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Maior exportador nacional faz 30 anos. Investimento público na Autoeuropa até “foi baixo”

Maior exportador nacional faz 30 anos. Investimento público na Autoeuropa até “foi baixo”

Em 30 anos no país, os números da Volkswagen Autoeuropa impressionam. No entanto, o desfile das estatísticas conhecidas nunca deixaram cair uma pergunta: quantos apoios públicos já somou a construtora automóvel? Uma dúvida que nenhum governo explicou. À Renascença, Luís Mira Amaral, o ministro que trouxe o investimento para o país garante que as contrapartidas até foram “baixas”.

A Volkswagen, um dos maiores construtores automóveis mundiais, não chegou a Portugal sozinha. “Foi uma iniciativa minha”, diz à Mira Amaral, que garante ter convencido o administrador financeiro da empresa das vantagens de Portugal, num almoço em Genebra.

O antigo ministro da Indústria e da Energia de Cavaco Silva assegura que o país tinha concorrência, mas estava em vantagem: “estivemos em concorrência com outros países, por exemplo a Irlanda e a Espanha, mas conseguimos desenhar um pacote de incentivos financeiros e fiscais e oferecemos uma região magnífica, Setúbal, um caso único no contexto europeu, perto duma capital da Europa, com um magnífico clima e magníficas acessibilidades e infraestruturas”.

A Autoeuropa instalou-se em Palmela como uma joint-venture criada pela marca alemã e pela Ford, com o objetivo de “construir uma fábrica multimarca para a produção do Volkswagen Sharan, Ford Galaxy e SEAT Alhambra”.

Em julho de 1991 assinaram com o Estado um contrato de investimento que, garantem, ainda é “o maior investimento estrangeiro em Portugal”. Há números e dados que nunca foram revelados. Sucessivos governos têm sido questionados sobre os apoios concedidos ao longo do tempo e contrapartidas negociadas, sobretudo quando estão em causa decisões da administração menos positivas para a produção nacional ou os trabalhadores.

Foto: Mário Cruz/Lusa Foto: Mário Cruz/Lusa

Questionado sobre as contrapartidas dadas ao gigante alemão e nunca divulgadas aos contribuintes portugueses, o homem que conduziu o negócio na altura é perentório sobre a ocultação destes dados: “mal estaríamos se os portuguese não percebessem que o investimento feito foi muito bem feito!” O antigo Ministro diz que não tem qualquer dúvida, foi um investimento “altamente produtivo”, aqui “não interessam valores absolutos, mas relativos”, e neste caso o investimento relativo até “foi baixo”.

No início de 1999, o Grupo Volkswagen assumiu a totalidade do capital social da Autoeuropa, que passa a chamar-se Volkswagen Autoeuropa. Hoje a fábrica produz os modelos T-Roc, Sharan e SEAT Alhambra, nos quatro níveis do processo de produção (Prensas, Carroçarias, Pintura e Montagem).

Em 2018 a fábrica passou a trabalhar em regime de laboração contínua, o que nunca tinha feito. Hoje saem diariamente de Palmela 890 carros, com destino aos mercados europeu e asiático.

Os números

Apesar das perdas registadas em 2020, o ano zero da pandemia, a Autoeuropa manteve a liderança das exportações nacionais. Hoje o grupo de Palmela é quem mais vende para o estrangeiro, mas até há pouco tempo, a posição foi ocupada pela Petrogal durante mais de uma década.

No ano passado, e pelo segundo ano consecutivo, a fábrica de Palmela foi a maior empresa exportadora de bens em Portugal, depois de ultrapassar a Petrogal em 2019, que liderava as vendas para o exterior há mais de uma década.

O último ano não foi fácil para o grupo. Com a pandemia, as exportações caíram mais de 10% e a produção automóvel caiu 23,6%, mas foi o terceiro melhor ano nas vendas ao exterior, de componentes automóveis.

Foto: José Sena Goulão/Lusa Foto: José Sena Goulão/Lusa

Da Autoeuropa saíram 192 mil veículos em 2020, uma queda face aos 254.600 contabilizados em 2019. O impacto nas exportações foi menor, mas representou 4,7% e a empresa é responsável por 1,4% do PIB nacional. Além disso, a unidade de Palmela fechou o ano com 5282 trabalhadores. A tudo isto somam-se ainda os impactos indiretos.

Mira Amaral defende que “a Autoeuropa é um bom exemplo do investimento direto estrangeiro que devemos captar para Portugal. É uma empresa industrial exportadora que abre novos mercados, permite fazer formação no posto de trabalho de jovens quadros e é integradora, abre mercado para os fornecedores (indústria de componentes).”

A Volkswagen Autoeuropa lidera as exportações, mas não está sozinha. Oito das dez maiores exportadoras estão ligadas ao sector: Autoeuropa (1º lugar), Bosch (4.º), Continental (5.º), Faurecia (6.º), PSA (7.º), Visteon (8.º), Aptivport (9.º) e Eberspaecher (10º).

Este é o retrato do cluster automóvel português, “uma grande história de sucesso”, defende Mira Amaral. A partir da Autoeuropa, foi possível desenvolver no país a indústria de componentes, “que faturou em 2019 11,9 mil milhões de euros, este ano irá faturar cerca de 10,7 mil milhões, devido ao covid, é responsável por 5% do PIB português e 16% das exportações portuguesas e emprega 63 mil pessoas.”

O futuro

“Os sucessivos governos têm conseguido aguentar a Autoeuropa”, diz Mira Amaral, mas será preciso mais do que isso no futuro. O antigo governante lembra que este é um sector em profunda transformação e o governo devia “preocupar-se e muito”.

“Era crucial desenvolver toda a cadeia de valor, desde a extração e produção de lítio, em que Portugal tem as maiores reservas da Europa, até à refinação desse lítio e à construção de uma fábrica de baterias. Essa era uma tarefa em que o governo se devia preocupar para defender o nosso cluster automóvel da transição do veículo de combustão interna para o veículo elétrico”, explica.

Com todas as marcas automóveis a apostarem fortemente nos veículos elétricos, é de esperar que a Volkswagen siga o mesmo caminho. Portugal tem de novo a oportunidade de se apresentar como um país competitivo, tendo em conta que o país “tem lítio nas minas e os maiores recursos de lítio da Europa”.

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