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Visão | Alerta vermelho: Os riscos, os desafios e as respostas possíveis sobre a crise do Clima por quatro cientistas

Visão | Alerta vermelho: Os riscos, os desafios e as respostas possíveis sobre a crise do Clima por quatro cientistas

Quatro dos mais respeitados cientistas portugueses na área do clima escrevem, em exclusivo para a VISÃO, sobre o presente e o futuro do País e do mundo. Um retrato dos riscos, dos desafios e das respostas possíveis para enfrentarmos uma das maiores ameaças da História da Humanidade
A importância da Ciência

É o conhecimento científico que nos mostra todo o impacto das alterações climáticas. E é esse conhecimento que nos pode também dar as soluções

por Carlos da Camara
Climatologista, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

A semana dos Nobel vem sempre acompanhada por discussões animadas acerca de quem serão os laureados nas diversas áreas e, este ano, o nome da ativista do clima Greta Thunberg voltou a ser badalado como favorito para o Prémio Nobel da Paz. O clima acabou por ser um dos temas escolhidos pelo comité Nobel, mas a distinção deu-se no campo da Física pura e dura, tendo os climatologistas, Syukuro Manabe e Klaus Hasselmann partilhado o prémio com o físico teórico Giorgio Parisi.

O comité do Nobel já havia selecionado o clima em 2007, quando o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) partilhou o prémio da Paz com o vice-presidente dos EUA, Al Gore, e, neste ano, uma repetição do prémio com Greta Thunberg teria tido, muito provavelmente, maior repercussão ao nível mediático. No entanto, a atribuição do Nobel da Física, inegavelmente por motivos científicos, dada a qualidade ímpar dos laureados, e, talvez também, por razões de pressão política, em vésperas da realização da 26ª Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas da ONU (COP26), vem dar relevo a um aspeto fundamental que tende a ser esquecido pelo cidadão comum: o de que o estudo do clima requer uma abordagem físico-matemática especializada, começando por se tratar de um problema científico e técnico, e só depois um problema socioeconómico, ambiental e ético.

A necessidade de integrar conceitos físico-matemáticos surge logo na definição de clima, na medida em que o termo se refere a uma coletividade de eventos meteorológicos que tiveram lugar numa dada região e num dado período de tempo, tomando-se um todo e sendo a sua individualidade esquecida. A caracterização do clima e da sua evolução requer, portanto, conhecimentos avançados de Física, de Estatística e de sistemas dinâmicos. Acresce que o próprio conceito é difícil de apreender pelo cidadão comum, na medida em que o clima não se vê, podendo apenas apreciar-se indiretamente os seus efeitos, seja nas características da vegetação natural, seja no tipo de habitação rural, seja na traça das cidades antigas. O facto de, com frequência, se ouvir dizer que determinado espetáculo foi interrompido devido às “condições climatéricas” é um indicador claro da confusão que ainda existe entre clima (coletividade) e estado do tempo (membro da coletividade).

Barragem do Pego do Altar, Alcácer do Sal A bacia do Sado é das que mais têm sofrido com a escassez de água. Os cenários preveem que a situação piore no Sul do País

São a Física e a Matemática que permitem explicar por que razão, não sendo o estado do tempo previsível para além de uma semana a dez dias, se pode, ainda assim, construir cenários confiáveis do clima a 30, 50 ou 100 anos. São a Física e a Matemática que permitem reconstituir o clima desde há meio milhão de anos, com base em informação precisa da temperatura, dióxido de carbono, metano e poeiras, obtida a partir da análise das camadas de gelo. São a Física e a Matemática que permitem discernir entre a variabilidade interna natural do clima, como o El Niño ou a Oscilação do Atlântico Norte (NAO), e as mudanças climáticas decorrentes de forçamentos externos, sejam estes naturais, como o vulcanismo e a atividade solar, sejam antropogénicos, como os decorrentes da emissão de gases com efeito de estufa. São a Física e a Matemática que permitem atribuir causa humana a um determinado evento meteorológico extremo e simular as não linearidades do clima, responsáveis por “efeitos borboleta” e por feedbacks que podem retardar ou acelerar a resposta a um dado forçamento.

