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O homem sem máscara e os avisos de Habermas

O homem sem máscara e os avisos de Habermas

Faltavam escassas horas para ouvir o primeiro-ministro anunciar novas medidas de restrição, quando entro na loja do posto de combustível para pagar o abastecimento do meu carro. À minha frente, um homem de rosto liberto de proteção acaba de efetuar o pagamento por multibanco e esfrega energeticamente o nariz; no atendimento, está um funcionário com uma máscara gasta pelo uso apenas a tapar a boca. "Desta vez, vai ser difícil fazer recuar o país", pensei.

É certamente em jeito de aceitação cansada que muitos olham para as novas restrições. Por isso, o Governo precisa de comunicar bem as medidas agora decididas, seguindo uma estratégia centrada em discursos explicativos e meticulosamente alinhados. Outra frente a exigir cuidados acrescidos é a da vacinação.

Ontem, a Agência Europeia do Medicamento deu luz verde para a inoculação dos mais pequenos. O presidente da República logo disse que é preciso reforçar as estruturas de vacinação, sobretudo agora que existe mais um grupo para atender. Tem razão. Mas é necessário ir mais além. É vital explicar aos pais o que está aqui em causa. Nos próximos dias, os média vão ouvir especialistas com posicionamentos diversos e isso é profícuo para perceber a complexidade desta questão. Contudo, alguém deve tomar em mãos uma explicação sistémica. A este nível, há que definir rapidamente quem fala do processo de vacinação de Portugal. Até agora, a comunicação tem sido partilhada por três pessoas: o secretário de Estado Adjunto e da Saúde, a diretora-geral da Saúde e o coronel Carlos Penha Gonçalves. É confuso. A comunicação deve estar centrada apenas numa pessoa que explique os medos a ultrapassar, a priorização de grupos elegíveis, as datas a ter conta, as disfuncionalidades a corrigir, os sucessos a registar, o ponto de situação do que está a ser feito...

Neste compasso de espera pelas decisões do Governo, leio a entrevista que Jürgen Habermas concedeu ontem à revista francesa "L"OBS" onde afirma que "vivemos uma época de regressão política". Movimentos políticos, regimes autoritários e cidadãos dispersos por uma esfera pública (política) cada vez mais fragmentada vão criando quadros de perceção de uma realidade que muitas vezes se circunscreve a pequenos grupos. Neste mundo novo, a persistência de uma pandemia que demanda uma frente de combate coletiva é uma espécie de fósforo pronto a pegar fogo num ambiente escaldante. Talvez fosse bom lembrar que, há muitos anos, Habermas nos deu importantes lições sobre os benefícios que uma comunicação racional tem em qualquer regime democrático.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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