visao.sapo.ptapfigueiredo - 27 out. 18:00

Visão | “Sapiens” ou “Stupidus”?

Visão | “Sapiens” ou “Stupidus”?

Passou o tempo destinado a alertar as pessoas para a necessidade de nos preocuparmos com as alterações climáticas. Já nada mais há a fazer nesse domínio. É preciso, isso, sim, agir, tomar as medidas necessárias que impeçam a contínua subida das temperaturas, que nos obriguem a todos, enquanto Humanidade, a permitir que a nossa espécie continue a existir na Terra – porque o planeta, connosco ou sem nós, continuará a girar à volta do Sol, durante mais uns quantos milhões de anos

Com base nos vestígios arqueológicos que chegaram até nós, calcula-se que os primeiros Homo sapiens – uma espécie animal de primatas com um cérebro capaz de criar linguagem, raciocínio abstrato e de resolver problemas complexos – apareceram na Terra há cerca de 300 mil anos. De então para cá, nesse espaço de tempo, que não passa de um instante fugaz na vida de um planeta formado há 4,5 mil milhões de anos, a nossa espécie conseguiu multiplicar-se e espalhar-se por todos os continentes, tornando-se a força dominante. O seu imenso poder foi resultado de uma única característica que a distingue dos outros animais: a sua inteligência. A sabedoria a que se refere o Sapiens latino.

Graças a essa mesma inteligência, atualmente sabemos tudo o que precisamos de saber sobre as nossas hipóteses de sobrevivência na Terra. Sabemos também quase tudo sobre o impacto que tivemos nas outras espécies existentes no planeta – e nas muitas que ajudámos a extinguir. É hoje absolutamente consensual que as alterações climáticas são fruto do aquecimento global provocado pela industrialização à base de combustíveis fósseis. Temos igualmente todos os cenários possíveis do que nos pode acontecer, caso a temperatura média global suba mais um par de graus nas próximas décadas. Já fomos informados, em cada cenário, de quais serão as consequências, não só para o nosso modo de vida mas também para os perigos que podem existir para o nosso organismo.

Passou, portanto, o tempo destinado a alertar as pessoas para a necessidade de nos preocuparmos com as alterações climáticas. Já nada mais há a fazer nesse domínio. É preciso, isso, sim, agir, tomar as medidas necessárias que impeçam a contínua subida das temperaturas, que nos obriguem a todos, enquanto Humanidade, a permitir que a nossa espécie continue a existir na Terra – porque o planeta, connosco ou sem nós, continuará a girar à volta do Sol, durante mais uns quantos milhões de anos.

Nos próximos dias, numa sucessão impressionante de encontros de líderes mundiais, que inclui reuniões setoriais da União Europeia, das nações do Sudeste Asiático (ASEAN), do G20 e que culmina com a grande Cimeira do Clima em Glasgow (COP26), ficaremos a perceber se o mundo vai conseguir ou não agir para garantir que a vida das próximas gerações não se vai transformar num autêntico inferno na Terra. Apesar dos avisos e das muitas proclamações de datas para a descarbonização, têm-se multiplicado, recentemente, as incertezas e as dúvidas sobre o êxito da cimeira. Por uma razão simples: face à crise energética e à necessidade de retoma da economia no pós-pandemia, as preocupações voltaram a ser de curto prazo, e começa-se a perder a inteligência de olhar para o futuro. Se persistirmos nesse erro, ficaremos com o destino traçado – e em vez de Sapiens, talvez devêssemos mudar o nome da nossa espécie para Stupidus.

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