Aumento de 52% da área ardida
Devido à sua natureza complexa, o clima apresenta, pois, um comportamento que se afasta de raciocínios simplificados baseados em modelos lineares em que, tal como numa mola elástica, a resposta climática seria proporcional ao forçamento e a supressão da causa forçadora levaria ao retorno ao estado anterior ao forçamento. Os cenários de clima futuro, produto de simulações efetuadas por modelos físico-matemáticos altamente sofisticados que correm nos mais poderosos supercomputadores existentes, são, assim, difíceis de assimilar pelo cidadão não especializado, avesso a tudo o que se afaste do senso comum, e as medidas de mitigação dos impactos das alterações climáticas, que implicam sacrifícios de toda a ordem, acabam por sofrer rejeições pelas comunidades, no todo ou em parte. Cite-se, a título de exemplo, a dificuldade em explicar a necessidade presente de se limitar o aumento da temperatura média global em 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais, em vez de se manter a meta de 2 ºC estabelecida, em 2015, no Acordo de Paris. A razão está no comportamento não linear dos extremos climáticos, cujo aumento não é proporcional a uma pequena variação de meio grau na temperatura, tendo ainda em conta que os grandes desastres meteorológicos se ficam a dever, na sua esmagadora maioria, à ocorrência de fenómenos extremos, tais como os episódios de seca, as ondas de calor, as tempestades e as cheias.

O comportamento não linear do clima explica também o pronunciado aumento em frequência que, nos últimos anos, tem vindo a observar-se em determinados eventos climáticos extremos e desastres a eles associados. Por exemplo, quando se contabilizam as secas, com duração da ordem de um ano, que assolaram a Península Ibérica no período 1901-2016, observa-se que os cinco episódios mais intensos tiveram lugar no século XXI, em 2005, 2012, 2009, 2015 e 2016. E, quando se compara, para Portugal, o total anual de área queimada em incêndios rurais, verifica-se que a média para o período 1980-2000 é de 91 mil hectares, enquanto para o período 2001-2019 é de 139 mil hectares, o que representa um aumento de 52%, tendo-se em conta ainda que os três anos com maior área ardida, 2017, 2003 e 2005, se situam no período mais recente.

O aumento de área queimada não se deve, contudo, apenas a uma maior frequência de extremos meteorológicos, sejam ondas de calor sejam ventos intensos, não podendo ignorar-se fatores ligados à atividade humana, como as mudanças drásticas da paisagem, com mais terrenos abandonados, mais área de mato e mais zonas florestadas, ou à diminuição e envelhecimento da população rural. Com efeito, os fatores antropogénicos do forçamento do clima são de tal forma cruciais que se acrescentou a antroposfera às cinco “esferas” com que tradicionalmente se estruturavam o sistema climático: a atmosfera, a hidrosfera, a criosfera, a litosfera e a biosfera.

Aquecimento: uma resposta natural do sistema climático
A Humanidade tem, portanto, responsabilidades acrescidas em tudo o que respeita as alterações climáticas, não só porque o comportamento humano tem um papel determinante no forçamento do clima mas, sobretudo, porque é o único fator que pode ser modificado mediante um processo de consciencialização coletiva que leve a uma mudança drástica de comportamentos à escala global. Tal mudança é, no entanto, extremamente difícil de levar a cabo por diversas razões. Em primeiro lugar, porque o pessimismo do presente século tem levado frações da população a pôr em causa o método científico e a seriedade dos cientistas, preferindo seguir, de forma acrítica, teorias da conspiração sem qualquer base de sustentação, tal como recentemente sucedeu quando diversas vozes puseram em causa a vacinação contra a Covid-19. Em segundo lugar, porque os resultados de uma mudança de comportamento irão demorar muitas dezenas de anos a ter efeitos palpáveis, entrando, assim, em conflito com a mentalidade dominante que visa o lucro imediato e que tem como horizonte temporal a duração de uma legislatura. Em terceiro lugar, porque o esforço económico requerido é de difícil aceitação, quer pelos países mais ricos, que não estão dispostos a sacrificar o nível de vida que têm, quer pelos mais pobres, que se sentem no direito de vir a ter o que os outros já alcançaram.

