observador.ptobservador.pt - 27 out. 16:34

Fact Check. As alterações climáticas não tiveram impacto no Pólo Norte?

Fact Check. As alterações climáticas não tiveram impacto no Pólo Norte?

Publicação distorce uma citação de Al Gore para argumentar que o aquecimento global não teve impacto no Pólo Norte. Não é verdade: os pólos têm sofrido particularmente com as alterações climáticas.

Um conjunto de páginas de Facebook, em Portugal e vários outros países do mundo, têm partilhado profusamente nos últimos meses uma publicação com o objetivo de negar o impacto das alterações climáticas no Pólo Norte, alegando que uma “promessa” feita pelo ex-vice-presidente dos EUA Al Gore em 2009 não se cumpriu. Trata-se de uma publicação com várias falhas que não pode ser considerada verdadeira.

A publicação é protagonizada por uma imagem dividida ao meio. Na parte de cima, surge uma citação atribuída a Al Gore, em 2009: “O Pólo Norte ficará sem gelo no verão de 2013 devido ao aquecimento global causado pelo homem.” Em baixo, uma imagem onde se vê gelo e neve promete desmentir Al Gore com um “Népia, continua frio”.

A acompanhar a imagem, surge um texto bastante crítico do ativismo ambiental. “Como não resultou com um homem de fato, agora meteram uma jovem de trancinhas a fazer o mesmo papel”, lê-se, numa referência aparente à jovem ativista sueca Greta Thunberg. A publicação prossegue lembrando que já houve “dezenas de outros com previsões do apocalipse” e que “a treta é sempre a mesma”.

Em primeiro lugar, a citação atribuída a Al Gore não é exata. Com efeito, como aponta o Politifact num artigo dedicado a desmontar uma versão norte-americana desta publicação falsa, é verdade que Al Gore disse algo do género, mas com menos certezas. Al Gore falava na COP 15, a cimeira das Nações Unidas sobre o clima que decorreu em Copenhaga, na Dinamarca, em dezembro de 2009, e referia-se a estudos realizados por investigadores ligados à Marinha norte-americana.

“Alguns dos modelos indicam ao Dr. Maslowski que há uma probabilidade de 75% de a totalidade do manto de gelo do Pólo Norte, durante alguns meses do verão, poder desaparecer completamente dentro dos próximos cinco a sete anos”, disse Al Gore.

Apesar de menos dramático do que o sugerido pela publicação, o que é certo é que as declarações de Al Gore causaram perplexidade na altura. Tanta que o próprio oceanógrafo Wieslaw Maslowski veio dizer, ao jornal inglês The Times, que aquela percentagem de 75% estava incorreta — e que era imposs��vel apresentar uma probabilidade para aquele fenómeno com tamanho grau de precisão.

Mais tarde, através do seu gabinete, Al Gore explicou que a percentagem lhe tinha sido transmitida informalmente por Maslowski durante uma conversa tida alguns anos antes — apenas com um intuito ilustrativo e não com base em cálculos exatos.

Em segundo lugar, a parte de baixo da imagem também não é exatamente correta. É evidente que o Pólo Norte continua frio e com gelo durante grande parte do ano, mas basta olhar para as imagens anuais captadas pela NASA relativamente ao manto polar ártico para se ter uma perceção clara de como a parte do Oceano Ártico coberta de gelo, nos meses de verão, tem sido cada vez mais reduzida — e o mesmo para os meses de inverno, quando o manto de gelo atinge a extensão máxima.

O possível desaparecimento da cobertura de gelo no Oceano Ártico devido ao aquecimento global tem sido uma preocupação bastante estudada pelos cientistas do clima. Um estudo recente sublinha que, ao ritmo atual de aquecimento do planeta, o gelo poderá desaparecer do Ártico durante o verão a partir de 2035. (Pode ler mais sobre as preocupações dos cientistas relativamente ao Oceano Ártico, por exemplo, aqui e aqui.)

Por fim, importa também olhar para o texto que acompanha a imagem de Al Gore, cuja mensagem se resume a uma recusa do impacto das alterações climáticas e do aquecimento global no Pólo Norte. Não é verdade. Os dois pólos do planeta Terra, que são as zonas mais frias do globo e têm uma importância vital para o arrefecimento do planeta, têm sofrido alguns dos piores impactos do aquecimento global ao longo das últimas décadas, como o Observador explicou pormenorizadamente neste longo artigo de 2020.

A título de exemplo, o ano de 2020 foi o mais quente desde que há registos na Sibéria — uma região que tem sofrido incêndios muito frequentes e tem atingido temperaturas inimagináveis num cenário sem alterações climáticas. No mesmo artigo, o investigador Gonçalo Vieira, coordenador do Programa Polar Português, alertava para o facto de o Ártico estar a aquecer a uma taxa “duas vezes a média global” do planeta — ou seja, ao dobro da velocidade, o que alimenta a “retroação positiva”. Na prática, quanto maior for o aquecimento, mais rápido vai ser o aquecimento.

Incêndios na Sibéria, temperaturas recorde, o solo a descongelar. O que se está a passar nos pólos?

Ao simples degelo (que aumenta o nível do mar) soma-se também o colapso do pergelissolo, o solo permanentemente gelado que caracteriza os pólos e que tem toneladas de metano e dióxido de carbono armazenados há milénios. Com o degelo, estes gases vão ser libertados, acentuando o efeito de estufa e acelerando ainda mais o degelo subsequente.

Conclusão

Toda a publicação assenta numa mentira central: a ideia de que as alterações climáticas não estão a afetar o Pólo Norte apenas porque continua “frio”. Trata-se de uma afirmação cientificamente errada que, além disso, se procura justificar através de uma citação distorcida de Al Gore. É verdade que o ex-vice-presidente dos EUA afirmou em 2009 que em alguns anos o gelo poderia desaparecer do Ártico durante o verão — e, embora Gore tenha acentuado o dramatismo da afirmação, a verdade é que a comunidade científica está de acordo quanto à ameaça que as alterações climáticas representam para o manto de gelo do Ártico.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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