ionline.sapo.ptJoão Luís Mota de Campos - 26 nov. 09:24

O hara-kiri da direita portuguesa

O hara-kiri da direita portuguesa

O centro-direita assente no PSD e no CDS e na sua capacidade conjunta de se organizarem, mostrou que podia ser uma alternativa política real, ganhou um impulso novo e fez tremer o Governo de António Costa.

Facto indesmentível é que para uma democracia ser saudável e de qualidade necessita de dispor de um governo com apoio maioritário cuja legitimidade seja evidente e resulte de uma escolha clara do eleitorado, mas também de uma oposição que cumpra duas funções: a de ser um contrapeso efectivo ao exercício do poder pela maioria e a de propor uma alternativa política clara ao eleitorado.

Infelizmente em Portugal, desde 2015, não dispusemos destas condições: por um lado, o governo que foi empossado em 2015 não resultou de qualquer escolha clara do eleitorado, resultou apenas do ódio que a esquerda no seu conjunto votou ao governo de centro-direita de Passos Coelho.

Não houve, salvo os comentadores e os comendadores de esquerda, quem não tenha feito notar que o ciclo político estava a virar. Não é que a hora do centro-direita tivesse chegado, mas tal como São João Batista anunciou a Cristo, também as autárquicas anunciavam que alguma coisa de novo estava a caminho.

Nesta juntura, a esquerda radical decidiu chumbar o orçamento de estado levando o Presidente da República a anunciar a dissolução da Assembleia e novas eleições legislativas.

Tivesse a direita estado preparada, tivesse apresentado ao país ao longo de seis anos a lista das medidas reformistas a que se propõe, tivesse um programa de mudança, e estas eleições seriam o momento perfeito para dar início a um novo ciclo político.

Em vez disso, o que apresentaram-se-nos uns “políticos” cheios de táctica e de estratégias de vistas curtas, que em vez de olhar para o país e para aquilo que o país está no direito de esperar do centro-direita, decidiram olhar para as Direcções dos seus partidos, que passaram anos a minar, com um único objectivo: o de tomar o poder interno, de forma a poderem beneficiar de uma vitória eleitoral que outros construíram.

No momento em que o PSD e o CDS deveriam estar activamente a preparar a vitória eleitoral de 30 de Janeiro próximo, estão a degladiar-se internamente, a auto espancar-se em público, a mostrar porque é que não estão prontos para assumir o poder. Em suma, a fazer hara-kiri na praça pública, para gaudio dos comentadores políticos e do Dr. António Costa.

Tudo isto é triste, nada disto era fado. Tivessem Paulo Rangel ou o improvável Nuno Melo tido sentido do interesse público, algum sentido de estado ou ao menos vergonha, e teriam sido os primeiros, disciplinadamente, a pôr-se ao serviço dos seus partidos e da possibilidade de vitória; Em vez disso enfileiraram no grupo daqueles que voluntaria ou estupidamente ajudam António Costa a manter-se num governo cujo único objectivo é manter-se como governo.

Pode haver milagres, mas estou convencido que ganhe ou perca as eleições internas, Paulo Rangel já perdeu, nunca será um estadista: ou ficará como uma nota de rodapé de má memória na biografia de Rui Rio, ou disputará e perderá para António Costa as legislativas. Quanto a Nuno Melo continuará um indiferente deputado europeu enquanto o partido que se empenhou em destruir lhe garantir o lugar.

Sem ser adivinho, há outra coisa de que estou certo: se António Costa ganhar as próximas legislativas sem maioria absoluta, o Governo que daí saia não vai durar muito mais. É um Governo a prazo.

Seria então inaceitável que o centro-direita que saia dessas legislativas não aproveite o ano ou dois anos seguintes para se preparar e apresentar ao país, o que agora declinou fazer, uma verdadeira alternativa reformista.

Como diz o outro, a esperança é a última a morrer…

Advogado, subscritor do Manifesto por uma Democracia de Qualidade

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