Mostram a Física e a Matemática que as alterações climáticas que já vivenciamos não são mais do que a resposta do sistema climático com vista a alcançar o equilíbrio dinâmico que garante a continuidade do seu funcionamento em harmonia com os forçamentos impostos pela atividade humana. Ao invés do que muitos pensam, não se trata de uma “vingança da Natureza”, mas tão-somente de uma resposta natural do sistema aos novos condicionalismos externos, tal como o corpo humano aumenta o batimento cardíaco após um esforço ou transpira quando a temperatura ambiente se eleva.

Só a Ciência e a técnica são capazes de produzir cenários credíveis de clima futuro, estabelecer metas de comportamento da Humanidade que permitam mitigar, dentro do possível, os impactos das alterações climáticas e delinear estratégias de adaptação que possam limitar os danos. Não me parece que haja muito espaço de manobra nem lugar para muitas ilusões. Se não formos nós a cuidar do clima, será o clima que cuidará de nós.

O que o calor faz ao corpo

O aumento do número de dias acima dos 35 ºC é uma das consequências mais preocupantes das alterações climáticas em Portugal, com efeitos diretos na mortalidade – a onda de calor de 2003 terá matado cerca de duas mil pessoas no País. Estes são os efeitos das altas temperaturas no corpo humano

Cansaço, tonturas, náuseas, dores de cabeça e sensação de desmaio. A temperatura corporal pode ultrapassar os 40 ºC

A tensão arterial baixa e o ritmo cardíaco aumenta, com o coração a trabalhar mais para tentar controlar a temperatura do corpo; essa pressão extra pode ser fatal em pessoas com complicações cardíacas

Irritação na pele, sobretudo nas virilhas, nas axilas, no pescoço e nos cotovelos

O calor exacerba a poluição do ar, nomeadamente os níveis de ozono, afetando os pulmões e agravando as doenças pulmonares, como a asma

Os tornozelos tendem a inchar, devido ao aumento do fluxo sanguíneo

Um Portugal (muito) mais agreste

Da agricultura às florestas, da saúde à erosão costeira, as ameaças para o nosso país já se fazem sentir – e serão bem mais sérias no futuro

por Filipe Duarte Santos
Investigador em alterações climáticas e presidente do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável

As alterações climáticas antropogénicas não são uma previsão para o futuro, mas uma realidade atual que está a agravar-se e que assim continuará até se conseguir atingir a neutralidade carbónica global. Aliás, as alterações climáticas só começarão a retroceder várias décadas após a neutralidade carbónica global. Estamos perante um problema cuja base científica se conhece desde os artigos de Joseph Fourier (1827), John Tyndall (1863), Svante Arrehnius (1896) e Gilbert Plass (1956). A Humanidade tem atrasado a sua resolução, porque a principal causa resulta das emissões de dióxido de carbono provenientes da combustão dos combustíveis fósseis, que asseguram cerca de 80% das fontes primárias globais de energia. Vamos ter de nos adaptar às mudanças climáticas durante muito mais de um século.

Interessa, pois, conhecer quais são os principais impactos no mundo e especialmente em Portugal. As alterações climáticas caracterizam-se por um aumento da temperatura média global da atmosfera à superfície (aquecimento global) e por uma maior frequência e intensidade de eventos meteorológicos extremos, tais como ondas de calor, secas e chuvas muito intensas em períodos curtos, causadoras de inundações, enxurradas e deslizamentos de terras. Caracterizam-se também por causarem mudanças nos regimes de precipitação regional e a subida do nível médio global do mar.

