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Filósosofo Yves Michaud e o “fim da arte” na Fundação EDP

Filósosofo Yves Michaud e o “fim da arte” na Fundação EDP

O filósofo e crítico de arte francês acaba de lançar um livro sobre a relação entre a hiper-estetização da vida contemporânea e a vaporização da arte.

O filósofo francês Yves Michaud estará em Lisboa esta semana para proferir uma conferência sobre arte contemporânea, uma das suas áreas de intervenção em que tem acumulado polémicas, nomeadamente com o livro que lançou este ano com um título provocador em que anuncia o fim da arte  L'art, c'est bien fini.

Intitulada “Situação da arte contemporânea: profusão e desorientação”, a conferência, que terá lugar na Central Tejo – Fundação EDP, no sábado, é uma extensão do tema do último número da revista Electra, uma publicação bilingue (português e inglês) editada pela Fundação EDP, que organiza o seu n.º 14 em torno de um dossier dedicado à arte contemporânea.

Especialista em Hume e Locke, Yves Michaud começou por ser reconhecido pelas suas reflexões sobre filosofia política, especialmente sobre a violência social, com a sua obra Violence et politique (Gallimard, 1978), temas a que voltou mais recentemente com os livros Contre la bienveillance (Stock, 2016) e Citoyenneté et Loyauté (Kero, 2017), a propósito dos fundamentalismos religiosos e dos populismos políticos.

A sua outra área de intervenção filosófica é a estética, sobretudo a arte contemporânea. Foi director da Escola Nacional Superior de Belas-Artes de Paris entre 1989 e 1997 e publicou em 2003 o muito polémico L’Art à l’état gazeux onde denuncia a crescente volatilização da arte, uma estética que se importa cada vez menos com o objecto em si e valoriza a experiência multissensorial do espectador. Num sistema artístico em que tudo é arte, ou pode tornar-se arte, assiste-se, por outro lado, a uma crescente estetização da vida contemporânea. “A questão que se põe é esta: o que é que diferencia esta Arte, eternamente ‘contemporânea’ apesar das suas metamorfoses, do mundo ‘normal’ onde ela existe e onde nós vivemos?”, interroga-se no texto que escreveu para a revista Electra.

Arte em estado gasoso

No seu último livro, com o título L'art, c'est bien fini — essai sur l'hyper-esthétique et les atmosphères, (Gallimard, 2021), o crítico de arte francês continua a reflexão lançada no ensaio dedicado ao “estado gasoso da arte”. Como escreve a revista Philosophie, depois de traçar a genealogia dessa sensibilidade atmosférica, Michaud denuncia as consequências em termos sociais, políticos e metafísicos de um sujeito que, sem recuo crítico, se abandona ao sentir: “O indivíduo contemporâneo vive a sua vida como um idiota sensível”.

Para o editor da Electra, António Guerreiro, o filósofo francês mostra com grande pertinência como o regime de estetização geral do quotidiano pode provocar uma forma de anestesia e de neutralização da experiência artística. Na conferência de sábado, Guerreiro, também crítico e colunista do PÚBLICO, espera prolongar o debate iniciado com o lançamento do último número, analisando questões relacionadas com o sistema de legitimação e de aquisição da arte contemporânea, nomeadamente de prestígio e de valor económico. “Tudo isso tem sido objecto de debate e de uma prolongada querela que foi muito viva em França. Yves Michaud foi um dos intervenientes nesse debate, assumindo posições que, embora diagnosticando uma ‘crise da arte contemporânea’, e uma evanescência dos objectos artísticos, não correspondem às posições reaccionárias de quem acha que toda a arte contemporânea é uma impostura, nem do lado das posições acríticas que veneram tudo o que traz a marca do ‘contemporâneo’, sem sequer questionar o modo como a ‘arte contemporânea’ se tornou uma categoria que nem sequer é historicamente definida e delimitada.”

A inscrição prévia para a conferência pode ser feita no site da revista.

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