sol.sapo.ptAntónio Silva Carvalho - 26 nov. 00:00

Estamos talvez condenados a ter governantes incapazes, corruptos ou delinquentes, mas ao menos são gente famosa

Estamos talvez condenados a ter governantes incapazes, corruptos ou delinquentes, mas ao menos são gente famosa

Começo por reconhecer que, na política e no futebol, cada português tem o seu partido e o seu clube de eleição até à morte, e aqueles que sempre deseja derrotar. Os seus votos e emoções não têm por base nenhuma racionalidade, daí ser tão normal, pelo menos entre nós, eleger para governante-mor do país ou presidente do seu clube de eleição alguém que todos acham ser um corrupto e vigarista incorrigível.

Por António Silva Carvalho, médico reformado

Estando nós a atravessar uma época especialmente complexa e melindrosa no país, e sem dúvida inédita, em que entre outras coisas convergem uma crise política de tipo novo (com chumbo do orçamento do Estado pela primeira vez), uma crise económica que só por ‘milagre europeu’ não se tornou ainda uma nova bancarrota, uma crise social gravíssima em que mesmo os ‘não pobres’ não conseguem sobreviver sem ajudas-extra, e pela primeira vez na história uma virose pandémica gerida de forma disparatada, arbitrária e totalitária – parece pertinente e mais que razoável dedicarmos algum do nosso tempo a tentar, não atabalhoadamente, meditar sobre a dificílima situação em que estamos mergulhados, em especial agora que faltam poucos dias para começarmos a fazer escolhas democráticas de quem nos irá governar nos próximos anos.

O que o portuga quer é que “o seu” clube/partido ganhe, e que ganhe sempre, ainda que jogue muito pior ou proponha políticas que desgraçam o país, nem que tenha de corromper o árbitro ou seja quem for.

E só me permito falar nestes termos por eu próprio ser um português tão atípico, em todos os aspectos principais: já votei em 4 ou 5 partidos políticos, não torço por nenhum clube de futebol, sou anti-corporativista até em relação à minha própria família, tive como médico o percurso mais variado, heterodoxo e improvável que alguma vez vi algum colega ter, e no ramo científico em que tive mais sucesso internacional não aceitei o cargo mais honroso para que fui convidado em Londres nessa especialidade porque me havia comprometido, com o Instituto que me arranjara a bolsa e também com a minha mulher, que regressaríamos a Portugal logo que o mestrado em Imunologia Aplicada fosse obtido.

Dito isto, e parecendo-me ter já tornado suficientemente claro que, em termos políticos, não é por razões clubísticas ou partidárias que me movo e tomo, em cada circunstância, as minhas opções, é talvez chegada a altura de, sem papas na língua, dizer o que penso sobre o tempo que agora vivemos e, com base em dois ou três exemplos emblemáticos, apontar aquilo que caracteriza o futuro que prevejo para o nosso país.

A actualidade política e social de que o governo tem falado nos dias que correm, a mim parece-me óbvio que é essencialmente ou apenas propaganda partidária, sem correspondência com a realidade nacional. Não é, aliás, a primeira vez que tal coisa acontece – basta lembrarmo-nos dos tempos em que milhões de portugueses, com Costa à cabeça, tudo fizeram para nos convencer da invencível genialidade de Sócrates.

Dizem e prometem o que lhes soa mais vantajoso, com o ar de quem está a garantir algo que nunca falhará. E o pior é que não são apenas os membros do governo e seus dependentes directos que mentem aos portugueses, na mira de conseguirem os seus votos. Muitos jornalistas, comentadores e “especialistas em sondagens” também colaboram nesta enorme campanha falaciosa. Na minha percepção, ultrapassámos já, em mentira, descaramento e maquiavelismo, as outras campanhas eleitorais que, no passado, foram alguma vez montadas deliberadamente para enganar o nosso povo e convencê-lo a votar em determinado partido.

