visao.sapo.ptapfigueiredo - 24 nov. 18:00

Visão | As moscas zumbem em fá

Visão | As moscas zumbem em fá

Talvez seja a melhor maneira de nos apresentarmos a um viajante intergaláctico: eu nasci num mundo em que as moscas zumbem em fá

É verdade, soube há dias: as moscas zumbem em fá. .

Sinto que não partilham ainda o meu orgulho. Tem-me acontecido muito haver pessoas que não se entusiasmam tanto com esta informação como eu. É o seguinte: eu fico comovido com o cuidado que foi posto na criação do mundo, a minúcia com que a obra foi feita. Alguém ou alguma coisa se dedicou a pormenores como este. Com ou sem palavras, terá ocorrido uma conversa deste género:

– Ah, e este mundo vai ter também moscas.

– Naturalmente. Em que nota deseja que elas zumbam?

– Boa pergunta. Experimente um si.

– Com certeza.

– Não, espere. Vamos pô-las a zumbir em fá.

– Excelente escolha.

Foi preciso criar a mosca, depois aproximar dela uma espécie de diapasão primordial, afinar a mosca, garantir que zumbia em fá, e só depois deixá-la ir. E continuar a fazer o mesmo com todas as moscas. Talvez ao mesmo tempo, com todos os milhares de milhões de moscas que nascem a cada segundo.

– Você aí, o 19 052º a contar da esquerda, na 24 089 712ª fila: está a zumbir em mi. É em fá.

– Peço desculpa, pensei que havia espaço para o improviso.

– Não, não. Isto não é jazz. Vamos seguir rigorosamente o plano. Olhem para a partitura. É fá.

Mas não é tudo. Para que nós saibamos que as moscas zumbem em fá não basta que elas tenham sido criadas a zumbir em fá. Foi preciso que alguém tivesse suspeitado de que as moscas zumbiam numa determinada nota e tivesse considerado boa ideia ir investigar que nota seria essa. Foi desse esforço conjunto que nasceu essa certeza que temos hoje: as moscas zumbem em fá. E o que isso significa, o que nos diz sobre o mundo, sobre o esmero com que foi feito e o rigor milimétrico com que tudo existe, traz-nos algum consolo. E, ao mesmo tempo, se as coisas batem absolutamente certo a este ponto, faz-me indagar porque é que o meu joelho direito estala sempre que subo uma escada. E, claro, também me faz perguntar em que nota será que estala?

(Crónica publicada na VISÃO 1499 de 25 de novembro)

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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