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Valorizar a dor da criança

Valorizar a dor da criança

A criança de toda a idade sente dor, habitualmente experiencia níveis de dor maiores em idades mais jovens e não se deve acreditar que se habituam à dor. Esta é um sinal vital e, como tal, representa um sinal de alarme mas não tem qualquer outra van

A dor é definida pela International Association for the Study of Pain (IASP), como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante à associada, a danos reais ou potenciais nos tecidos”. Uma nota importante desta definição é a de que a dor “é sempre uma experiência pessoal que é influenciada a vários níveis por factores biológicos, psicológicos e sociais”.

Certo que as crianças não se exprimem da mesma forma que um adulto, mas conseguem localizar a zona que dói, quanto lhes dói, a forma da dor e o horário da dor. Até as crianças que não se exprimem verbalmente apresentam outras expressões corporais que demonstram essa dor.

É difícil compreender a dor da criança, mas não é apenas o profissional de saúde que o consegue fazer. Para poder reconhecer, avaliar, prevenir e tratar, é importante falar sobre a dor. A criança tem o direito a queixar-se de dor, ver a sua dor valorizada (independentemente da idade e da forma como se exprime) e os cuidadores, directamente envolvidos no seu bem-estar são os principais responsáveis pelas primeiras medidas de prevenção e tratamento. Como tal, devem, pelo menos, saber que as medidas não farmacológicas são fundamentais nesta abordagem.

Que medidas não farmacológicas podem então ser utilizadas pelos cuidadores? A linguagem e voz deve transmitir calma e confiança, deve-se evitar um ambiente de ansiedade, preparar previamente os acontecimentos, não ameaçar, evitar palavras que representem a dor ou o medo e explicar, sem enganar a criança. Também o contacto é fundamental, podendo transmitir-se, por exemplo, através do toque, da posição de conforto, massagem e da aplicação de calor ou frio.

As técnicas de distracção e relaxamento são outras das medidas importantes. A ideia é desviar a atenção para longe do estímulo doloroso. São exemplos a música, jogos, histórias, jogos de respiração como as bolas de sabão e moinhos de vento, brinquedos interactivos, estimulação da imaginação (procurar levar a criança para o seu lugar favorito e a realizar as suas actividades preferidas).

Estas medidas devem ser sempre a base do tratamento da dor e naturalmente existem medidas farmacológicas que podem ser utilizadas num conceito multimodal (várias intervenções integradas) após avaliação pela equipa de profissionais de saúde.

Mas, devemos achar normal ter dor num ambiente de cuidados de saúde? A dor é um dos principais motivos de procura de cuidados de saúde. Porém, na criança é essencial perceber que muitas vezes negam dor por medo do que pode acontecer. Toda a criança tem o direito de ver reconhecida a sua dor. É urgente ter tempo para nos dedicarmos à redução da dor e ansiedade no contexto de cuidados de saúde, com medidas personalizadas e adequadas a todas as crianças, respectivas famílias e situações clínicas. Por exemplo, no Atendimento Permanente Pediátrico do Hospital CUF Descobertas temos em curso o “Projecto sem dor”, que tem como grande objectivo, ético e clínico, incrementar a eficiência na avaliação da dor desde o primeiro contacto que as crianças têm com os serviços de saúde, na abordagem não farmacológica — com investimento na relação criança/profissional, oferta de espaço tranquilo e confortável — e nas técnicas de sedoanalgesia associada a procedimentos. Investir no tratamento da dor de forma personalizada e correcta é investir na saúde e bem-estar dos nossos pequenos.

Os direitos das crianças são bem claros. “Todo o esforço deve ser feito para prevenir ou, se isso não é possível, minimizar a dor e sofrimento” e “deve evitar-se qualquer exame ou tratamento que não seja indispensável; as agressões físicas ou emocionais e a dor devem ser reduzidas”.

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