O que se tem passado no âmbito da Saúde, por exemplo, é especialmente chocante e imperdoável, não só no que revela quanto à absoluta indiferença pelo real sofrimento das pessoas anónimas que se sentem doentes e aflitas, sem terem a quem recorrer para obter ajuda, mas também pelo enorme número de pacientes que, todos os dias, não vêem outra solução que não seja submeterem-se a infernos burocráticos e horários desumanos.

Dantes, quando a covid ainda não tinha chegado cá, as pessoas crescidas quase todas – quer fossem leigos ou “profissionais do ramo” -, perante um problema de saúde, pelo menos tinham quase sempre uma ideia razoável sobre se era uma situação que não inspirava preocupações ou, pelo contrário, se se tratava de algo potencialmente grave. Ora, desde o advento do ‘universo da covid’, passámos a pertencer a um mundo que é em tudo diferente, no qual o que era válido deixou de o ser, e relativamente ao qual a abordagem, o diagnóstico, o tratamento, a prevenção, e até a legislação aplicável nada têm em comum com nenhuma outra patologia, contagiosa ou não, até hoje conhecida. Além disso, e sem paralelo com qualquer das outras pandemias que já houve, esta tornou-se um dos menos controláveis e compreensíveis dramas políticos que hoje dominam o mundo. Este seu carácter totalitário, e aparentemente demencial, parece resultar sobretudo do facto, inédito, de a maioria dos seus ingredientes terem rapidamente ganho um estatuto inescapável de pretexto para negócios de dimensões astronómicas e crescentes, de que são exemplos as diversas marcas de vacinas (alegadamente produzidas e vendidas, para já, na ordem de biliões de doses), os vários testes (idem), os vários tipos de ventiladores, as inúmeras máscaras (quiçá triliões?) e demais equipamentos de protecção individual, as múltiplas “autoridades sanitárias” nacionais e internacionais, os variados critérios ditos “científicos”, os variadíssimos “especialistas” dos ramos mais diversos, os inúmeros comentadores avençados que actuam como se dominassem todos os géneros de conhecimentos, os vários fármacos terapêuticos veteranos, modernos e em preparação, específicos e inespecíficos, já sujeitos ou ainda não a ensaios clínicos de tipos diversos, os variadíssimos órgãos de informação e comunicação social, os políticos em geral, etc., etc., etc...

Na história da humanidade e da medicina, nunca antes tinha havido alguma outra “doença” em que, existindo ou não prova insofismável de um determinado diagnóstico, e independentemente de tal diagnóstico implicar ou não qualquer tipo de queixa, dano ou perigo para alguém, um organismo de um Estado que a si próprio se classifica como pessoa de bem e legitimado para o efeito, passou a poder livremente, e impunemente, dispor e privar da liberdade de movimentos, tornando refém quem calhar durante pelo menos uma semana, sem nenhum tipo de consequência para o funcionário que tomou essa decisão. E isto, note-se, é talvez o caso mais benigno que pode hoje em dia ocorrer.

Entre um caso como este e, digamos, a morte dos poucos ou numerosos utentes a quem o Estado não prestou nenhum serviço ou cuidado e nem sequer se dignou responder por telefone ou e-mail aos pedidos de socorro, há obviamente muitos e muitos milhares de tipos de eventualidades diferentes e possíveis de acontecer, algumas ou muitas das quais terão tido, assim se espera, desfecho feliz ou razoável. Naturalmente, deixarei à imaginação do leitor a imensidão de situações reais ocorridas em Portugal, nesta área, desde Março de 2020 – até porque não confio, minimamente, na veracidade das respostas e estatísticas oficiais, caso elas fossem publicadas, à luz das histórias que me têm sido contadas por pessoas em cuja palavra acredito, e que passaram por esse género de calvários, benignos, mortais ou kafkianos.

