visao.sapo.ptapfigueiredo - 25 nov. 08:30

Visão | A melhor oposição não é gritar mais alto

Visão | A melhor oposição não é gritar mais alto

Temos assim um claro caso de sucesso político: uma boa escolha para uma tarefa concreta e um trabalho político de muitos anos que permitiu ter as condições objetivas e subjetivas para se atingir o objetivo proposto

Foi a vacinação ter corrido tão bem que nos permite chegar a esta nova vaga da pandemia em melhores condições do que todos os nossos congéneres europeus.

O enorme sucesso político dessa campanha é indesmentível. Um sucesso que, tal como todos os grandes feitos de uma comunidade – salvo raríssimas exceções –, não acontece por geração espontânea, por qualquer fenómeno extraordinário ou por intervenção de um qualquer homem providencial. Há sempre razões estruturais que são decisivas e este caso é um bom exemplo disso.

A liderança do vice-almirante foi importante e são merecidos os elogios que lhe são feitos. Porém, nenhum super-herói conseguiria levar a bom porto esta missão se não existisse um quadro de funcionários públicos bem organizado e motivado para a função, se não estivéssemos integrados na Europa (logo com acesso ao produto), se o nosso programa geral de vacinação não fosse excelente (basta ver os números para outras doenças) e se os portugueses não acreditassem nos méritos das vacinas.

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A forma como se lidou com a pandemia e a discussão sobre de quem é a responsabilidade dos excelentes resultados da vacinação e como estamos a lidar com esta nova vaga são dois bons exemplos de como é hoje entendida a política em geral e a luta político-partidária.

No auge dos problemas de saúde pública e económicos provocados pela pandemia houve um comportamento exemplar dos principais protagonistas políticos. Aliás, também a estes se deve o tal sucesso político. Uma atitude beligerante causaria sempre problemas: suscitaria desconfiança, traria confusão.

Foi um momento em que, sobretudo, o líder da oposição percebeu que a política, antes de ser apenas um espaço de luta entre visões diferentes de como se atingir o bem comum, é a procura desse bem comum.

As narrativas que se tentaram impor sobre a vacinação e o momento que vivemos levam-nos para outro campo, o do que não deve ser a política e do que falamos quando falamos de oposição. 

A tentativa de transformar o vice-almirante no único responsável pela vacinação (que ele sempre rejeitou) não teve outro propósito senão a luta política no pior sentido. Para obter ganhos eleitorais, não se hesitou em desmerecer o trabalho de milhares de pessoas e de esquecer o trabalho político de dezenas de anos e vários governos. Pior, há quem berre pelo regresso de Gouveia e Melo e diga que há sinais de incompetência nesta nova fase de vacinação quando não há rigorosamente nada que indique qualquer problema (como ficou claro na reunião do Infarmed, da semana passada) na administração da terceira dose.

O tempo das redes sociais e dos noticiários 24 horas por dia impôs o imediatismo político; a polarização – que existe no espaço público, apesar de estar longe de estar provada na comunidade – pressupõe a negação por sistema do que o outro lado defende.  

A pressão dos média para que os partidos reajam a todo e qualquer assunto faz com que a política se torne um nunca acabar de pequenas discussões mais ou menos frívolas sobre assuntos na sua esmagadora maioria distantes das preocupações das pessoas.

Isto ajuda à criação de um clima de conflito permanente que apenas gera mais conflito. Nada mais.

Duvido muito que os cidadãos apreciem a oposição pela oposição, essa futebolização da política. Não me parece que gostem dos políticos que basta o outro partido dizer branco para que eles digam preto, que passam a vida a berrar contra os adversários e até caiam em ofensas pessoais. As pessoas estão saturadas desse modo de fazer política e a tendência será premiar quem se afaste desse método. É, aliás, uma das razões para o crescimento da abstenção e para o descrédito da classe política.

A questão é que as máquinas partidárias tendem a portar-se como claques de futebol. Querem quem fala mais alto, quem entre nas pequenas discussões do dia a dia. Há uma clara dissensão entre essas máquinas e os leitores. 

Isto leva a um sempre maior afastamento dos cidadãos dos protagonistas políticos e a uma repulsa pelos partidos gerando uma enorme multidão de descrentes no jogo democrático. Um jogo que lhes parece cada vez mais apenas uma forma de obter o poder pelo poder e não a luta por uma visão que, na opinião de cada partido e político, será o melhor para a comunidade. 

A melhor oposição não é a que grita mais alto, é a que defende as melhores soluções, mesmo que não sejam propostas pelo nosso lado. Os cidadãos não querem guerras, querem uma vida melhor.

(Opinião publicada na VISÃO 1499 de 25 de novembro)

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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