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Acção Climática: E se começássemos por trabalhar com os vizinhos?

Acção Climática: E se começássemos por trabalhar com os vizinhos?

Um olhar sobre o ambiente, alterações climáticas e sobre o nosso lugar no planeta. Por Abel Coentrão e Renata Monteiro.

Escrevo-lhe esta carta com um dia de atraso, mas em compensação trago-lhe boas notícias. Hoje não quero discorrer sobre a “grande crise de governança transnacional”, que segundo o influente economista Jeffrey Sachs, atrasa o cumprimento das metas climáticas do acordo de Paris e dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. Quero escrever-lhe sobre o que podemos cada um de nós fazer, à escala da rua, das nossas comunidades de pertença, ou à escala dos nossos municípios, para tornar os nossos territórios, e o estilo de vida dos que neles habitam, mais equilibrados.

Na quarta-feira, à hora a que deveria estar a escrever-lhe estas notas tinha os pés, e a cabeça, na palavra comunidade. A convite do Festival de Cinema Porto/Pós/Doc, cuja programação se apropria, este ano, do mote de Ailton Krenak, e das suas Ideias para adiar o Fim do Mundo, organizei e pude moderar uma conversa entre um trio de pessoas inspiradoras, que, mais do que adiar o fim do que quer que seja, puxam pela cidadania, para que nos envolvamos em projectos locais, recuperando o gozo que dá fazermos coisas uns com os outros: principalmente quando isso nos permite mudar o espaço público, a forma como produzimos energia ou comida, a forma como nos relacionamos com a democracia e as possibilidades de participação.

Connosco, a partir de Totnes, Inglaterra, esteve Rob Hopkins, co-fundador do Movimento para a Transição, no qual, em nome do combate à crise climática, social, económica milhares de cidadãos desenvolvem projectos que reforçam o papel das pessoas no destino das suas vidas e dos seus territórios. Como se pode ver no filme Demain, ou Amanhã, na Transição, ao mesmo tempo que maximizam a capacidade local de prover a comunidade de parte do que precisa, os participantes maximizam um capital que não entra nas contas do PIB: o da entreajuda, solidariedade, resiliência. São palavras que abrem sorrisos em dezenas de cidades de vários países, incluindo Portugal, e que nos ajudam a reescrever a narrativa sombria dos dias que correm.

Inspirados no apelo à imaginação desenvolvido por Hopkins no seu último livro, From What is to What If, juntamo-lo, na na Casa Comum da Humanidade, da Universidade do Porto, a dois outros campeões da participação: Laura Sobral, urbanista brasileira que agora vive entre nós, e que escreveu Fazer Juntosum livro disponível online que merece toda a atenção, e José Carlos Mota, académico em Aveiro e, acima de tudo, instigador, naquela cidade e noutros pontos do país, de processos participativos que nos mostram quão ávidos estão, muitos de nós, de poder ter algo a dizer sobre o nosso futuro colectivo. Seja num bairro, seja num parque como o das Serras do Porto, ou no debate de temas aparentemente tão áridos como um plano director municipal

Quase ao mesmo tempo, em Lisboa, o projecto ODS Local, que junta várias organizações portuguesas com o objectivo de levar os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável para a esfera municipal, organizava a sua primeira conferência, após um ano de trabalho. Por ali ouvimos Jeffrey Sachs (gravação online, a partir do minuto 41) lamentar o desconcerto global, e a falta de planeamento e de visão de longo prazo de muitos governos, ao mesmo tempo que deixava uma nota de esperança sobre o que se passa a uma escala mais local, num mundo que, lembrou, vai adicionar três mil milhões de pessoas às cidades, em 30 anos. “Há muito pensamento fascinante, por fazer, acerca do que as nossas cidades poderiam ser em meados deste século”, desafiou. Que o digam, em Portugal, os responsáveis pelo projecto Bairros Saudáveis, que começa a dar frutos

As cidades, assinalou Sachs em resposta a uma pergunta, não conseguem resolver todos os problemas, desde logo que não é delas boa parte da capacidade de financiar as soluções. Mas como demonstram as histórias inspiradoras da rede para a Transição, há muito potencial de mudança que, mais do que dinheiro, requer imaginação, e facilitadores que juntem pessoas, em torno de um objectivo. Por cá, temos os nossos exemplos, e o ODS Local premiou três deles. A Cozinha da Avó, de Mértola, que educa para uma cozinha de base local, sazonal e justa (categoria Pessoas), a Escola Natureza+, de Pombal, que recupera uma antiga escola primária para projectos ambientais (categoria Planeta), ou a Escola-Oficina de Gaia (na categoria Prosperidade), que abre as possibilidades de formação a pessoas excluídas do contexto escolar, com preocupações de sustentabilidade ambiental, económica e social, são uma nota de esperança, em tempos difíceis.

Regressamos para a semana, com os Pés na Terra. Até lá, pode partilhar críticas e sugestões connosco, através do endereço acoentrao@publico.pt e renata.monteiro@publico.pt. Deixo-lhe, em baixo, mais algumas sugestões de leitura. 

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