Duma maneira ou doutra, algo passou a sobressair, No âmbito da Saúde, e nos últimos 20 meses, os seus utentes e os seus profissionais e serviços passaram a ser subdivididos em dois grandes grupos: aqueles que, suposta ou efectivamente, têm a ver com a covid, e do outro lado todos os outros. O primeiro grupo – grupo Covid – é o único que merece impreterivelmente a atenção dos media e das autoridades, várias vezes ao dia, com alarmantes estatísticas, “debates” e gráficos, não obstante a gigantesca maioria dos “casos” dizerem respeito a situações assintomáticas ou a queixas às quais, noutro contexto qualquer, ninguém ligaria a menor importância, e de que ninguém se lembraria sequer de falar. O segundo grupo – grupo não covid -, sendo embora aquele que inclui a imensa maioria das patologias que mais pessoas afectam e matam em Portugal (doenças oncológicas, cardiovasculares, pulmonares crónicas, autoimunitárias, psiquiátricas, insuficiências renais, neurológicas, endocrinológicas, do foro digestivo, restantes doenças infectocontagiosas, etc., etc…), apesar disso é raro merecer alguma referência na comunicação social, excepto num caso ou outro em que, por alguma razão de tipo mediático – como seja a hipótese de ter afectado uma celebridade -, os media antevêem que esse caso originará um excepcional interesse público, e então, inicia logo os telejornais do dia ou é manchete nas primeiras páginas.

A Covid veio portanto criar, pela civilização do espectáculo em que passámos a viver, e pelo número de figuras públicas envolvidas, um fenómeno sem paralelo: fez crescer muito a riqueza material de muita gente que já era ou se tornou famosa, e por razões que milhões de voyeurs acham ser de tipo humanitário. Eis, portanto, um caldo de cultura que fez subir, para cumes duma altitude nunca antes alcançada, o mito da perigosidade e também o da invencibilidade da pandemia – que a DGS Graça Freitas e o PM António Costa se têm esforçado por alimentar de modo incessante, ao mesmo tempo que fazem crer ao sábio povo português que eles dois (com a ajuda muito relevante mas ocasional da “task force” liderada pelo Sr. Vice-Almirante Gouveia e Melo, infelizmente descontinuada), são, sem qualquer dúvida, as únicas autoridades capazes de nos salvar do tremendo cadafalso em que a direita política, personificada em Pedro Passos Coelho, se preparava para matar e fazer desaparecer os portugueses para todo o sempre.

Ao mesmo tempo que isto fez mudar todo o clima humano em Portugal, fomos sendo informados que, por mais transparentes e graves que sejam os crimes económicos cometidos por figuras muito poderosas do nosso país, é altamente improvável que a justiça portuguesa venha alguma vez a conseguir, sobre tais casos, tomar uma decisão que seja definitiva, quer para condenar ou para absolver os respectivos arguidos, durante o tempo de vida dos mesmos – e esta característica, plausivelmente, resultará do facto de o nosso sistema de justiça valorizar acima de tudo, não a letra das leis que é suposto aplicar, mas a dúvida e a incerteza do espírito que lhes subjaz, ou seja, a atitude científica do juiz.

Para concluir com chave de ouro, muitos portugueses puderam recentemente constatar, numa reportagem da SIC que deu brado, um programa sobre velocidades de condução de veículos nas estradas que, se tivesse sido passado na televisão de um país como por exemplo a Inglaterra, teria levado imediatamente à demissão do Governo e, muito provavelmente, também a uma exemplar punição judicial dos cidadãos (governantes e motoristas) directamente envolvidos nas cenas filmadas. Se o mesmo programa tivesse passado num país como por exemplo a Rússia ou a Venezuela, a respectiva apresentadora seria presa de imediato (e, muito plausivelmente, apareceria morta), e o canal de televisão responsável pelo referido programa deixaria de poder continuar a funcionar, tendo de pagar, ao Estado e às pessoas ofendidas, multas gigantescas. Em Portugal, que é um país exemplar na sua liberdade, obviamente não sucedeu nada de desagradável a nenhum dos envolvidos nas cenas filmadas, e a autora do programa mantém-se em funções, mas entretanto os cofres do Estado terão, e bem, encaixado mais uns milhares ou milhões de euros de multas, pagas devidamente pelos espertos que se atrevem a conduzir a velocidades superiores às que a lei permite, consoante a estrada e o local. “A bem da Nação”, como antigamente se dizia.

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