Por várias razões que não é possível detalhar aqui, a Região do Mediterrâneo é especialmente vulnerável, ou seja, é um hotspot das alterações climáticas, principalmente porque está a sofrer uma diminuição acentuada da precipitação média anual. A partir dos finais da década de 1960, começou a chover menos em Portugal Continental, sobretudo nos meses de janeiro, fevereiro e março, muito importantes para a agricultura, florestas e biodiversidade. Este processo irá continuar durante muitas décadas.

Pedrinhas, Esposende A costa do Centro-Norte é a que se tem mostrado mais vulnerável à erosão costeira, obrigando a intervenções de emergência Foto: Lucilia Monteiro

Esta nova tendência reforça o contraste entre um Norte húmido, mas agora menos húmido, e um Sul seco, mas agora mais árido. Em Portugal, a área em que a precipitação anual é inferior a 400 milímetros por ano tem aumentado e inclui já grande parte do Alentejo. O clima na Península Ibérica tornou-se mais quente e mais seco, o que, em especial nas regiões do Sul, afeta a disponibilidade de recursos hídricos, prejudica a agricultura, aumenta o risco de incêndios florestais e rurais e afeta profundamente a biodiversidade, obrigando a uma migração das espécies demasiado rápida e muitas vezes impossível. Estima-se que o aumento da temperatura média global de 3° C, relativamente ao período pré-industrial, elevará os prejuízos anuais causados pelas secas na Europa, de €9 400 milhões para €45 mil milhões, sendo o Mediterrâneo uma das regiões mais afetadas.

As novas doenças
A agricultura é um dos setores mais vulneráveis, também pelo facto de a rápida mudança do clima agravar ou introduzir pragas e doenças nas culturas, obrigando ao uso mais intensivo de fitofarmacêuticos. A adaptação da agricultura necessita de maior eficiência na utilização da água por meio de tecnologias apropriadas, mas também de maior disponibilidade de água, que se pode obter, por exemplo, por reciclagem das águas residuais urbanas. É necessário desenvolver o melhoramento genético das plantas e recorrer a novos cultivares mais bem adaptados a um clima mais quente e seco.

As florestas, por seu lado, são essenciais para travar a desertificação. É imperativo reflorestar e diminuir o risco de incêndio por meio de um ordenamento e de uma gestão mais adequada à mudança climática, e reduzir o número de ignições. Estima-se que, em 2075, a área florestal ardida nas várias regiões da Península Ibérica poderá aumentar para o dobro ou o triplo se não forem implementadas medidas de adaptação adequadas.

Na saúde, há que considerar a crescente intensidade das ondas de calor, cujo efeito é agravado nas zonas urbanas, as doenças transmitidas por artrópodes vetores e roedores (doença de Lyme, dengue e outras), os efeitos nocivos da poluição atmosférica produzida pelos incêndios florestais, as doenças associadas à má qualidade da água resultante da sua escassez e muitos outros aspetos.

A forte erosão que se observa em alguns troços das zonas costeiras deve-se ao défice de sedimentos transportados pelos rios, resultante da construção de barragens e de dragagens. A subida do nível médio do mar nas zonas costeiras de Portugal foi apenas de 20 centímetros. Porém, a subida do nível do mar está a acelerar-se e será da ordem de 80 centímetros no final deste século, o que irá obrigar a custos económicos muito elevados para proteger a costa.

É esta a súmula possível dos impactos em Portugal Continental. Cada país já elaborou uma lista semelhante dos impactos adversos presentes e futuros. Os países com economias avançadas, entre os quais Portugal, são menos vulneráveis do que os restantes, por terem maior capacidade de adaptação. Seria racional começar a reduzir as emissões globais de gases com efeito de estufa. É isso que se espera da COP26 em Glasgow.

