muita ação, e muito ritmo. “Às vezes gosto de trabalhar no oposto disso. Fazer espetáculos que não têm qualquer som, que não têm nada de colorido, nem nada extravagante. Isto porque acho que nunca vamos conseguir ir atrás do ritmo deles. Esta geração tem um ritmo frenético, está exposta a imensos estímulos, portanto, num espetáculo nunca vamos conseguir o ritmo ou provocar a adrenalina de um jogo de Playstation, num computador ou num tablet. Às vezes é o contrário, temos é que ir buscar o tempo de contar uma história”, avança Catarina Requeijo. “Já tivemos espetáculos com muito silêncio. Fizemos há uns anos um espetáculo sobre a morte. Os de três anos não percebiam que aquela personagem morria, os de seis percebiam claramente, os de cinco achavam que tinha desaparecido. A personagem era um escaravelho e na altura em que deixava de falar, todos sabiam que alguma coisa de muito grave tinha acontecido, e havia um silêncio enorme. As crianças compreendiam esse silêncio muito bem, sem ninguém a chorar, sem ser preciso ilustrar o que estava acontecer”, conta.

“O saber artístico traz outra filosofia de vida”, diz Madalena Victorino. “Mais flexível, mais tolerante, mais criativa, mais emocionante. É por isso que em zonas de guerra ou em momentos de grande dificuldade, as artes salvam.” As artes, garante a coreógrafa, agora sediada em Odemira, são um valor acrescentado, atravessam todas os outros saberes e enriquecem. Mais, “as crianças que participam artisticamente são empoderadas desse valor que é a posição artística, um posicionamento aberto, curioso. E a curiosidade não é suficientemente ensinada nas escolas. Trata-se de um mecanismo do nosso cérebro que tem a ver com a motivação de descobrir o que não se conhece e com o entusiamo do saber”.

Exatamente a motivação de Ana, a Capitana desta peça de teatro a que assistimos na Escola Josefa de Óbidos, ao lado dos meninos da sala da Mila, da Ressano Garcia. Ela, a Capitana, tem o desejo da aventura, da descoberta e do novo, gosta de avançar para conhecer. E o seu feitio é o contrário do de Joana, a sua melhor amiga, que a acompanha na viagem em alto mar, mas que prefere não sair da sua zona de conforto. Esta dualidade de temperamentos suscita a aproximação maior ou menor a cada personagem, e as questões que se colocam a cada uma destas personagens pelas crianças são aquilo que lhes dá oportunidade de se “empoderarem”, como frisa Madalena Victorino, “de coisas que sejam objeto do seu discurso, de ter opiniões, de defender ideias”. No fundo, de escolher a que cheira a terra dos nossos sonhos. Isto, é o pensamento criativo.

Os professores, considera ainda a coreógrafa e educadora, não devem dizer apenas como é, devem, antes, perguntar como será e nessas hipóteses inscreverem o que têm de ensinar. “Não há verdades absolutas. O ato filosófico de perguntar é essencial. Das perguntas nasce a discussão, nasce a análise e nasce a crítica.” As matérias puras e duras podem não ser assimiladas por todas as crianças, algumas podem não chegar lá com a abordagem clássica, “mas se forem dançar a matemática podem chegar mais facilmente ao saber”. Há oito anos a trabalhar no projeto Miragem, uma iniciativa da Câmara Municipal de Odemira, Madalena Victorino vai às escolas perguntar aos professores que matérias têm mais dificuldade em ensinar. À medida que eles vão dizendo o que é, a coreógrafa vai tentando encontrar experiências e laboratórios que vão ao encontro dessas zonas mais obscuras. Os resultados que tem tido, diz, “são excelentes”. “Há três palavras fundamentais: fazer, criar, apreciar.” Um processo que implica uma crítica, uma análise e um discurso. “É a capacidade de dizermos o que fizemos e porque fizemos.”

A importância de respeitar as idades

Em “Quem Vai ao Mar”, as personagens falam de um pirata de cuecas e todas as crianças riem. “Pensamos que sabemos como elas reagem, mas não sabemos o que estão de facto a sentir. Eu também não sei. No entanto, tanto tempo a insistir nesta faixa etária, ajuda a prever ou antever algumas coisas. Sei que há coisas que as vão fazer rir, tenho a certeza. E sei também que há coisas das quais elas vão ter medo. É neste conhecimento/desconhecimento que se vai construindo o espetáculo”, relata Catarina Requeijo. “Porém, temos que ter cuidado para não tornar esta experiência que devia ser boa numa experiência negativa. Se há uma criança que está com muito medo do espetáculo, a sua educadora ou o seu pai, ou a sua mãe, ou a sua avó, quem estiver com ela, deve perceber que é altura de sair e voltar dali a um mês ou dois para que corra de outra maneira”, continua a encenadora.

