ionline.sapo.ptAntónio Cluny - 26 out. 11:08

Beautiful world, where are you

Beautiful world, where are you

Nesta obra, Sally Rooney vai descrevendo a vida desconchavada de um grupo de jovens com estudos elevados e boas qualificações que nunca conseguem estabilizar a sua situação económica, social, familiar e pessoal.

Depois do meu texto de há quinze dias sobre a falta de esperança de toda uma geração de jovens, escrito inspirado na leitura de um conjunto de artigos do jornal francês Le Monde, sucedeu-se a divulgação, na comunicação social portuguesa, de uma série de aprofundados estudos sobre a precariedade e má qualidade dos empregos dos jovens e a sua miséria salarial.

No dia 18, foram publicados os resultados de um importante estudo do ISCTE sobre, precisamente, o desajustamento entre a elevada qualificação dos jovens e os fracos empregos que conseguem obter.

No dia 20, foi noticiado, também, um documentado estudo da Gulbenkian sobre o mesmo assunto.

As rádios e as televisões dedicaram, igualmente, entretanto, à mesma questão alguns marcantes programas.

Num deles, avançou-se mais e abordaram-se, inclusive, as causas e as consequências da pobreza, que afeta dois milhões de portugueses e – pasme-se -  atinge mesmo um terço dos trabalhadores com emprego.

De todos, resultaram duas ideias principais: a centralidade do papel do trabalho estável e com direitos no combate à pobreza e, por consequência, a exigência da sua remuneração condigna e capaz de fazer face às necessidades da vida do trabalhador e da sua família.

Os problemas da pobreza, sabemo-lo, não se situam todos no trabalho e na sua injusta remuneração, mas, para as novas gerações, tais aspetos revestem uma importância primordial, pois afligem-nos hoje e irão refletir-se duradouramente no resto das suas vidas.

De alguma maneira, podemos dizer que nos encontramos perante uma geração em que a precariedade não se confina à sua situação laboral, mas, por causa dela, se transmite a toda a sua existência, enquanto pessoas e possíveis fundadores de novas famílias.

A precariedade imposta pelo mercado do trabalho e as leis que o moldam, e a falta de respostas políticas, arrojadas e efetivas, para a combater afetam, assim, toda a centralidade da vida de uma geração emergente, criando insegurança não só na sua vida económica, como em todos os aspetos da sua vida pessoal.

Tais respostas – ou a falta delas - transcendem, pois, as questões mais detalhadas dos orçamentos anuais.

Elas só têm sentido se projetadas como um programa político atual, consistente e percetível e, por isso, como tal, gerador de esperança imediata.

As questões económicas e financeiras que lhes estão naturalmente associadas, por mais relevantes que sejam, situam-se, apenas, no plano técnico e não podem servir para iludir o fundo político das questões que se espelham na sociedade de hoje e se projetarão, seguramente, na de amanhã.

O Papa Francisco referiu-se-lhes, com propriedade, como razões da «economia que mata».

A questão é, portanto, política, mas também cultural e civilizacional.

Como no tempo de Balzac, Vítor Hugo, Zola e dos mais recentes escritores neorrealistas, alguma literatura atual começou a abordar o tema da precariedade da vida a que, em nome da inexistência de alternativas, se quer condenar as novas gerações; enfim a humanidade de amanhã.

Há alguns tempos que venho acompanhando a obra de uma jovem escritora irlandesa chamada Sally Rooney, de que foi publicado, recentemente, o romance Beautiful World, Where Are You.

Nesta obra – talvez mais explicitamente do que nas anteriores – a escritora vai descrevendo, em termos simples e de forma crua, a vida desconchavada de um grupo de jovens provindos das chamadas classes médias laboriosas, que, apesar de estudos elevados e das boas qualificações que neles obtiveram, não conseguem, todavia, depois, estabilizar a sua situação económica, social, familiar e pessoal.

Vivendo de empregos precários, com salários absolutamente insuficientes e, por isso, em casas partilhadas, tais jovens – que vão envelhecendo nessa situação - vão dissertando sobre a miséria da sua condição e da condição da sociedade em que lhes calhou viver.

A possibilidade de constituírem família - como aconteceu com a menos instruída geração dos seus pais -, vai, por tal razão, afastando-se cada vez mais e o futuro que anteveem é, ou parece-lhes ser, inexistente.

Vivem, por isso, numa espécie de tribo, em permanente contacto por via das redes sociais, num dia-a-dia de consumos mínimos, entre refeições embaladas, copos de má qualidade, entre autoenganos afetivos e amores que o não são - pois não chegam a amadurecer - dada a permanente flutuação dos empregos e dos lugares onde os encontram.

Falam, ocasionalmente de política e questionam-se, genuína e informadamente, sobre a situação que os aniquila, mas põem-se à margem das opções dos partidos que estruturam o sistema, que consideram responsáveis da perpetuação da sua condição.

Discutem ideias radicais, mas não sabem, nem pensam, verdadeiramente, assumir coletivamente a sua defesa organizada e militante.

Social e politicamente desarticulados, poucos são, entretanto, os que, deveras, os querem ouvir, e menos são ainda os que querem e sabem concitar e organizar o seu protesto.

Deprimem-se, pois, e afundam-se, desalentados, numa precariedade que não é já só laboral: é existencial.

Não sei se os nossos políticos têm – como os de outros tempos - ocasião para ler ficção entre os intervalos dos voos de avião e das reuniões políticas nacionais, europeias e internacionais.

O que julgo saber é que lhes conviria – e nos conviria a todos - perceber o que estão a ajudar a produzir.

Talvez lendo alguns destes livros, e não apenas os sempre requentados relatórios económicos elaborados por burocratas acríticos e submissos, conseguissem emocionar-se e começar a pensar em discutir e em fazer política a sério.

O futuro está à frente das novas gerações e, parafraseando Paul Nizan, não parece justo que lhe possam chamar feliz.   

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