Pequenas diferenças aparentes, enormes impactos

Com a Cimeira do Clima à porta, é fundamental percebermos que um aumento de temperatura de 2º C tem efeitos muito maiores do que um de 1,5º C – uma diferença de centenas de milhões de pessoas a serem afetadas pela escassez de água e alimentos, ondas de calor, secas e incêndios

por Pedro Matos Soares
Investigador principal no Instituto D. Luiz, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

O último relatório do IPCC, divulgado em agosto e baseado em 14 mil artigos científicos, retrata com uma solidez ímpar a evolução do sistema climático passado e as projeções futuras, de acordo com diferentes cenários socioeconómicos (e as correspondentes concentrações de CO2). Esta robustez alimenta-se numa quantidade sem precedentes de observações da Terra, em modelos físico-matemáticos de nova geração do sistema terra e em novas metodologias de atribuição e compreensão dos fenómenos climáticos, e em particular dos extremos.

O relatório é claríssimo na caracterização dos diferentes futuros para o clima, em resposta às diferentes trajetórias de emissões, e na absoluta urgência de mitigação das mesmas. De uma forma sintética, podem salientar-se as seguintes mensagens-chave: 1) as alterações climáticas são indubitavelmente da responsabilidade das atividades humanas, que resultaram em crescentes emissões de gases de estufa e em modificações do uso do solo; 2) o clima está a mudar a um ritmo sem precedentes cifrando-se o aquecimento global em1,1º C relativamente ao período pré-industrial; 3) as novas metodologias de atribuição e o acelerar da mudança climática mostram que as atividades humanas contribuem diretamente para o aumento da frequência e intensidade dos extremos, tais como ondas de calor, precipitação extrema e secas agrícolas e ecológicas; 4) nos cinco cenários de emissões avaliados, o limite de 1,5º C será atingido e mesmo excedido nos próximos 20 anos. No cenário mais gravoso, esse limiar poderá ser já ultrapassado na presente década. No entanto, no cenário com forte mitigação de gases de efeito estufa, a temperatura global provavelmente cairá no final do século e estabilizará abaixo de 1,5º C; e, 5) uma forte e pronta redução de emissões é crucial para se limitar o aquecimento global a 1,5º C no fim de século, ou será tarde demais.

Meio grau importa?
Num contributo vital para a compreensão do que significam para a Humanidade os limites do aquecimento global do Acordo de Paris, o IPCC lançou, no final de 2018, um relatório especial (IPCC, 2018: Global Warming of 1,5° C) centrado na caracterização do quão diferentes serão os impactos associados aos limiares de aquecimento global de 1,5º C e 2º C no fim de século. A realidade é os números serem esmagadores para uma aparentemente tão pequena diferença de 0,5º C, que para muitos de nós não passa de uma abstração.

De facto, projeta-se que, para um aumento de 1,5º C, 14% da população mundial estará exposta a ondas de calor severas pelo menos uma vez a cada cinco anos; este número aumenta para 37% se os 2º C forem atingidos – refira-se que estamos a falar de cerca de dois mil milhões de pessoas. Se focarmos o número de pessoas afetadas mais frequentemente por ondas de calor extremas, este número diminui para 420 milhões, e para 65 milhões se aludirmos a ondas de calor excecionais, tais como as que temos vindo a testemunhar nestes últimos anos em tantas partes do mundo. Esta incidência de extremos de temperatura acarretará um acréscimo impressionante de mortalidade e morbilidade por golpes de calor, doenças cardiovasculares e respiratórias, alergias, etc.

Pedrógão Grande O fogo de 2017 foi uma amostra trágica do que o futuro nos reserva – as ondas de calor associadas às secas vão fazer aumentar muito o risco de incêndios

Se falarmos de água, a fração de população global exposta a escassez de água para o limiar de 1,5º C será 50% menos do que para o limiar de 2º C, o que se traduzirá em menos 184 a 270 milhões de pessoas. Esta escassez de água é cumulativamente resultado do aumento da temperatura e do aumento da frequência de secas, e não diz respeito só ao mundo rural, de todo. Projeta-se que, nas zonas urbanas, mais 61 milhões de pessoas estarão sujeitas a seca severa quando se compara os dois níveis de aquecimento para o fim do século. Em resultado de um sistema climático mais energético, a frequência e intensidade de incêndios e de extremos de precipitação também se estenderá a muito mais regiões do mundo, no caso do limiar de 2º C.

