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Heróis do mar ou salteadores?

Heróis do mar ou salteadores?

Não caiamos na ingenuidade de classificar estes movimentos de “cancel culture” de simples “patetice”. Tal como nos EUA, este tipo de extremismo redunda numa enorme vantagem política para a extrema-direita.

Na sua edição de 22/10/2021, o jornal PÚBLICO, na sua secção de Opinião, ofereceu aos seus leitores um artigo de Inês Beleza Barreiros, intitulado Os Murais do Salão Nobre: documento do colonialismo ou o colonialismo (ainda hoje) em acção? O texto reflecte a visão da autora relativamente ao que considera ser o significado político das pinturas murais que decoram o Salão Nobre da Assembleia da República: “As imagens não ilustram argumentos, elas são o argumento colonial; não são um documento do colonialismo, mas o colonialismo em acção.” E, logo depois, interroga-se: “Perante imagens como estas, é imperativo perguntar: qual é o propósito de as mostrar hoje? Quem efectivamente as mostra? E quem ainda lucra em mostrá-las?” E, ainda acrescenta: “Os murais no Salão Nobre são, deste modo, exemplo de uma “visualidade” simultaneamente colonial e fascista, tanto por via do objecto representado e da sua forma quanto por via ideológica da encomenda.”

No essencial da sua opinião, a autora pretende resumir a questão principal da história portuguesa a um assalto, a “um crime que nada fica a dever ao horror do Holocausto!” Esta opinião – que faz parte de um vasto movimento mundial de cancelamento cultural, essencialmente baseado em valores morais actuais –, apesar dos seus inúmeros desmerecimentos, merece pelo menos que os seus prosélitos nos esclareçam completamente acerca da visão histórica com que se identificam. Assim, recuando ao tempo em que se iniciaram os descobrimentos, é altamente desejável que anunciem a sua opinião sobre os seguintes pontos (se é que a têm):

  1. Qual deveria ter sido o objectivo dessas expedições marítimas?
  2. Excluindo os actos de invasão, conquista, dominação, exploração, etc, que tipo de relacionamento deveria ter existido com os povos da América e da África Subsariana?
  3. Consideram os aborígenes dessas regiões como “pobres” que deviam ser ajudados a desenvolver-se?
  4. Se tiverem como opinião que os contactos deveriam prosseguir, quem se responsabilizaria pelo financiamento das necessárias viagens e do apoio ao desenvolvimento dos povos afectados pela pobreza?
  5. Seria moralmente aceitável adoptar uma atitude de completa abstenção, deixando esses povos, para sempre, entregues às condições em que os europeus os foram encontrar?

Ninguém minimamente disposto a uma discussão séria pode deixar de se surpreender com a ausência de propostas para responder a estas questões. Mas compreende-se: daria algum trabalho! É muito mais fácil resumir a questão a uns quantos conceitos de índole moral, unicamente possíveis, no presente, porque, como em muitas outras vertentes, a humanidade, ao longo dos séculos, se foi aperfeiçoando e cancelando violências que, progressivamente, foi considerando deslocadas e anacrónicas.

No final do artigo de Inês Beleza Barreiros, somos informados de que a autora é historiadora da Arte e doutorada em Media, Cultura e Comunicação pela New York University. Conhece, por conseguinte, um meio – o país e o meio universitário – onde a “cancel culture” tem prosperado nos últimos tempos. Soubemos, recentemente, que uma estátua de Thomas Jefferson foi “saneada” do edifício da Câmara Municipal de Nova Iorque, acto punitivo resultante de o famoso político norte-americano ter sido proprietário de escravos. Como ele, há diversos outros, entre os quais o primeiro Presidente, George Washington. Não tardará que o movimento lhe bata à memória. Que irão propor, além da defenestração de estátuas? Mudarão o nome da capital dos EUA e do estado que tem o seu nome, no noroeste de país?

Por cá, a autora já mostrou um “cartão amarelo” a Vasco da Gama, mas ainda se não atreveu a falar de Luís de Camões e de Os Lusíadas, por manifesta falta de coragem. Entretanto, não caiamos na ingenuidade de classificar estes movimentos de simples “patetice”. De momento, tal como nos EUA, este tipo de extremismo cultural redunda numa enorme vantagem política para a extrema-direita. Também por cá, a corrente política equivalente não deixará de contabilizar nas urnas a utilidade desta oferta, convenientemente disfarçada de “antifascista”.

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