É muito importante respeitar as idades. “Se o espetáculo é dos três aos seis anos, não vale a pena tentarem vir com crianças de dois anos porque acham que estão muito desenvolvidas. Os nossos filhos são sempre muito desenvolvidos, mas às vezes é só para nós, pois têm o grau de desenvolvimento que corresponde à sua idade. Não é por não querermos cá as crianças mais pequenas, é porque de facto pode não ser nada interessante e até ser contraproducente”, explica ainda Catarina.

Todos os anos há dois espetáculos. Um é um espetáculo todo-o-terreno, vai às escolas e é apresentado ou no ginásio, ou no refeitório, ou na biblioteca ou numa sala de aula; o outro é realizado no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria II. “Começámos com dez, doze jardins de infância, em 2015, e estamos com cerca de 80 hoje em dia. Oitenta jardins de infância vezes não sei quantas salas de 25 alunos cada, são milhares de crianças que podem assistir a estes espetáculos. Todos em Lisboa e todos da rede pública. Começámos com os jardins de infância do centros históricos e depois fomos alargando a área de atividade sempre com a colaboração da Câmara Municipal e também da Santa Casa da Misericórdia. Com a Santa Casa também levamos espetáculos a centros de dia que têm ou jardim de infância ou creche, para juntarmos os dois públicos. Fazemos uma sessão única para idosos e para crianças muito pequenas. Há ainda um terceiro parceiro, o Hospital D. Estefânia, que tem uma escola com todos os níveis, do pré-escolar até ao 12.º ano. Fazemos lá uma apresentação com as crianças que nesse dia estiverem internadas e que tenham condições para se deslocar a uma sala para assistir ao espetáculo”, adianta a encenadora de “Quem Vai ao Mar”.

“Nos jogos de telemóvel isto não acontece, quando não conseguem ganhar, passam ao próximo”

Paralelamente aos espetáculos, o TNDMII oferece formação às educadoras das escolas com quem o teatro trabalha. O objetivo é dar-lhes ferramentas para terem mais segurança a trabalhar as matérias artísticas. Dizem que têm muitas lacunas a nível de voz, de expressão física, de utilização de objetos. “O que fazemos nas formações é tentar desmontar uma lógica muito realista e ilustrativa que se pratica nos trabalhos com crianças. Nos espetáculos muitas vezes usamos um objeto que serve para ser transformado em imensos outros objetos. Um cabide pode transformar-se em árvore, foguetão, barco. É preciso que as crianças percebam que os objetos têm uma dimensão que pode ser transformada e uma dimensão simbólica. Eu para ser um coelho se calhar não tenho que ter umas orelhas e uma cauda. Se tentarmos fazer tudo muito realista já não há nada para imaginar. E esse já é o problema dos brinquedos hoje. O fogão tem lá os botões todos, o ferro de engomar até se liga à corrente e fica quente, se for preciso. Não há muito espaço para imaginar”, lamenta a encenadora.

A atriz Sandra Pereira sente-se mais entusiasmada. É a Capitana na peça que agora estreia e vai trabalhar seis meses seguidos no espetáculo. Sandra sabe que os meninos vão guardar a história que lhes conta nas suas cabeças. “Uma vez fizemos um espetáculo sobre o amor. As personagens eram detetives que andavam a investigar o que era o amor. Muitas crianças saíram daqui e andaram semanas e semanas de lupa em casa a tentar descobrir o que era o amor.” Maria Emília Graça, educadora de infância há 37 anos, concorda com a atriz: “O contacto com este mundo é sempre fascinante, maravilhoso e muito positivo. Temos sempre um feedback extraordinário. O que se passou aqui vai com eles para a sala de aula, vão relembrando o que viram e fazem muitas associações interessantes com o seu dia a dia. É um momento que não morre aqui. Talvez porque com o teatro eles dão asas à imaginação e ao sonho. Nos jogos de telemóvel isto não acontece, quando não conseguem ganhar, passam ao próximo”.

“O mais importante na educação pelas artes é a questão da ludicidade que estabelece com o processo criativo. As artes proporcionam uma experiência, a de as crianças poderem inventar, imaginar e resolver problemas. Permitem outro paradigma de raciocínio, onde não existe a possibilidade de errar. Na escola vive-se em competição, a ideia de avaliação está sempre presente e a de julgamento também. É interessante que a criança encare o erro como a possibilidade da descoberta de algo novo. Encare o ridículo e compreenda que faz parte de um todo, que não é o centro do mundo. Que desenvolva essas competências que lhe dão uma visão tridimensional, que distinga a sombra e a luz, descubra a perspetiva, as verdadeiras metáforas para olhar as coisas de forma diferente”, remata Madalena Victorino.

O que ainda falta conseguir, avisa Catarina Requeijo, é fazer com que os meninos que vieram ao teatro com as escolas consigam vir depois com as famílias. “Não sei se temos a pretensão de que isto vai mudar a vida deles como espectadores. Se calhar não vai, mas neste momento têm direito a ter isto.”

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