Os pobres são quem mais sofre
O aquecimento global diz também respeito aos oceanos, o que provocará uma elevação da acidez e diminuição do oxigénio em todas as bacias oceânicas. Uma projeção mostra que a pesca marinha perderá cerca de três milhões de toneladas se se atingir os 2º C, o dobro da diminuição projetada para 1,5º C. Esses 0,5º C de aquecimento extra resultarão numa subida do nível do mar que afetará diretamente mais 10 milhões de pessoas. Todos estes fatores terão um impacto incomensurável na segurança alimentar e escassez de alimentos para centenas de milhões de pessoas adicionais, quando se comparam ambos os limiares. A perda dos habitats para insetos, plantas e vertebrados duplica de um limiar de aquecimento para o outro, e terá vastas repercussões na biodiversidade, e consequências também no setor alimentar pela importância dos insetos na polinização das culturas. Este relato poderia prosseguir e estender-se a todos os ecossistemas terrestres e marinhos, de que é exemplo icónico a esperada perda, praticamente total, dos recifes de coral se o limiar de 2º C for atingido, enquanto se salvaguardariam pelo menos 10% se se mantivesse o aquecimento em 1,5º C.

Por último, estima-se que as perdas para a economia resultariam, em 2100, num PIB per capita 8% menor para 1,5º C e 13% inferior para 2º C de aquecimento, quando comparado com a manutenção da temperatura média atual. Estes duríssimos impactos e perdas económicas atingiriam de forma mais acentuada os países mais pobres, ditos em desenvolvimento, e claro as pessoas mais vulneráveis. Perante estes números, imagine-se o que será um mundo em que a temperatura média global aumente 3º C ou 4º C, em que todos estes impactos serão exacerbados não linearmente, ou seja serão muito mais intensos e, por isso, terrivelmente nefastos.

O tempo é de urgência. Um facto inexorável é que, a verificar-se um fiasco na COP26, em Glasgow, condenaremos seguramente milhões de pessoas a impactos devastadores. É de enorme relevância ter em conta que tudo o que contribua para um efetivo corte emissões, e a mitigação do aquecimento global, significa salvar milhões da desarticulação da sua vida, da perda do seu modo de subsistência, quando não da doença e da morte – e, por isso, importa agir! Por último, quanto mais robusta for a mitigação menores serão também os custos de adaptação para toda a sociedade.

Trilhar um caminho de mitigação não é de todo irrelevante, seja de que dimensão for, uma vez que resultará sempre na salvaguarda dos meios de subsistência de centenas de milhões de pessoas.

​A encruzilhada da nossa civilização

Este ano, temos visto pequenas amostras do que aí vem. E falta-nos tempo até que a Ciência chegue à tecnologia necessária para a transição energética

por Carlos A. Cupeto
Geólogo, professor na Universidade de Évora e membro do Conselho Coordenador da SEDES de Évora

Há quase uma década, Stephen Emmott, no seu livro Dez Mil Milhões – Enfrentando o Nosso Futuro, escreveu preto no branco sobre a causa de todas as coisas: “Somos muitos.” Ou seja, a explosão demográfica tudo explica. O aumento da população é o único sentido da História da Humanidade e é o que provoca o efeito “alteração climática”. Afinal, com esta realidade, a sustentabilidade, de que há décadas todos falamos, é insustentável.  A agonia da Terra, devido ao esgotamento de recursos e aos significativos impactos irreversíveis nos seus ciclos naturais, é grande e real. Como se isto não bastasse, a verdade não é assumida; pelo contrário, é rodeada por “soluções” que não conduzem a qualquer mudança; fica tudo na mesma, porque é o essencial para o modelo vigente. É assim que chegamos à Glasgow Climate, a 26ª conferência.

É óbvio que Glasgow não vai ser significativamente diferente, não pode ser diferente. Alguns cientistas começam a admitir que uma mudança significativa do nosso modo de vida não é possível e teria consequências ainda mais catastróficas. Assim, o enorme desafio que temos em mãos não tem solução única ou simples e exige, no mínimo, a verdade.

Sabemos que a Terra é finita e que todos temos direito a recursos e a alimentos. Em 50 anos, a produção de carne aumentou 500% e ainda assim a fome é um flagelo. Tudo se pode resumir numa só palavra: consumo. Consumir cada vez mais, com uma enorme intensidade, é um desígnio do nosso modo de vida, incapaz de suportar o conceito de “sustentabilidade”. A receita, conhecida por transição energética, que nos soa bem e é incontornável, é uma mudança radical e abrupta com consequências imprevisíveis; a vida como não a conhecemos.

Há décadas que as consequências são conhecidas e estão previstas. Os 14 mil artigos científicos que sustentam o mais recente relatório do IPCC não deixam dúvidas: o difícil é encontrar um só artigo que aponte um caminho, um conjunto de soluções que evite o acidente e que nos situe na tal transição. A China retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, essencialmente através de centrais de carvão a baixo custo. É esta tecnologia que anda a exportar pelo mundo, nas zonas mais pobres de África e da Ásia. Entre 2000 e 2018, a China triplicou a quantidade de carvão consumido. Na verdade, apesar de tudo o que se propagandeia, os combustíveis fósseis fornecem cerca de dois terços da eletricidade mundial, contra os 7% das renováveis. Dizem-nos que mudanças de políticas, designadamente através de taxas verdes mais consistentes e fortes, nos conduzirão à transição energética; tenhamos presente que estas taxas são pagas pelo petróleo. Não há “tecnologia verde” que satisfaça as necessidades energéticas, e falta-nos tempo para que a Ciência chegue à tecnologia necessária. Não há tempo, e vontade, para a inovação de que necessitamos.

Viver a crédito
Por quanto mais tempo a insustentabilidade em que vivemos é suportável pela Terra? Neste ano, a 29 de julho, atingimos o Earth Overshoot Day (dia da sobrecarga da Terra). Todos os anos, este dia ocorre mais cedo. Daí até ao final do ano, durante cinco longos meses, vamos viver com o que não temos. Isto é possível durante mais quantos anos? Se atendermos que o primeiro semestre de 2021 foi, comparativamente, um tempo de pouca atividade económica, este facto é assustador.

E em Portugal? Absurdamente, por cá este dia atingiu-se dois meses e meio mais cedo: a 13 de maio, esgotámos os nossos recursos. Dizem-nos que Lisboa é Capital Verde da Europa, que somos “o professor da transição energética na Europa” (ministro Matos Fernandes), mas, na verdade, somos pobres e não suficientes, um País com uma densidade populacional cada vez mais baixa, e como resultado desta triste equação gastamos aquilo a que temos direito em pouco mais de cinco meses. Vamos estar sete meses a viver do que não temos e que pertence a outros; gastamos e não produzimos. Como é possível tal absurdo? Diga-se que, no geral, o desempenho da Europa é miserável. Apesar de tudo, a China atinge o Earth Overshoot Day (7 de junho) bem mais tarde do que a generalidade dos países europeus; quem diria? O próprio Brasil, tão questionado pela Amazónia, um verdadeiro produtor alimentar do planeta, atinge a sobrecarga a 27 de julho.

Mesmo os mais otimistas, ou distraídos, deram-se conta de que, nos últimos meses, um pouco por todo lado, ocorreram algumas pequenas amostras do que acontecerá: contingências naturais nunca antes vistas, de Natureza imprevisível (o quê? quando? e onde?), cada vez mais frequentes e com efeito mais significativo. Isto é, ocorrências a roçar o inimaginável. Como sabemos, Portugal tem uma localização, geográfica, de grande exposição atlântica e tectónica particularmente sensível.

Estamos numa encruzilhada civilizacional e temos de responder com seriedade: como atingir a neutralidade carbónica garantindo energia fiável disponível a toda a hora?

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